'A Pediatra', de Andréa Del Fuego, chega ao teatro com Debora Lamm: 'Ela é amoral e desvia da culpa'
Sob direção de Inez Viana, a intérprete recria a médica infantil que odeia crianças na versão do livro, que também deve render um filme no ano que vem
Em outubro de 2021, A Pediatra, romance de Andréa Del Fuego, chegou às livrarias e causou nos leitores um encanto proporcional ao desconforto. A escritora paulistana apresentou Cecília, uma médica que odeia crianças e se mostra intolerante com pais e mães que recorrem ao seu consultório. Na trilha dos grandes personagens, Cecília passou a ganhar diferentes rostos na imaginação do público, que, a partir desta quinta, dia 12, poderá materializá-la através da atriz Debora Lamm, de 48 anos.
Sob a adaptação e direção de Inez Viana, A Pediatra ganha montagem teatral que estreia no Auditório do Sesc Pinheiros cercada de expectativas. A obra foi traduzida para sete idiomas e tem fãs engajados que já esgotaram os ingressos.
O conflito de Cecília se instaura depois que vários de seus pacientes recorrem a outro profissional, adepto de técnicas humanistas, e, em paralelo, ela desperta para sentimentos inéditos com o nascimento do filho de seu amante. "A gente ri de nervoso dos absurdos que ela comete e enxerguei Debora imediatamente neste papel", afirma Inez, de 60 anos. "Cecília precisa parecer querida para depois ser vista como maquiavélica, e Debora tem essa temperatura de intérprete."
Inez devorou o livro em um dia e meio, logo depois do lançamento. Tinha acabado de ler - e adorado - um outro romance, Canção de Ninar, da escritora franco-marroquina Leïla Slimani, sobre uma babá que assassina crianças, e não se conteve. Acreditou na sintonia, correu atrás do contato de Andréa e, pelo telefone, ouviu da escritora que poderia considerar os direitos de adaptação como seus. Na conversa, ainda descobriu que a autora tinha encontrado em Canção de Ninar um impulso para criar A Pediatra. "Canção de Ninar me tirou de um livro sobre kung fu em que trabalhava há oito anos para escrever algo mais próximo de mim", revela Andréa.
Conhecida por trabalhos cômicos na televisão e no cinema, Debora vibrou com a possibilidade de a personagem transitar por diferentes gêneros. Assim que leu o romance, imaginou como reinventaria Cecília em uma linguagem que a fizesse saltar do papel impresso, o que comprova a vocação da personagem para o palco e o audiovisual. "Eu gosto de comédias que trazem a gravidade da vida e você pode começar uma frase chorando e terminar rindo ou vice-versa", justifica ela, que, nesta mesma quinta, dia 12, estreia a série Juntas & Separadas, no Globoplay, em que contracena com Luciana Paes, Natália Lage e Sheron Menezzes.
A maior das contradições, segundo Debora, é que Cecília, apesar de parecer tão livre, é cheia de amarras. "Ela é amoral e desvia tanto da culpa que, às vezes, se mostra engessada na hora de falar ou expressar os sentimentos", explica. "Tanto que se torna pediatra por ter um pai médico, a facilidade de um consultório e, assim, dá prosseguimento a uma vida sem escolhas próprias."
Na transposição de Inez, A Pediatra ainda conta com o ator Luis Antonio Fortes, que representa Celso, o amante da protagonista. Os demais personagens só aparecem através da narração deles. "Eu tenho que ser fiel às palavras do original, mas sem me travar", garante. "Pensei muito na adaptação de Thereza Falcão para o romance A Mulher que Escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar (1937-2011), que gerou o monólogo que fiz em 2007."
Andréa, aos 50 anos, não demonstra qualquer apreensão com o fato de seus personagens ganharem a reinvenção de outros donos. "Eu confio na visão da história de Inez e Debora e, para fazer a relação com o livro, brinco que meu filho já foi roubado por elas", diz a escritora, que pela primeira vez é levada à cena. Não leu absolutamente nada das três versões da dramaturgia e tampouco assistiu a qualquer ensaio, garantindo total liberdade. "O livro só se consolida através da leitura de outras pessoas e, no teatro, ele vai ganhar corpo, luz e uma atriz que transita em segundos do drama para a comédia."
Inez agradece a segurança de Andréa e renega a máxima teatral de que "autor bom é autor morto". "Tudo o que mais quero é agradá-la e ver a plateia com vontade de comprar o livro", garante. Como diretora, Inez tem outra adaptação em cartaz, neste caso assinada por Pedro Kosovski. Trata-se Mulher em Fuga, versão dos livros Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021) e Monique se Liberta (2024), do francês Édouard Louis, protagonizada por Malu Galli e Tiago Martelli. A peça chega ao Rio de Janeiro nesta quinta, dia 12, e Andréa gostou tanto que viu o espetáculo duas vezes na temporada paulistana, em janeiro. "Mulher em Fuga preservou no texto e na encenação as intenções de Louis", elogia.
O novo romance de Andréa Del Fuego
O próximo romance de Andréa vai se passar em uma emissora de televisão, ambiente que ela identifica como próximo ao de um hospital porque "tudo pode acontecer a qualquer momento".
Outra novidade é que A Pediatra chegará aos cinemas sob a direção de Joana Jabace e, neste caso, Andréa já teve até reuniões com a equipe de roteiristas. A protagonista não foi definida e não há data paras as filmagens. "Pode ser que, a partir de agora, eu escreva meus livros pensando no palco, nas telas, em como os personagens poderão dialogar com outras linguagens."
Serviço - 'A Pediatra'
- Onde: Auditório do Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros.
- Quando: De 12/3 a 18/4. Quintas a sábados, 20h30. Sessões extras nos dias 27/3, 10 e 17/4, às 16h.
- Quanto: Esgotado.
- O livro está no catálogo da Companhia das Letras