"As Irmãs' foi uma história difícil de colocar no ar', diz Chico Felitti sobre novo podcast
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o podcaster e Marianna Muradas falam sobre a investigação que começou como uma obsessão pessoal e acabou revelando histórias sobre o sistema de adoção no Brasil
O que começou como uma investigação pessoal de Marianna Muradas se transformou em As Irmãs, uma nova série documental em formato de podcast, feita em parceria com Chico Felitti e a produtora Beatriz Trevisan, que explora identidade, família e a busca por pertencimento por meio da notável história real de Silmara Sebastião.
A partir de 12 de agosto, o público poderá ouvir a série em primeira mão no Amazon Music, com a estreia dos dois primeiros episódios. Os demais episódios serão lançados semanalmente, sempre com exclusividade de três semanas no Amazon Music antes de serem disponibilizados em outros serviços de podcast.
Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, Marianna e Chico Felitti contaram como o projeto nasceu e como uma investigação iniciada em 2019 acabou encontrando novos personagens e caminhos inesperados. Confira a seguir a conversa na íntegra:
Como nasceu o projeto?
A origem da produção acontece quando o jornalista conheceu Marianna, então uma das pessoas que haviam identificado a verdadeira identidade de Margarida Bonetti, personagem central de A Mulher da Casa Abandonada, podcast lançado em 2022. "Eu conheço a Mari no Mulher da Casa Abandonada, quando vou entrevistá-la. [...] Durante uma das nossas muitas conversas, ela falou: 'Eu tenho muita vontade de investigar uma casa gigante no Pacaembu'."
A investigação de Marianna, porém, havia começado antes. Em 2019, depois de descobrir suas próprias origens e de ter o primeiro filho, ela passou a pesquisar também a história da mãe adotiva. O processo a levou a investigar instituições de acolhimento e, consequentemente, o Sampaio Viana, espaço que se tornou uma das principais referências para a pesquisa.
"Eu fiquei muito chocada. Falei: gente, como que existiu um lugar desse tamanho aqui do lado de casa e nunca ninguém está falando sobre isso?", lembra Marianna.
O interesse também estava ligado à sua própria experiência como pessoa adotada e ao trabalho que desenvolve com adoção. Para ela, existe uma lacuna importante na maneira como o tema é discutido no Brasil: a perspectiva dos filhos adotivos ainda aparece pouco nas pesquisas e nas narrativas públicas.
"A perspectiva do filho adotivo ainda é muito vista na nossa sociedade como um lugar [...] muito como se a gente não tivesse direito. Que a gente tinha que só ser grato. E que bom que deu certo. E, se não deu, ai, paciência. É assim mesmo. Como subfilho mesmo. Subcategoria de filiação", afirma.
A investigação ganhou um novo impulso quando Marianna e Felitti começaram a conversar sobre os assuntos que os dois pesquisavam. Segundo ela, Felitti foi a primeira pessoa a demonstrar interesse em conhecer profundamente aquela história.
Como estímulo para que ela decidisse se realmente queria seguir adiante, o jornalista deixou com Marianna um exemplar de Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex. "Eu li o livro em uma sentada e falei: Chico, eu continuo querendo investigar aquele lugar. Então, quando estiver pronto, eu estou pronta", conta.
Quase quatro anos depois do início da investigação, As Irmãs chegou ao formato de podcast. Felitti, entretanto, faz questão de ressaltar que a investigação não é propriamente dele. O trabalho foi conduzido por Marianna e Beatriz Trevisan, colaboradora que já trabalhava com o jornalista desde A Mulher da Casa Abandonada.
"A investigação é das duas. Mas eu fico muito feliz de poder estar do lado contando essa história. De tentar levar essa história para o maior número de pessoas possíveis", afirma Felitti.
Os desafios e as surpresas da investigação
Segundo o jornalista, uma das maiores dificuldades foi justamente não saber, no início, qual seria a história que chegaria ao público. A equipe tinha acesso ao casarão, mas ainda não sabia exatamente quais personagens e acontecimentos surgiriam dali. "Foi uma das histórias mais difíceis de colocar no ar que a gente já fez. Porque foi um salto no escuro", revela Felitti.
Uma das viradas da investigação aconteceu quando Marianna e Beatriz encontraram Silmara. O encontro, segundo Felitti, não foi algo planejado desde o princípio, mas acabou abrindo uma espécie de "caixa de Pandora" capaz de ampliar completamente o escopo da produção.
"A Silmara foi literalmente isso. Foi um personagem que a gente trupica no meio do caminho", afirma Felitti. "E acaba tendo essa caixa de Pandora dessa história que mostra o que é a justiça brasileira, o que é o sistema de adoção brasileiro. Enfim, uma história de seres humanos muito cheia de emoção."
