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Lázaro Ramos retrata violência contra mulher em 'As Verdades'

Ator interpreta policial que traz à tona a dificuldade de se chegar à razão como em 'Rashomon', de Akira Kurosawa

5 jul 2022 - 05h10
(atualizado às 10h03)
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'As Verdades' já está em cartaz nos cinemas brasileiros
'As Verdades' já está em cartaz nos cinemas brasileiros
Foto: Reprodução/Instagram/@olazaroramos

Ator ele nunca deixou de ser. Baiano, formado na escola do Olodum, Lázaro Ramos fez filmes importantes como Madame Satã, Ó Paí Ó e Cidade Baixa, para citar apenas três. A direção já era um projeto para o qual ele se preparava. É o primeiro a admitir que o sucesso de Medida Provisória foi uma coisa planejada e construída, e mesmo assim o surpreendeu. O filme virou um fenômeno social, bandeira da comunidade negra para a discussão de questões como desigualdade e inserção social - pertencimento. Lázaro está de volta à frente das câmeras em As Verdades. O longa de José Eduardo Belmonte, já em cartaz, tem o ator como o protagonista, o policial Josué.

Você nunca o viu assim em cena. Lázaro cria um personagem meio largado, parece mais gordo. É só uma postura física para a construção da identidade de Josué, ou ele realmente engordou para o papel? "É uma mistura das duas coisas, mas surgiu de forma muito natural, num trabalho integrado de ator e direção. Belmonte tem um método peculiar de direção de elenco. Não é o tradicional trabalho de mesa, mas ele estimula a gente a vestir o personagem, a se sentir confortável na sua pele, mesmo quando a essência da figura é o desconforto. O Josué investiga um assassinato. Interroga os suspeitos, ouve as diferentes versões, as tais verdades. O filme aborda um tema visceral no Brasil de hoje, a violência contra a mulher. E, nesse quesito, "o Josué é um omisso."

As verdades, a verdade de cada um. Não é a primeira vez que Belmonte pega um projeto andando. O filme Alemão veio do produtor Rodrigo Teixeira, As Verdades tem, nos créditos, a consultoria de roteiro de dois craques, Guel Arraes e George Moura. Alguém já disse que o filme se perde entre o policial e o romance. Depende do olhar. Quem atacou Zecarlos Machado, passando com o carro por cima dele e deixando-o todo estropiado na cama de hospital? A amante? O pistoleiro fissurado na garota, e que inclusive a estupra quando Zecarlos está caído no chão? O filme já nasceu como as verdades, as versões de cada um. Faz lembrar o longa que deu projeção internacional a Akira Kurosawa, em 1950 - Rashomon. O autor, por sinal, é o mesmo, Ryunosuke Akutagawa. O repórter o define como 'pirandelliano'. E Belmonte: "Gosto dessa ideia do Pirandello a nortear a pesquisa".

Personagens em busca de um autor. O próprio Pirandello dizia: "A vida se vive, ou se escreve". O baú de máscaras compõe seu laboratório teatral, como situa Maurício Santana Dias no prefácio de 40 Novelas de Luigi Pirandello, da Companhia das Letras. No filme, o atropelado é Zecarlos e Bianca Bin e Thomas Aquino acusam-se mutuamente. Cada ator tem de defender a sua versão, menos Lázaro. Como investigador, ele está ali para pressionar os integrantes do grupo e fazer a verdade vir à tona. Pouco antes de falar com ele ao telefone, o repórter viu na TV o caso do sujeito em Belo Horizonte que agredia mulheres na rua e depois passava com o carro por cima delas. Um barbarismo.

"A violência contra as mulheres sempre foi um problema no Brasil, mas foi acentuada durante a pandemia. Nesse quadro, ao invés de agir, Josué omite-se", Lázaro reflete. Thomas Aquino, o ator que fazia Charuto em Bacurau, conta que o matador, Cícero, tem a força física, mas nunca pensou em fazer dele um tipo saradão. "Nunca havia criado nada parecido, essa coisa de interpretar diferentes versões de um mesmo fato e ter de defender todas elas. Qual é a verdade? O Cícero é atraído pela Francisca" - e o repórter o interrompe porque, nesse momento, a propaganda do filme na TV mostra o pistoleiro na feira, a mulher passando por ele, que sente seu perfume e a segue. "É isso, essa atração, mas o cara pode ser um animal, usa sua força, a violência, contra ela."

Lázaro, de volta. "Foi um filme muito interessante, complexo de fazer. Filmamos tudo em 17 ou 18 dias, e havia essa ambiguidade, nenhuma certeza. Às vezes, no mesmo dia, a gente filmava versões diferentes. Tínhamos de estar espertos." O roteiro foi uma ferramenta valiosa. Lázaro sabe do que está falando. "Desde adolescente, sempre gostei muito de escrever." Tornou-se autor infantil, e não apenas. Lançou o Diário de Medida Provisória. "Nesse caso, o diário nasceu como um guia para mim, que ia registrando o processo, a intenção. A coisa tomou forma e o diário foi incorporado ao desenvolvimento do projeto. O Medida foi feito por uma equipe predominantemente preta. Tornou-se importante para a gente documentar esse processo."

Estadão
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