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Alegoria de 'Dogville' chega ao palco do Rio de Janeiro

Espetáculo é idealizado pelo ator e produtor Felipe Lima e tem direção de Zé Henrique de Paula

5 nov 2018 - 06h11
(atualizado às 11h23)
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A premissa do filme Dogville, do cineasta dinamarquês Lars von Trier, de 2003, é - após o barulho de tiros à distância - a chegada repentina da misteriosa e paradoxal personagem Grace (interpretada por Nicole Kidman) na cidade fictícia Dogville. Tom, um habitante local, oferece ajuda à recém-chegada para tentar inclui-la na comunidade. Por ora, essa "vila canina" ainda não mostrou seus dentes.

Quando escrevo literatura, penso com insistente frequência no território de Dogville - seu espaço cênico é uma espécie de mapa (da pequena cidade "nas montanhas rochosas dos Estados Unidos") composto por plantas baixas minimalistas marcando ruas e residências; uma espécie de mapa desenhado em branco, giz?, no chão negro: onde atores-personagens aparecem inseridos.

Dentro da cenografia radical, dentro do estilo particular, a arte escancara-se arte: a proposta de Lars von Trier, subvertendo verossimilhanças, quebra imediatamente qualquer expectativa de encontrarmos, na tela, um espelho perfeito da plateia; ao mesmo tempo, em contexto ficcional, emergem os sentimentos mais humanos e contraditórios possíveis, emergem situações presentes em nossa vida e sociedade.

Compaixão e raiva; melancolias, ambições; relações de trabalho, difíceis decisões coletivas; proteção e punição; estupros, vinganças e assassinatos.

Pensar na cidade Dogville, durante páginas em preenchimento, está relacionado, suponho, às diferentes perspectivas - incontornáveis - entre autor e personagens e, a posteriori, leitores.

Há, no jogo narrativo, sombras e luzes que, simultâneas, revelam-se e escondem-se para um ou para outro. Elementos que podem funcionar feito as marcações delimitando ambientes (que existem, mas não existem): onde pessoas (que respiram, mas não respiram) aparecem inseridas.

Zé Henrique de Paula, diretor da adaptação brasileira para o teatro de Dogville, que está em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Clara Nunes (e em São Paulo, no Teatro Porto Seguro, em 25 de janeiro de 2019), é arquiteto de formação. Para manter o impacto da cenografia, segundo o diretor, "o ponto de vista foi quase invertido". Ao passo que o filme flerta com a linguagem teatral, Zé Henrique foi instigado por Felipe Lima, idealizador do espetáculo, a "fazer com que o espectador assistisse a uma peça que flertasse com a linguagem cinematográfica."

Há, portanto, diversos instantes em que determinados atores - incorporando certa estética rudimentar, através do figurino opaco, espesso, desbotado - contracenam com projeções pré-filmadas; ou instantes em que captações ao vivo, por exemplo, exibem closes concomitantes aos acontecimentos do palco.

Cena do filme 'Dogville' de Lars von Trier, de 2003.
Cena do filme 'Dogville' de Lars von Trier, de 2003.
Foto: Divulgação / Estadão

Entrecruzando linguagens, o espaço cênico da cidade - mapa com plantas baixas -, tão impressionante no filme, transforma-se em telas e cadeiras. Uma cadeira para cada cidadão de Dogville. Catorze cidadãos; acrescenta-se a forasteira Grace (interpretada por Mel Lisboa) e um narrador , que deixa de ser John Hurt, em off, para integrar o elenco e materializar-se ao redor da mobília. De repente, as cadeiras são dispostas simulando o interior de uma igreja; de repente, criando, no imaginário, uma fila de macieiras.

Para Zé Henrique, a dinâmica "vai ressignificando a própria cadeira, dando vida nova a esse objeto". Sem o cenário realista, "pronto", estimula-se a cognição espacial do espectador. "É uma peça de raciocínio, embora possa haver momentos de catarse." E, no âmbito quimérico, raciocínio ou catarse, capítulo a capítulo - feito uma partida de xadrez em que todas as peças, progressivamente, ficam em xeque -, intercalam-se e emaranham-se várias vozes.

Enquanto a protagonista Grace, ambulante interrogação, oculta elementos biográficos significativos; Chuck (Fabio Assunção) pode ser encarado como seu contraponto, o polo oposto na tensão dramatúrgica. Talvez Chuck seja o personagem mais áspero, com a personalidade mais violenta, em Dogville; talvez, o mais honesto em relação à própria personalidade.

Características evidentes desde a obra de Lars von Trier, que foram incorporadas pelos atores brasileiros; mas, também, com experiências de expansão. Tanto pelo fato de o roteiro original conter, de acordo com Felipe Lima, "lugares de abertura para inovações", quanto porque a direção orientou que os atores não assistissem ao filme. "Para caminharmos com liberdade", explica Assunção. "Ninguém reviu o filme no início do processo", completa Mel Lisboa.

Sobre a dificuldade de transportar para o teatro uma das interpretações mais fortes de Nicole Kidman, e uma das personagens mais icônicas do cinema recente, Lisboa afirma ter percebido "que o simples fato de ser teatro - a linguagem teatral (mesmo tangenciada pela cinematográfica) - faz com que a emissão da voz e o trabalho de corpo sejam distintos; nota-se que, em Kidman, é tudo sussurrado, miúdo, calcado no detalhe. Não se consegue fazer isso em teatro. Basta uma questão de linguagem para modificar a personagem."

Dentre os polos da tensão dramatúrgica, permeado por microdilemas individuais, oscila Tom (Rodrigo Caetano) e o microcotidiano ambíguo da cidade. Caldeirão para que a "vila canina", capítulo a capítulo, dentes à mostra, comece a morder. Nesse ponto da montagem - além do brutal primeiro estupro da trama - duas cenas relacionadas destacam-se: o menino Jason, com traços masoquistas, chantageia Grace para que ela o espanque (a solução do espancamento funciona muito bem); e Vera (Bianca Byington), mãe de Jason, revida, simbolicamente, destruindo objetos dos quais Grace gosta (criados com as cadeiras-curingas).

Próximos ao sopé da ladeira, prosseguiremos observando tal trágico tabuleiro; e é inútil alimentarmos ilusões: nada restará, para Dogville, exceto o xeque-mate. No entanto - mais do que o filme, do que o território do filme, que dialoga, na forma, com minha produção literária -, a peça compeliu-me à seguinte dúvida: de modo imprevisível e incontrolável, o conteúdo de Dogville poderia relacionar-se com a circunstância política e social do Brasil contemporâneo?

"Acredito que Dogville", diz Fabio Assunção, "seja uma das possibilidades que existem na sociedade. Mas a sociedade é mais ampla. Acredito que aqui, Dogville é uma cidade onde não há esperança." Bastante sutil, pela frase, demonstra-se o envolvimento do ator com seu personagem; afinal, não estávamos na pequena cidade fictícia: conversávamos no café do Teatro Núcleo Experimental, após um dos últimos ensaios antes da estreia.

E Assunção finaliza: "Em Dogville, é o caos total. É a perversidade escorada na fragilidade do outro. No Brasil, contudo, ainda há esperança: lutamos por uma política na qual acreditamos, tentamos valorizar o ser humano. E há vários lugares, várias cidades no Brasil; hoje, algumas são Dogvilles - outras são Hairs; é muito grande, o Brasil, para comprarmos peça e realidade, como se fosse apenas isso."

Estadão
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