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Com Bete Coelho e Camila Pitanga, 'Lia Lia' explora a complexidade da identidade humana

Inspirada no livro 'Lia: Cem vistas do Monte Fuji', peça que desafia as convenções narrativas do teatro tradicional está em cartaz no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo

29 jul 2026 - 18h12
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As atrizes Bete Coelho e Camila Pitanga seguiam uma trajetória artística em paralelo, em que uma acompanhava de perto o trabalho da outra, mas nunca dividiram o palco. "Não nos encontramos em restaurantes ou em festas, apenas na plateia do teatro, que nos tornou amigas e nos permitiu fazer um pacto de algum dia encenar uma mesma peça", conta Bete, que percebeu o momento certo quando decidiu montar Lia Lia, trama existencial que estreou no último dia 24 no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo.

Inspirada no livro Lia: Cem vistas do Monte Fuji (Companhia das Letras), primeira incursão na ficção do tradutor e dramaturgo Caetano W. Galindo, a peça apresenta momentos diversos da vida da protagonista. Ao adaptar o texto, Bete percebeu que Lia era uma personagem marcada pela complexidade e pela recusa a uma identidade fixa ou facilmente definível.

'Lia Lia' com Bete Coelho e Camila Pitanga
'Lia Lia' com Bete Coelho e Camila Pitanga
Foto: Ricardo Cefalli/ Divulgação / Estadão

Foi quando notou ainda a possibilidade de o mesmo papel ser interpretado por duas atrizes. "E, se forem pessoas muito diferentes, melhor ainda", brinca Camila, que aceitou de imediato o convite feito por Bete e o codiretor da montagem, Gabriel Fernandes, à frente da companhia Teatrofilme. As duas atrizes conversaram sobre a peça e o próprio ofício acompanhadas pelo Estadão.

"Somos muito diferentes. Bete é mineira e eu, carioca. Uma urbana, outra praieira. Ela gosta de se vestir de preto e eu sou colorida. Mas o que nos aproxima é a paixão por um teatro instigante, que não tem uma historinha com começo, meio e fim, mas aquele que faz o espectador pensar."

Mais conhecida por trabalhos na televisão e no cinema, Camila buscou sempre manter uma ligação com o palco, especialmente com espetáculos pouco convencionais. Foi sua participação em Por Que Não Vivemos?, trabalho da Companhia Brasileira de Teatro com direção de Marcio Abreu, que aumentou a admiração de Bete e também o desejo de um trabalho conjunto. A montagem era uma adaptação de Platonov, obra escrita por Anton Tchekhov na juventude, focada nos dilemas e na inércia de um grupo de amigos.

"Camila é mais conhecida como artista do audiovisual, mas é uma atriz essencialmente do teatro", observa Bete. "Isso significa ter a inteligência da interpretação, ter o corpo e a voz da atuação em outras dimensões. Algo maior do que é mostrado no cinema. O teatro pode nos escancarar de várias maneiras e ela sabe como fazer isso."

'Lia Lia', trama existencial que estreia no dia 24 de julho no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo é inspirada no livro 'Lia: Cem vistas do Monte Fuji' (Companhia das Letras)
'Lia Lia', trama existencial que estreia no dia 24 de julho no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo é inspirada no livro 'Lia: Cem vistas do Monte Fuji' (Companhia das Letras)
Foto: Ricardo Cefalli/ Divulgação / Estadão

Atriz com sólida formação teatral, graças à convivência com Antunes Filho e Gerald Thomas entre outros encenadores, Bete Coelho desenvolveu uma admiração ao teatro como linguagem essencial para discutir questões humanas e sociais. E o conhecimento, segundo ela, veio também da experiência como espectadora. Foi justamente esse detalhe que aproximou as atrizes.

