Capri: a origem alemã da calça símbolo do verão italiano
De volta às passarelas e às vitrines, peça foi criada no pós-guerra por uma estilista alemã rebelde que queria vestir calças ajustadas ao seu corpo.A calça capri está de volta. Entre críticas e comemorações nas redes sociais, o retorno ganhou força quando as cantoras Beyoncé e Rihanna apareceram usando diferentes modelos da peça em shows realizados em julho deste ano.
As opiniões divergentes sobre a capri não são novidade, mas há um detalhe pouco conhecido sobre essa calça: apesar do nome fazer referência à ilha italiana, a peça foi criada na Alemanha.
No fim da Segunda Guerra Mundial, a jovem estilista Sonja de Lennart, refugiada da Prússia em Munique, decidiu desafiar uma regra não escrita da época: a ideia de que calças eram uma peça masculina.
"As jovens, que hoje podem vestir qualquer roupa, não sabem que essa peça acompanhou uma revolução social e certamente não fazem ideia de que homens podiam ser presos por caminhar ao lado de mulheres usando calças", disse Sonja em entrevista ao portal Isola di Capri, em 2022.
Com a escassez de materiais no período pós-guerra, Sonja reaproveitou tecidos de cobertores, cortinas e até paraquedas para criar uma coleção batizada de "Capri". O nome era uma homenagem tanto à ilha italiana, destino frequente de férias da família em tempos pré-guerra, quanto à canção Isle of Capri, sucesso da época que ganhou versões em diferentes idiomas.
Embora as mulheres já usassem calças em determinados contextos, principalmente no trabalho e em fábricas, Sonja propôs algo diferente: uma peça casual que pudesse ser usada em momentos de lazer.
A novidade não estava apenas nos três quartos de comprimento, que ia até o tornozelo. A modelagem mais ajustada ao corpo também chamava atenção. Por ter um porte físico mais franzino, Sonja queria uma calça que se ajustasse melhor à sua silhueta. O resultado foi um modelo mais justo do que os disponíveis na época.
"Minha criatividade estava à serviço da moda, mas, acima de tudo, dos meus valores. Eu era uma rebelde, e certamente não apenas por conta da proibição do uso de calças", lembrou Sonja na mesma entrevista.
Anos depois, durante uma viagem à ilha de Capri, a estilista usava calças quando quis entrar no mar. Para não molhar as barras, decidiu dobrá-las. Esse momento inspirou a versão mais curta da capri, que se tornou conhecida mundialmente.
O fator Audrey Hepburn
A projeção internacional veio em 1954, quando Audrey Hepburn apareceu usando a peça no filme Sabrina. Outras peças da coleção "Capri" já tinham feito parte do figurino de Férias em Roma, lançado no ano anterior.
"Hepburn virou um fenômeno de elegância nos anos 50, mas uma elegância juvenil, moderna e que tinha certa ousadia", diz a historiadora e coordenadora do curso de Moda da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Maira Zimmermann.
Além da atriz, outras celebridades como Grace Kelly, Brigitte Bardot, Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor também contribuíram para a popularização da tendência.
"As mulheres artistas conseguiam ousar mais no vestir porque elas não tinham tantas amarras sociais, pelo menos na imagem", destaca a historiadora.
Aos poucos, as artistas passaram a vestir a peça não apenas em sets de filmagem, mas no dia a dia. Os registros de paparazzi, divulgados em revistas, ajudaram a consolidar a peça como símbolo de elegância casual para as mulheres que não estavam sob os holofotes.
Capri, corsário ou cigarrete
As capris de Sonja têm dois comprimentos: a primeira, lançada em 1945, vai até o tornozelo. Mais tarde, com o lançamento da capri mais curta, ela foi chamada de winter-style capri, (capri de inverno, em tradução livre). Já a segunda versão, que é a que hoje conhecemos apenas por capri - de tamanho três quartos, mostrando a panturrilha - foi apelidada de "capri de verão".
Com o passar do tempo, outras calças curtas passam a fazer parte do guarda-roupa das mulheres. Entre os exemplos estão a cigarrete, que termina no tornozelo e deixa os sapatos à mostra, e a corsário, mais ajustada ao corpo e com comprimento logo abaixo do joelho.
"À medida que a liberdade feminina vai sendo conquistada, a calça vai ficando mais curta. Nos anos 50, existiu uma sobreposição dos termos. Hoje, a gente olha e fica fácil fazer essa distinção de acordo com o comprimento", explica Zimmermann.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.