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Chico Buarque é o rei das atenções na Flip

4 jul 2009 - 12h49
(atualizado às 18h30)
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Não teve pra ninguém, só deu ele. Chico Buarque era a pessoa mais aguardada para o terceiro dia da Flip 2009, a Festa Literária Internacional de Paraty. E bastou ele entrar no palco abraçado ao amigo Milton Hautoum, com quem dividiu os holofotes na mesa Seqüências Brasileiras, para o público que lotava a Tenda dos Autores vibrar.

O cantor Chico Buarque foi prestigiar o show de Caetano Veloso no Rio de Janeiro, neste domingo (10/5)
O cantor Chico Buarque foi prestigiar o show de Caetano Veloso no Rio de Janeiro, neste domingo (10/5)
Foto: Philippe Lima e Alex Palarea / AgNews

Durante aproximadamente 80 minutos, Chico atraiu as atenções da imprensa e dos seus admiradores. O cantor, compositor e também escritor falou sobre algumas de duas obras literárias, como os recentes Leite Derramado (2009) e Budapeste (2003), além da novela Fazenda Modelo (1974). Milton, que é colunista do Terra Magazine, abordou principalmente o livro Órfãos do Eldorado (2008), de sua autoria, entre outros.

Ainda na entrada, por volta das 19h, faltando cerca de dez minutos para o início do bate-papo, já havia uma longa fila composta de alguns sortudos que conseguiram garantir um ingresso, já que as entradas se esgotaram há alguns dias. Dentro da tenda foi difícil encontrar um bom lugar desocupado. Muitos cinegrafistas e fotógrafos tentavam os melhores ângulos para focalizar Chico na noite de maior movimentação na Flip até agora.

Quando Chico começou a ler um trecho de Leite Derramado, quem havia levado um exemplar do livro para a palestra se apressou para encontrar a página correta e acompanhar o autor. Milton leu uma parte de Fazenda Modelo.

Nascido em Manaus em 1952, Milton estudou arquitetura e ensinou literatura brasileira nas universidades do Amazonas e da Califórnia, nos Estados Unidos. Ao falar de Órfãos do Eldorado, ele demonstrou, de forma bem-humorada, um certo arrependimento por ter aceitado a encomenda de uma editora escocesa.

"Essa novela foi encomendada por uma editora escocesa. Eu vi uma história parecida quando era pequeno, lá em Manaus, aos 12 anos de idade. Depois de ter escrito boa parte da novela, precisei mudar a narrativa porque já havia ultrapassado o limite estipulado pela editora, caminhava para um romance. E tive que repensar tudo. Perdi muito tempo. Escrever por encomenda é horrível. Nunca mais faço isso. Atualmente não escrevo nem bilhete por encomenda", disse, em tom de brincadeira.

Carioca que veio ao mundo em 1944, torcedor do Fluminense e tem a timidez como uma de suas principais características, Chico Buarque antes de falar sobre Budapeste comentou que após escrever um livro precisa de um tempo para descansar antes de voltar à literatura. Ele confessou também que entre a leitura e a escrita, prefere ler. "Escrever é uma chatice. Gosto mais de ler, assim como todo mundo", afirmou.

Sobre Budapeste, o autor disse que tentou não ter nenhuma influência dos seus romances anteriores, Benjamim (1995) e Estorvo (1991). "Pensei que poderia escrever um livro sobre um lugar onde eu nunca estive e em uma época que não vivi, no ano de 1929. Não poderia ter feito um livro parecido com o anterior".

Já Milton, foi pelo rumo inverso. Visitou por duas vezes Parintins, no Amazonas, distante um dia de viagem em barco de Manaus, para dar vida na novela à cidade fictícia de Vila Bela. "Um dos desafios para o autor de novela é condensar muitas coisas e anos em poucas palavras. Coloquei Vila Bela em Parintins porque é uma cidade histórica do Amazonas. Ela foi uma lembrança da minha infância. Quando voltei a Parintins, aproveitei para conversar mais com o povo", relembrou.

