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Bruna Martiolli lança livro e critica conteúdo superficial nas redes: 'Só vemos unboxing'

Pesquisadora brasileira e influenciadora digital estreia na literatura com 'É Tempo de Morangos: Reflexões Sobre Livros'

24 mar 2026 - 12h11
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Bruna Martiolli é um nome conhecido por quem acompanha conteúdos sobre literatura nas redes sociais. Esta paulista de 29 anos, que começou a carreira como professora do Ensino Médio, fez mestrado em literatura e hoje faz doutorado, experimenta, agora, um outro lado - o de escritora. Não que isso tivesse sido planejado. Ela ama livros, claro, mas nunca sonhou em escrever um.

Primeiro houve um convite. "Fui radicalmente contra. Falei: jamais. Tenho pavor dessa coisa de ser escritora. Gosto de ser professora, não me tiro do meu lugar", contou ela, em entrevista por videoconferência a partir de Portugal, onde ela vive hoje.

Então a proposta mudou. E se fosse um livro em que ela trouxesse seu olhar como professora? Ela topou. A ideia inicial era tratar de cultura clássica, desde livros até cinema. Mas assim que começou o processo de investigar o que é literatura, refletir sobre seu consumo nos dias de hoje e outras questões inerentes ao debate cultural, ela se viu diante de sua própria trajetória. Coisas aconteceram, a vida se impôs e a escritora nasceu.

Bruna Martiolli, autora de 'É Tempo de Morangos', comenta literatura no Brasil.
Bruna Martiolli, autora de 'É Tempo de Morangos', comenta literatura no Brasil.
Foto: Reprodução/Acervo pessoal / Estadão

Uma avó, suas memórias e a literatura

Em É Tempo de Morangos: Reflexões Sobre Livros, com lançamento nesta terça, 24, em São Paulo, ela escreve, sim, sobre livros. Porém, com o passar das páginas, fica claro que a obra vai além.

O livro de estreia de Bruna Martiolli é, acima de tudo, sobre vida e a importância de se manter a memória viva. Revisitando momentos emblemáticos ou vivências tristes, ela vai costurando sua história com reflexões sobre literatura - e o papel que ela teve, e tem, em sua vida pessoal e profissional. Uma história feita de detalhes que podem ser considerados pequenos para alguns, mas que são capazes de alterar totalmente o curso de narrativas.

Tudo começou muito cedo, para ela, e não como em muitos casos. O amor de Bruna pela leitura é antigo e os livros nunca foram vilões nesta história, como podem ser para alguns estudantes. Seus ídolos, por exemplo, eram grandes escritores, representados por pôsteres nas paredes de seu quarto.

Bruna sempre amou estar do outro lado do livro, como leitora, e não se imaginava como a pessoa que pudesse dar vida a histórias. No entanto, a perda de sua avó acabou por mudar algo em sua mente.

O luto desempenhou papel fundamental na escrita deste livro, já que sua morte trouxe à tona o pensamento de como a vida era fugaz. "Talvez escrever um livro só sobre literatura fosse apagar um pouco do meu amor por ela, pelas coisas que ela já fez por mim, pela vida nova que ela me deu", refletiu a autora sobre seu processo.

Em um mundo tão acelerado e que não para um momento sequer, É Tempo de Morangos traz, assim, reflexões a respeito de como uma realidade moldada pela ansiedade das redes sociais pode funcionar de maneira mais leve. A ideia da escrita do livro é justamente despertar essa vontade de diminuir o ritmo e perceber que é possível viver a vida sem chegar ao limite. É sobre a vontade de despertar a "pressa contrária, a pressa pela liberdade do demorado".

"Eu espero que o leitor possa sair do livro entendendo que a vida não é essa guerra toda", completa. "Que a gente não precisa sair tentando conquistar o mundo. O mundo já foi conquistado. O mundo já é dele mesmo. Nós somos muito efêmeros aqui, passamos muito rápido pela vida".

Literatura nas redes sociais

Além de sua pesquisa acadêmica, Bruna Martiolli é ativa nas redes sociais. Com conteúdos que trazem questionamentos e abrem debates, ela cria vídeos que abordam a literatura de uma forma singular. Além de reflexões literárias e críticas a respeito de produtos culturais, Bruna também busca abordar temas educacionais em suas redes.

