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De entregador a escritor de sucesso: a trajetória do autor sul-coreano que conquistou o mundo

20 out 2026 - 13h12
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Resumo
Após uma década de rejeições e dificuldades financeiras, o sul-coreano You Yeong-Gwang transformou seu livro de estreia, A Loja dos Dias de Chuva, em um fenômeno global. Escrita em parte no celular enquanto ele trabalhava como entregador, a obra sobre a troca de tristezas por novos destinos já foi lançada em mais de 20 países. O romance consolidou a ascensão da "literatura de cura", gênero que oferece refúgio e acolhimento emocional diante das fortes pressões da vida contemporânea.

Rejeitado por editoras durante dez anos, You Yeong-Gwang escreveu parte de seu romance de estreia no celular. Hoje, sua obra é publicada em mais de 20 países.Rejeitado por editoras durante dez anos, o romance de estreia de You Yeong-Gwang se transformou em um sucesso internacional. The Rainfall Market conta a história de um mercado misterioso onde é possível trocar a tristeza por um novo destino.

Durante dez anos, as editoras rejeitaram o livro de You Yeong-Gwang. Mas, antes mesmo de ser impresso na Coreia do Sul, o manuscrito que havia sido deixado de lado já atraía editoras internacionais interessadas em adquirir seus direitos de tradução.

"Sou muito grato por o livro já ter sido publicado em mais de 20 países. O mais surpreendente é que ele também entrou na lista de mais vendidos da revista alemã Der Spiegel", contou à DW durante sua participação na Feira do Livro de Frankfurt de 2026.

Para um romance de estreia de um autor desconhecido, o sucesso foi extraordinário. A obra ganhou edições em 15 idiomas, incluindo inglês, alemão, espanhol e chinês tradicional. No Brasil, foi publicada em 2025 sob o título A Loja dos Dias de Chuva, pela editora Livros da Alice.

The Rainfall Market conta a história de um mercado misterioso e escondido que só abre quando chove. Nele, os visitantes podem trocar suas maiores tristezas por um bilhete que lhes dá direito a um destino inteiramente novo. A trama acompanha Serin, uma jovem desanimada que encontra por acaso um mercado administrado por espíritos excêntricos, onde descobre um ambiente acolhedor e reconfortante.

"Na verdade, a história de Serin é a minha história", afirmou You. "Durante muito tempo, cheguei a imaginar como seria maravilhoso se eu pudesse vender minha infelicidade e usar o dinheiro para comprar felicidade."

Quando escrevia o livro, o próprio autor atravessava um período difícil. "Eu precisava cuidar da minha mãe, que estava doente havia muito tempo, e também era responsável pelo sustento financeiro da minha família havia muitos anos. A vida parecia um fardo enorme", relembrou.

"Mas, quando escrevia, conseguia mergulhar no universo da história e, mesmo que por pouco tempo, esquecer aquelas circunstâncias. Por isso, escrever me fazia tão feliz. Eu realmente adorava."

Como surgiu A Loja dos Dias de Chuva

A ideia da chuva foi inspirada na própria vida do escritor. "Naquela época, eu sentia como se estivesse chovendo o tempo todo na minha vida", disse You.

A história se inspira fortemente no folclore tradicional coreano e é um exemplo da chamada "literatura de cura", já que a jovem protagonista precisa refletir sobre o verdadeiro preço de vidas aparentemente perfeitas. "Quando estava escrevendo, não tinha a intenção consciente de produzir uma obra de literatura de cura. Na época, eu nem sabia direito que existia essa classificação."

Inicialmente, You pretendia publicar o livro de forma independente e lançou uma campanha de financiamento coletivo. Como não conseguiu arrecadar o valor necessário, usou todas as suas economias para imprimir 200 exemplares, que as livrarias se recusaram a aceitar. Em um mês, vendeu apenas cinco. "Pensei: é isso. Agora realmente preciso desistir."

"Naquela época, eu tinha passado por uma cirurgia nos olhos e, por causa de complicações, não conseguia enxergar. Então comecei a trabalhar em um call center, onde podia usar a voz", contou You. "Durante a semana, trabalhava no call center e, nos fins de semana, frequentava um curso de informática. Passei alguns anos aprendendo a produzir livros por conta própria."

Durante uma das campanhas de financiamento coletivo, começou a trabalhar como entregador de comida. "O trajeto de ida e volta entre minha casa e a região onde fazia as entregas levava cerca de quatro horas por dia. Então eu escrevia no aplicativo de notas do celular enquanto andava de metrô."

"Mesmo quando enfrentava circunstâncias muito difíceis, conseguia continuar escrevendo porque os momentos dedicados à escrita me davam muita alegria. Por algum tempo, conseguia esquecer a situação difícil em que me encontrava", explicou.

Finalmente, o sucesso

"Reuni aqueles fragmentos de texto e lancei o que pretendia ser minha última campanha de financiamento coletivo", contou. A campanha tinha como objetivo financiar a publicação de A Loja dos Dias de Chuva.