Chico confidenciou que ele e alguns autores às vezes se envolvem tanto com alguns personagens que os levam para a vida real de alguma forma. Segundo ele, Guimarães Rosa viveu uma situação no mínimo surreal. "O autor demora a encontrar o narrador, mas quando encontra o carrega por um bom tempo. Cria uma empatia, vira um parente. Eu quebrei a perna depois que terminei o livro. É uma lembrança do 'Velho' (se referindo a um personagem de Leite Derramado). O Guimarães Rosa ficou doente com a mesma doença de um personagem que ele havia criado. Preciso me livrar desse encosto", disse, arrancando gargalhadas da platéia.

Outro momento engraçado na mesa aconteceu quando Chico disse a Milton que já sabia que a cidade fictícia de Vila Bela era uma alusão a Parintins. "Enquanto lia o seu livro, pesquisei no Google a cidade de Vila Bela. Descobri que era Parintins", divertiu-se.

À vontade e de bom humor, logo em seguida ele proporcionaria mais risadas à platéia. Chico voltou à infância para relembrar a influência que o pai escritor deixou na sua literatura. "Nos meus livros talvez tenha mais influência das conversas do meu pai com os amigos dele, do que as pesquisas dele ou as conversas comigo, pois ele não dava muita atenção aos filhos. Gostava de fofoca. Em um bate-papo com um tio que dizia ter comprado a cama da Marquesa de Santos e queria registrá-la, meu pai disse: 'Mas a Marquesa de Santos tinha muitas camas'", contou aos risos.

Platéia também participou

A primeira participação do público através de perguntas foi com uma destinada a Chico Buarque. Um fã quis saber se ele tinha o modo de escrever parecido com o de compor. "Quando estou escrevendo, não tenho nenhum contato com a música. Talvez uma canção ao fundo. Mas é preciso sentir musicalmente a frase ou um parágrafo inteiro. Eu acredito que a música popular tem influência clara na minha escrita. Acho isso muito bom."

Milton respondeu a seguinte pergunta: "Você se sente um escritor regionalista?". "Sou o mais regionalista dos escritores. E quanto mais regionalista, mais universal. Não tenho o menor problema em ser regionalista".

Antes do encerramento, Chico citou uma passeata das comunidades quilombolas, caiçaras e de outros representantes dos arredores de Paraty, a pedido dos seus líderes. O ato aconteceu durante a tarde. O autor informou que eles não são contra a Flip, mas reclamam do turismo predatório e da especulação imobiliária que está afastando diversos povos das suas terras.

Autógrafos, sim, mas para poucos. Fotos, não

Chico Buarque autografou uma quantidade limitada de livros na Tenda dos Autógrafos. Às 21 horas, cerca de 300 pessoas tinham esperanças de conseguir um autógrafo.

Nas ruas do Centro Histórico de Paraty muita gente aguardava pela passagem de Chico. Os fotógrafos fizeram de tudo para conseguir uma boa foto. Valeu até subir em um dos ferros que sustenta a estrutura da tenda.

Ainda durante o bate-papo na mesa Seqüências Brasileiras, a platéia foi avisada que Chico não faria fotos e autografaria um número limitado de livros. Imediatamente parte do público se levantou e começou a caminhar para a Tenda dos Autógrafos na tentativa de garantir ao menos uma dedicatória do ídolo.

A auxiliar de compras Rosana Gonçalves, 36 anos, de São Bernardo dos Campos, interior de São Paulo, estava com o livro Leite Derramado nas mãos. "Não vi a palestra porque não consegui ingressos. Vim direto para a fila. Desde criança acompanho a música e a literatura do Chico. Cresci ouvindo ele", disse.

Raquel Toledo, professora em São Paulo, também aguardava por um autógrafo. "Assisti um pouco da palestra pelo telão. Não consegui senha, mas vou ficar na fila. É o Chico, afinal. Ele não aparece em público. Uma oportunidade como essa é válido o sacrifício", garantiu.

De acordo com uma pessoa da coordenação da Flip, apenas cem senhas foram distribuídas para as pessoas que estavam na fila. Provavelmente, nem Rosana, nem Raquel conseguiram autógrafos. Nenhuma delas tinha senha.

Fonte: Especial para Terra
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