Baby Keem rima sobre vícios e problemas familiares em seu incrível novo álbum 'Ca$ino'
Cinco anos depois, o rapper entrega o álbum mais vulnerável e pessoal da carreira — e prova que a espera valeu cada segundo
Cinco anos de silêncio. Entre The Melodic Blue (2021) e Ca$ino (2026), Baby Keem praticamente desapareceu. Apenas alguns features esporádicos, produção em Mr. Morale & the Big Steppers (2022) de Kendrick Lamar, Grammy por "Family Ties", também com o primo, um gritinho em "Like Him" de Chromakopia (2024), e só, mais nada. Páginas de rap especulavam sobre o que tinha acontecido com o protegido da pgLang: ele desistiria? Perdeu a fome? O sucesso precoce queimou rápido demais? A resposta chegou em 11 faixas, 37 minutos precisos, e Hykeem Carter finalmente disposto a contar a verdade sobre quem ele realmente é. Ca$ino vai muito além de mostrar versatilidade ou provar que consegue fazer quinze estilos diferentes de voz. Aqui, Keem escava fundo em um trauma específico: como Las Vegas destruiu sua família através do vício.
Antes do álbum sair, Keem lançou três minidocumentários chamados Booman (apelido de infância dele), e assistir aquilo muda completamente como você ouve o disco. A primeira parte mostra Hykeem com um ano de idade em apartamento de um quarto em Long Beach, Califórnia, morando com a tia Connie e a avó. Connie narra os primeiros anos da família, violência no próprio quintal. Kendrick aparece falando sobre Section 8, o "ambiente de guerra" onde todos nasceram. A segunda parte documenta a decisão da família de se mudar para Las Vegas em busca de aluguel mais barato e distância dos problemas de Long Beach. Aqui vêm as revelações que mudam tudo: não foi a mãe de Keem quem o criou. Foi Connie, sua tia, junto da sua avó. Por fim, o terceiro documentário mostra onde ele está agora depois do sucesso. E, com tudo isso em mente, cada verso tem ainda mais peso.
"Ca$ino" (a faixa-título) funciona como declaração de princípios. Keem anuncia que "mal teve pais" e cresceu "Ca$ino", tratando o substantivo como condição existencial em vez de só localização geográfica. Cidade onde a casa sempre ganha, enquanto o lar de Keem só perdia. Ali, ele viu a família apostando a estabilidade dele em mesas de jogo. A mãe dele tinha vício em apostas que custou o dinheiro do aluguel. Mais para frente, "I Am Not a Lyricist" (que, ironicamente, entrega a lírica mais afiada de Keem) desenvolve essa metáfora com ainda mais precisão. Nela, Keem canaliza André 3000 no flow e cadência, descrevendo Vegas ao nível da rua. Termina dizendo que desejava nunca ter saído de Long Beach. Mas o documentário mostra a tia Connie descrevendo a mudança como tentativa de sobrevivência.
A genialidade do disco está em como Keem equilibra confissão brutal com momentos de leveza sem que nenhum dos dois cancele o outro. "Good Flirts", com Kendrick e Momo Boyd, é quase romântica, brincalhona, com Kendrick cantando sobre vida doméstica, com uma cadência tão solta que parece improvisada (tem até indireta pro Young Thug no meio). Já "House Money", a segunda colaboração com o primo no disco, vai pro lado oposto, bem agressiva. "Sex Appeal", com Too $hort, vira catálogo de encontros em Miami e pico de endorfina, Keem soando meio espantado e meio exausto com o ritmo da própria vida noturna, enquanto Too $hort entra confortável demais falando de garotas de igreja pecando. E "Dramatic Girl", com Che Ecru, é o respiro pop necessário — faixa mais leve, quase love song, que dá espaço pra respirar entre as confissões pesadas.
Além delas, "No Security", que abre o álbum, e "Highway 95 Pt. 2" voltam com as confissões, do dia em que ficou sem comer porque o vale-refeição acabou antes do mês terminar, à descrição de como a mãe dele o via como um banco.
Já "No Blame", com vocais de James Blake, fecha o álbum com Keem falando diretamente pra mãe. Ele conta sobre esperar de pijama ela voltar para casa, enquanto a avó mentia dizendo que a mãe tinha morrido e vários outros problemas como visitas da assistência social, brigas pela custódia, cigarro dentro de casa, gravidez com drogas e muito mais. A música termina com ele fugindo no Dia das Mães e, mesmo assim, decidindo não culpá-la, como o título sugere.
O álbum não é perfeito. A segunda metade da faixa-título se arrasta demais, perdendo força justamente quando deveria explodir. A segunda metade do verso de Kendrick em "Good Flirts" não chega a estragar a música, mas fica abaixo do nível de qualquer outra participação dele. E em "Circus Circus Freestyle", Keem se compara a homem das cavernas num verso que, felizmente, dura pouco — lembrando o tão criticado verso de "Shyne", de Jackboys 2 (2025). São tropeços pequenos num álbum que, no geral, acerta muito mais do que erra.
Em relação à produção, Ca$ino é extremamente polido, com as batidas sendo escolhidas a dedo. Keem tem créditos por todo o disco — dos toques 8-bit na faixa-título ao funk da West Coast em "Sex Appeal", passando pelos samples de Feist ("Honey Honey") em "Birds & the Bees" e da artista grega Dimitra Galani em "I Am Not a Lyricist". "Circus Circus Freestyle" tem três trocas de beat, sendo todas incríveis.Ca$ino prova que qualidade sempre vai importar mais que quantidade, e que artista disposto a esperar cinco anos pra dizer algo verdadeiro vai sempre superar quem joga projeto genérico todo ano só pra manter relevância. Onze faixas, 37 minutos — cada segundo conta. Keem mergulhou em traumas de infância e conseguiu transmitir histórias cruas, íntimas, profundamente pessoais de forma concisa e devastadora. Não tem excesso. Não tem preenchimento. Não tem faixa que devia ter sido cortada. É álbum de alguém obcecado com perfeição — e perfeição aqui significa dizer a verdade da forma mais direta possível, sem romantizar sofrimento ou transformar dor em espetáculo. Era uma tarefa complicada bater The Melodic Blue (2021) e talvez ele tenha conseguido. Estamos apenas em fevereiro, mas não é difícil ver este disco como um dos melhores discos de rap do ano.