"Acompanho o trabalho da Bete desde sua interpretação em Cacilda!!! (1998), com direção do José Celso Martinez Corrêa, o que foi meu primeiro aprendizado com ela", conta Camila, cujo entendimento dos espetáculos logo chamou atenção da colega. "Comecei a descobri-la melhor quando observei sua reação emocionada ao assistir meu espetáculo Molly-Bloom, monólogo final do livro Ulysses, de James Joyce, um trabalho que geralmente não inspira reações emotivas. Mas Camila estava visivelmente emocionada, o que me tocou porque fazemos teatro para mexer com as pessoas", explica Bete.

Na peça, Lia surge para o espectador em diferentes fases da vida, estados de espírito e contextos afetivos, revelando contradições, fragilidades, forças
Na peça, Lia surge para o espectador em diferentes fases da vida, estados de espírito e contextos afetivos, revelando contradições, fragilidades, forças
Foto: Ricardo Cefalli/ Divulgação / Estadão

A parceria foi finalmente estabelecida em 2024, no Festival de Curitiba, onde Bete apresentou Ana Lívia e contou com uma empolgada Camila na plateia. "O convite para trabalhar com Bete e Gabriel foi um privilégio porque foi como ter minha caminhada reconhecida. Poucos sabem, mas fiz faculdade no Rio, bacharelado em artes cênicas, em teoria teatral", conta a atriz. "Mas existe outra escola que é a de observar o trabalho dos colegas. É emocionante ver como emerge uma atuação, algo estético que inaugura um novo olhar, que provoca algo em você."

O processo criativo de Lia Lia foi em conjunto com os outros integrantes do espetáculo, Roberto Audio, Laís Lacôrte e Lindsay Castro Lima, além do coro cênico. Como o livro é composto por fragmentos, a encenação tornou-se também fracionada. "Dobramos a personagem, damos voz e corpo a momentos distintos de sua vida - com oito anos e já na finitude; ela como filha e como mãe; e também se questionando sobre a perda materna e sobre o seu envelhecimento", explica Bete.

Lia surge para o espectador em diferentes fases da vida, estados de espírito e contextos afetivos, revelando contradições, fragilidades, forças. Esse quebra-cabeça desafia as convenções narrativas do teatro tradicional e permite explorar a complexidade da identidade humana.

O processo criativo de 'Lia Lia' foi em conjunto com os outros integrantes do espetáculo
O processo criativo de 'Lia Lia' foi em conjunto com os outros integrantes do espetáculo
Foto: Ricardo Cefalli/ Divulgação / Estadão

O cenário, criado por Daniela Thomas, traz mesas e cadeiras colocados desordenadamente, mas unidas por inúmeros fios que vêm do teto, formando espécie de teias. "São vários retratos ampliados na caixa cheia de fios dessa casa, que pode também representar a memória dentro da cabeça de Lia", afirma Camila, que tem uma tocante cena em que se relaciona diretamente com a plateia. "Somos o produto de várias pessoas, de seus erros e acertos. A peça é um convite para as pessoas a se sentirem presentes."

E, por ser um trabalho da Teatrofilme, companhia que usa elementos da linguagem cinematográfica, a encenação é marcada por cortes de cenas definidos por um efeito sonoro que se repete e pelo uso da iluminação criada por Beto Bruel. As cenas também não seguem uma ordem cronológica, apresentadas de uma maneira livre. "São recortes da vida interpretados como uma sucessão de momentos que se interligam. E isto está na essência da arte cinematográfica e no trabalho de outros escritores, como James Joyce", observa Gabriel Fernandes.

Serviço 'Lia Lia'

  • Onde: Centro Cultural Fiesp. Avenida Paulista, 1.313, São Paulo - SP (em frente à estação Trianon-Masp da Linha 2 Verde do Metrô)
  • Quando: até 9 de agosto. Quarta a sábado, às 20h; domingos, às 18h
  • Informações: (11) 3322-0050
  • Quanto: Entrada gratuita - reservas de ingressos no site Meu Sesi, a partir de 20/7 (primeira semana), 27/7 (segunda semana) e 3/8 (terceira semana).
  • Duração: 80 minutos
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Estadão
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