Criadora de 'Girls', Lena Dunham expõe em livro o custo de amadurecer em público
'Doente de Fama' revela bastidores da série dos anos 2010 e a relação conflituosa entre saúde e sucesso em Hollywood
Em seu novo livro de memórias, "Doente de Fama", Lena Dunham revisita os impactos de amadurecer sob o escrutínio público após o sucesso precoce da série Girls. A autora revela bastidores tensos das gravações — incluindo atritos com o ator Adam Driver —, o peso do privilégio e das críticas à sua imagem, além das severas consequências da superexposição midiática para sua saúde física e mental, marcada por cirurgias, dependência química e constante cancelamento nas redes sociais durante os anos 2010.
Ter sido um nome frequente nas redes sociais e na mídia nativa digital dos anos 2010 pode se mostrar muito útil durante a escrita de um livro de memórias. "Às vezes, era só digitar meu próprio nome no Google para encontrar uma data, imagem ou fotografia que as lembranças vinham à tona", escreve Lena Dunham em Doente de Fama (Record), segundo livro de memórias da atriz, cineasta e roteirista americana.
Por outro lado, essa obsessão online pelo nome de Dunham também colaborou para o agravamento dos problemas pessoais, profissionais e de saúde que a autora revisita na obra. "Meu nome se tornou uma marca de excelência, depois, um símbolo de um tipo de absurdo típico da geração millennial e, por fim, uma piadinha que soava mais como um insulto."
Lena Dunham se tornou uma figura midiática a partir da estreia de Girls, série da HBO que escreveu, dirigiu e protagonizou aos 23 anos. Exibido de 2012 a 2017, o seriado retratava com honestidade e acidez uma geração de garotas que se mudaram para Nova York em busca do glamour prometido por Sex and the City, a popular série de TV do final dos anos 1990, mas só encontraram trabalhos precários, apartamentos com percevejos e infecções sexualmente transmissíveis.
Para a curiosidade dos fãs de Girls, a autora conta bastidores das seis temporadas, mostrando tanto o prazer de viver o sonho de Hollywood sendo muito jovem - "o ambiente me fazia sentir como se eu estivesse sentada à mesa mais descolada da escola e ainda fosse paga para isso" - quanto os conflitos na produção.
Entre as principais revelações do livro está o comportamento imprevisível de Adam Driver, que interpreta o namorado da protagonista na série. Em um momento em que Driver e Dunham repassavam as falas a sós, por exemplo, ele teria gritado com ela e arremessado uma cadeira contra a parede. Já na primeira cena de sexo entre os dois, o ator teria ignorado os movimentos ensaiados e improvisado, deixando-a atordoada. "Senti que algo íntimo, confuso e primitivo havia se desenrolado em um cenário que eu deveria controlar", escreve Dunham, que atuava enquanto dirigia a cena.
Uma crítica presente desde o começo da primeira temporada era a de que o elenco principal de Girls seria composto por filhas de artistas, portanto elas não teriam chegado até lá por mérito próprio, a começar pela própria Dunham. No livro, ela reconhece as ajudas com contatos que recebeu da mãe, a artista plástica Laurie Simmons, às vezes as enumerando para mostrar que não foram tantas assim ("minha mãe acionou seu segundo e último favor", "ela tinha apenas um contato em Hollywood"), mas sempre intercalando com o relato dos bicos que precisou fazer para pagar o aluguel do seu primeiro escritório.
Favorecida pela família ou não, Dunham foi alçada a um lugar de prestígio e poder na cultura pop muito jovem e enquanto ainda morava com os pais. Os primeiros passos da vida adulta - ter um emprego, comprar um apartamento, começar um relacionamento - foram dados em público. Então a anormalidade da situação comprometeu sua saúde: sofreu crises de dissociação, passou por diversas cirurgias para tentar tratar um quadro grave de endometriose e foi diagnosticada com a síndrome de Ehlers-Danlos, que provoca dores nas articulações. Após o fim da sexta temporada, que Dunham chama de "temporada amaldiçoada", ela teve de enfrentar uma dependência por clonazepan e a retirada do útero.
Nessa época, Dunham ainda lidava com seu relacionamento midiático com o músico e produtor musical Jack Antonoff, as tensões com a amiga e produtora da série, Jenni Konner, as críticas sobre o seu corpo fora do padrão, que ela exibia nu em Girls, e os cancelamentos frequentes nas redes sociais por opiniões que dava. "Eu sou doente e as pessoas não gostam de mim", disse ela ao conhecer o homem que se tornaria seu marido.
Agora, aos 40 anos e com um distanciamento esperto, Dunham decidiu dar a própria versão desse período turbulento, como se tivesse feito uma "espera para que histórias constrangedoras afundassem mais um pouco nos resultados de busca do Google". É possível que funcione: millennials têm reassistido a Girls com ternura, enquanto a geração Z está descobrindo a série pela primeira vez - e com ela o nome Lena Dunham.
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