"Para minha surpresa, a campanha deu certo e consegui publicar o livro comercialmente pela primeira vez", afirmou. Depois do sucesso do financiamento coletivo, o romance foi adquirido pela Clayhouse, uma importante editora sul-coreana. Antes mesmo do lançamento, o escritor já havia recebido propostas de editoras de cinco países e assinado contratos internacionais de publicação.

No primeiro mês após o lançamento, a edição original em coreano vendeu 30 mil exemplares, considerando todos os formatos. O livro chegou ao primeiro lugar entre os e-books mais vendidos e ao terceiro entre os livros impressos. "Ainda tenho dificuldade de acreditar que tudo isso aconteceu e que estou aqui na Feira do Livro de Frankfurt. Sou imensamente grato e feliz", disse You.

Literatura de conforto: uma nova expressão da onda coreana

A literatura se tornou uma das mais recentes expressões do poder de influência cultural da Coreia do Sul. Em 2025, as vendas de obras sul-coreanas traduzidas no exterior chegaram a cerca de 1,2 milhão de exemplares, pelo segundo ano consecutivo.

O sucesso internacional da literatura sul-coreana também ganhou destaque em 2024, quando Han Kang se tornou a primeira escritora do país a receber o Nobel de Literatura. Conhecida por obras como A Vegetariana, a autora aborda temas como violência, trauma e sofrimento humano.

Já o livro de You faz parte de um gênero em ascensão conhecido como literatura coreana de conforto. "Eu queria que os leitores sentissem um pouco de calor no coração ao fechar o livro", afirmou.

Embora a literatura coreana tenha se tornado conhecida inicialmente por obras mais sombrias e realistas sobre as condições sociais, a literatura de conforto nasceu em resposta às pressões da sociedade sul-coreana moderna. Ela oferece uma forma de escapar temporariamente da realidade de um sistema educacional extremamente competitivo, um mercado de trabalho implacável e uma intensa pressão no ambiente corporativo.

"Quando estava escrevendo, eu mesmo passava por um momento muito difícil e desejava que alguém me confortasse. Então pensei: por que não tentar ler algo assim? Por que não escrever alguma coisa que pudesse me consolar?", questionou You.

Com o aumento do esgotamento físico e mental em todo o mundo, cada vez mais leitores procuram obras capazes de oferecer conforto emocional, protagonizadas por personagens exaustos com os quais possam se identificar. Em geral, sem a necessidade de derrotar um vilão, as histórias acompanham protagonistas movidos por um profundo desejo de descanso, convivência e recuperação emocional.

O elemento de fantasia permite que os personagens se afastem da realidade. O gênero ganhou força inicialmente por meio de produções independentes, campanhas de financiamento coletivo na internet e recomendações de artistas famosos do K-pop.

Apesar de seu contexto coreano, esse estilo narrativo conquistou rapidamente leitores em todo o mundo, atraindo públicos diversos, desde aqueles já familiarizados com os dramas sul-coreanos de atmosfera acolhedora até os que simplesmente procuram um refúgio das angústias do mundo moderno.

Em 2025, o romance coreano mais vendido no exterior foi Bem-vindos à livraria Hyunam-dong, segundo o Instituto de Tradução Literária da Coreia. Escrito por Hwang Bo-reum, o livro foi publicado no Brasil em 2023 pela editora Intrínseca, com tradução de Jae Hyung Woo, e pertence ao mesmo gênero de A Loja dos Dias de Chuva.

Embora os leitores tenham abraçado o gênero, os críticos literários o veem com ceticismo. Eles apontam uma forte dependência de fórmulas previsíveis e repetitivas, muitas vezes construídas em torno de um único espaço mágico, com linguagem simplista e conflitos de pouca gravidade, que privilegiam a atmosfera acolhedora em detrimento de um desenvolvimento mais profundo dos personagens.

Em uma resenha de A Loja dos Dias de Chuva publicada no jornal Korea Times, o crítico literário Peter Juhl descreveu a literatura de cura como um conjunto de histórias leves, que fazem o leitor se sentir bem, e argumentou que a expansão do gênero reflete um esforço deliberado para escrever romances voltados ao mercado internacional.

Planos para o futuro

"É claro que fico feliz por meu livro estar recebendo tanto carinho e por poder escrever. Mas, acima de tudo, espero que minha mãe melhore e recupere a saúde", disse You, depois de contar que a mãe havia passado por uma cirurgia uma semana antes de sua chegada à feira.

Para além do livro, as pessoas parecem se identificar com a própria história de vida do escritor.

"Se tiver a oportunidade, gostaria de compartilhar mais histórias sobre esperança e sonhos com pessoas que estejam passando por situações semelhantes à minha", afirmou You. "Se minha história puder ajudar uma única pessoa, mesmo que só um pouquinho, de qualquer maneira que seja, acho que nada poderia me deixar mais feliz."

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