Noruega: Copa do Mundo de Cinema
Os primórdios do fazer cinematográfico em terras norueguesas foram relativamente tardios, remontando a 1907, dois anos após a independência em relação à Suécia - o curta-metragem Fiskerlivets Farer (Os Perigos da Vida de um Pescador, em livre tradução), de Julius Jaenzon, foi o primeiro filme feito na Noruega
Por Tem Que Ver*
Embalada por sua eufórica torcida nas arquibancadas da América do Norte, a Noruega chegou à sua quarta participação em Copas do Mundo da FIFA, isso após 28 anos ausentes da competição. O retorno dos Vikings à Copa não poderia ter sido mais triunfante, com a seleção fazendo a sua melhor campanha ao alcançar às quartas-de-final, feito este que incluiu uma vitória maiúscula diante do Brasil.
O sucesso dos noruegueses em muito se deve ao entrosamento da equipe comandada pelo ex-jogador e agora técnico Stale Solbakken, que assumiu a seleção em 2020. O brilhantismo do grandalhão e carismático atacante Erling Haaland e a criatividade do meio-campista Martin Odegaard foram as alavancas do êxito da Noruega já na etapa das Eliminatórias da UEFA, quando a Noruega foi perfeita ao vencer todos os jogos disputados contra Estônia, Israel, Itália e Moldávia.
Os primórdios do fazer cinematográfico em terras norueguesas foram relativamente tardios, remontando a 1907, dois anos após a independência em relação à Suécia - o curta-metragem Fiskerlivets Farer (Os Perigos da Vida de um Pescador, em livre tradução), de Julius Jaenzon, foi o primeiro filme feito na Noruega. Até a Segunda Guerra Mundial, as obras produzidas no país em sua maioria eram adaptações de romances e filmadas em cenários ao ar livre, a exemplo de O Grande Batismo. Dirigido por Tancred Ibsen (neto do dramaturgo Henrik Ibsen), este longa foi o primeiro filme falado norueguês.
A partir dos anos 1950, nomes como o de Edith Carlmar, primeira mulher cineasta do país, e Ivo Caprino, pioneiro local da animação, seriam alguns dos destaques na cena cinematográfica da Noruega. Outro cineasta a se consagrar no período foi Thor Heyerdahl, cujo documentário Kon-Tiki, em 1951, ganhou o Oscar de Melhor Documentário. Na década de 1970, uma perspectiva mais realista social tornou-se preponderante, destacando-se na direção Oddvar Touro Tuhus e a feminista Anja Breien.
Dos anos 1980 em diante, o cinema norueguês aderiu a uma estética mais próxima a de Hollywood a fim de retomar o sucesso de outrora junto ao público nacional. O principal nome da sétima arte contemporânea na Noruega é, sem dúvida, Joachim Trier, cuja filmografia é alvo de adoração por uma parcela significativa da cinefilia. Mais recentemente, nesta década, Kristoffer Borgli (Doente de Mim Mesma, O Homem dos Sonhos e O Drama) e Emilie Blichfeldt (A Meia-irmã Feia) são cineastas que começam a despontar como promissores a nível internacional, garantindo, assim, a renovação e o futuro do cinema oriundo da Noruega.
Na Copa do Mundo de Cinema, a Noruega vem representada com força escandinava por A Pior Pessoa do Mundo (Verdens Verste Menneske, no título original), de Joachim Trier, longa-metragem lançado em 2021 e que recebeu duas indicações ao Oscar, nas categorias Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original. O filme encerra a trilogia temática do diretor dedicada à capital Oslo, iniciada com Começar de Novo (2006) e seguida pelo melancólico Oslo, 31 de Agosto (2011).
Protagonizado pela atriz Renate Reinsve - ganhadora do prêmio de Melhor Atriz em Cannes -, que vive Julie, A Pior Pessoa do Mundo traz no centro de sua narrativa uma jovem mulher que flutua entre carreiras e parceiros amorosos. Trier utiliza uma estrutura fílmica dividida em 12 capítulos, um prólogo e um epílogo para traduzir a ansiedade da escolha típica da geração millennial, na qual a personagem Julie se encaixa. Ela se percebe como uma coadjuvante da própria vida - e a ironia do título reside justamente nesse sentimento de culpa autodepreciativa. Uma das sequências mais brilhantes do filme ilustra com precisão a genialidade do diretor: o momento em que a protagonista decide deixar o companheiro Aksel. Ao acender o interruptor de luz, o tempo congela ao seu redor. Ela corre por uma Oslo totalmente paralisada para encontrar Eivind. Essa metáfora visual é de uma precisão cirúrgica: a sensação de que, ao fazermos uma escolha afetiva drástica, suspendemos o próprio peso da realidade para viver uma fantasia romântica temporária.
*Texto originalmente publicado em Tem Que Ver Cinema
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