Para Marianna, a chegada de novos personagens também mudou os rumos da investigação. Em determinado momento, diante da dificuldade de encontrar pessoas dispostas a falar, ela decidiu que, se fosse necessário, colocaria a própria experiência no centro do podcast. "O Chico falava para mim: 'Se a gente não conseguir nenhum personagem para contar a história...' Aí eu cheguei para ele um dia e falei: 'Chico, a gente vai pôr no ar a minha busca'", conta.
Uma semana depois, Silmara respondeu a Beatriz Trevisan, e a equipe encontrou uma personagem capaz de conduzir a investigação por novos caminhos. A partir daí, As Irmãs passou a revelar uma história que, para os realizadores, é maior do que seus personagens centrais. "É uma história que representa muito mais. Ela engana. Ela é muito maior do que parece ser", aponta Felitti.
O jornalista também diz ter sido surpreendido pelo que aprendeu durante o processo. Por não vir diretamente do universo da adoção, ele entrou na investigação a partir de um olhar externo e terminou o trabalho com uma nova compreensão sobre o tema.
"Eu saí desse trabalho sabendo mais sobre o que é a adoção no Brasil e tendo uma nova perspectiva. Então, espero que, mesmo quem não seja parte de uma família em que houve adoção, possa ouvir e aprender", diz. "Acho que ensina muito sobre o Brasil. É uma história só, mas é uma história que fala muito sobre um país."
Adoção, direitos e reparação
Mais do que reconstruir uma história específica, Marianna espera que As Irmãs ajude a ampliar o debate sobre adoção e, principalmente, sobre o direito das pessoas adotadas de conhecerem a própria trajetória. "O meu maior desejo com isso é que a gente consiga ter reparação em todos os níveis", afirma. "Para as pessoas que foram levadas dessa forma. Para facilitar o acesso aos direitos, aos seus registros, à sua biografia."
Para Marianna, a discussão sobre adoção também precisa passar pelas desigualdades sociais que estão na origem de muitos desses casos. "A gente ainda esquece que a maioria dos casos da adoção é por motivo de pobreza, antes de mais nada", afirma.
Ela também faz uma crítica à forma como o debate costuma ser conduzido no Brasil. "As pessoas que muito militam a favor da adoção também são as mesmas pessoas que militam contra os direitos básicos de cuidado do Estado e das pessoas. E de igualdade social, principalmente", diz.
Por isso, Marianna espera que a repercussão do podcast possa produzir mudanças concretas. Ela cita como referência o caso de Hilda Rosa dos Santos, personagem de A Mulher da Casa Abandonada, que conseguiu provocar uma mudança na legislação norte-americana relacionada à proteção de pessoas adotadas.
"Espero muito que a gente consiga também, com a repercussão dessa história, facilitar muitas coisas no sentido dos direitos adotivos, da biografia, da busca pelas histórias de origem, pela busca dos seus familiares", afirma. Para ela, esse processo ainda é marcado pelo isolamento e pela dificuldade de acesso. "Porque ainda é algo muito privado e muito solitário e muito difícil de ser feito."
Uma história de duas pessoas, com um mundo por trás
Apesar da dimensão política e social da investigação, Marianna também enxerga em As Irmãs uma história sobre vínculos e pertencimento. Para ela, existe algo de imprevisível nos encontros que atravessam as histórias de adoção. "Eu falo que existe um fio invisível na adoção. Os encontros acontecem e eles podem ser muito maravilhosos", afirma.
A experiência pessoal também influencia esse olhar. Marianna conta que teve um encontro significativo com sua própria família e que, para ela, a questão da adoção está profundamente ligada à construção diária dos vínculos. "Eu acho que é muito mais sobre esse lugar do pertencimento à família e o cuidado que isso implica nas relações para todo mundo, não só de quem atravessou pelo mundo da adoção", explica.
Felitti compartilha da percepção de que a força da produção está justamente na capacidade de partir de uma história particular para falar de questões maiores. Para ele, As Irmãs conseguiu encontrar, por trás de duas pessoas e de uma investigação específica, um universo inteiro. "Fazia tempo que a gente não fazia uma história que tinha um universo tão grande por trás. De duas pessoas só, tinha um mundo inteiro por trás", resume.
Do que se trata As Irmãs?
Após a morte de sua mãe na década de 1980, Silmara viveu em um abrigo em São Paulo antes de ser adotada por um casal francês aos sete anos, perdendo contato com sua família brasileira. Apesar de ter crescido a milhares de quilômetros de distância, ela nunca parou de procurar suas raízes. Mais de três décadas depois, uma descoberta em seus registros de adoção, combinada com um teste de DNA, levou a um reencontro emocionante com uma irmã que também a procurava o tempo todo.
"Contar a história da Silmara foi um mergulho profundo no que significa pertencer. Mais do que uma investigação sobre o passado, 'As Irmãs' captura o momento em que as peças de um quebra-cabeça de mais de 30 anos finalmente se encaixam. É uma história sobre resiliência e o impacto profundo de descobrir, mesmo na vida adulta, que você nunca esteve realmente sozinha", diz Chico Felitti.
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