As redes sociais têm desempenhado papel fundamental no consumo de literatura no Brasil. As comunidades BookTok, BookTube e BookGram acabam por ditar tendências, com obras viralizando muito por conta do alcance que esses influenciadores têm na sociedade contemporânea.

Por vezes, a criação tende a ficar mais no superficial. Por isso a autora questiona a criação de conteúdo que preza mais o produto em si e deixa a obra de escanteio. "Vemos unboxing, unboxing e mais unboxing e não vemos o livro", comenta Martiolli. "E vemos mais o produtor do conteúdo do que o livro em si. Entendo, é uma questão editorial, as editoras mandam os livros, as pessoas precisam trabalhar e eles precisam mostrar os livros, mas acho que é mais interessante quando temos essa exploração interior, da interioridade mesmo da literatura."

A autora relata também uma preocupação acerca da qualidade das obras que são consumidas. "É importante questionar o que se lê, inclusive os clássicos, não só os fanfics", comenta. "É importante questionar a leitura, o porquê da leitura, o porquê de Guimarães Rosa, o porquê de Clarice Lispector, e saber que existem outros mundos".

O trabalho de Martiolli nas redes traduz o contexto da sociedade atual. Ao mesmo tempo que as comunidades literárias crescem cada vez mais, incentivando o consumo de literatura, há também uma superficialidade e a lógica acelerada que marcam o comportamento contemporâneo. Dessa forma, é possível compreender a crítica da professora.

Nunca se falou tanto sobre livros nas redes, mas isso não necessariamente se traduz em leituras mais frequentes ou significativas.

Hábitos de leitura no Brasil

Em 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que, pela primeira vez, a maior parte dos brasileiros não tem o hábito de leitura. Das 5.504 pessoas entrevistadas, 53% afirmaram não ter lido um livro nos três meses que precederam a realização do levantamento.

"As pesquisas no Brasil são um pouco sensacionalistas," considera Martiolli. "Em um país que precisamos de tanta coisa, que temos tanta fome, como é que a gente chega para as pessoas e diz: 'leia Clarice Lispector'?".

Para a autora, a questão mais importante é a qualidade, e não a quantidade. "A pessoa pode ler dois, três livros por ano e esses dois, três podem ser aqueles que vão ajudá-las a emancipar a vida delas", refletiu.

Sobre a importância da literatura, Bruna diz que ela é uma ferramenta para enxergar o que acontece à nossa volta. "Porque, num mundo cada vez mais narcisista, como vamos ter empatia? Como vamos desenvolver o olhar para o outro?", questiona. E emenda: "Por meio da arte".

Consumir com atenção

A internet é democrática e há espaço para todo tipo de conteúdo e de produtor de conteúdo. Para a autora, que tem cerca de 700 mil seguidores em suas redes sociais, é preciso saber quem são as pessoas que estamos ouvindo, qual é a formação delas. E ela defende uma maior presença de educadores nesses espaços.

Bruna Martiolli concede entrevista exclusiva ao Estadão a respeito de seu novo livro 'É Tempo de Morangos'.
Bruna Martiolli concede entrevista exclusiva ao Estadão a respeito de seu novo livro 'É Tempo de Morangos'.
Foto: Reprodução/Acervo pessoal / Estadão

"Eles devem estar cada vez mais na internet e precisam dar voz às coisas em que eles acreditam. Porque existe o charlatão, mas ele só existe porque os bons não estão aparecendo", finaliza.

'É Tempo de Morangos'

'É Tempo de Morangos: Reflexões Sobre Livros', de Bruna Martiolli.
'É Tempo de Morangos: Reflexões Sobre Livros', de Bruna Martiolli.
Foto: Divulgação/Intrínseca / Estadão
  • Autora: Bruna Martiolli
  • Editora: Intrínseca (192 págs.; R$64,90; R$ 32,90 o e-book)
  • Lançamento: 24/3, às 19h, na Livraria Martins Fontes Paulista (Av. Paulista, 509 - Bela Vista, São Paulo), com bate-papo entre a autora e Carol Jesper
Estadão
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