"A casa virou o endereço do medo": psicóloga alerta para a pandemia silenciosa da violência doméstica no Brasil
Com mais de uma década de atuação clínica e social, a psicóloga Josy Severo defende que igrejas e comunidades deixem de ser barreira e se tornem ponte para mulheres em situação de violência
No Brasil, milhões de mulheres descobrem que o lugar mais perigoso não é a rua, mas a própria casa. É desse paradoxo que parte o trabalho da psicóloga clínica Josy Severo, especialista no atendimento a mulheres, que há mais de dez anos une consultório, hospital psiquiátrico, projetos sociais e comunidades de fé em torno de uma mesma causa: proteger a saúde mental e a vida de mulheres em situação de violência.
"A casa, que deveria ser refúgio, tornou-se para milhões o endereço do medo", resume.
Uma epidemia com números de guerra
Os dados que embasam a atuação de Josy vêm de organismos nacionais e internacionais. Estima-se que uma em cada três mulheres no mundo já tenha sofrido violência física ou sexual ao longo da vida — marca que praticamente não mudou em duas décadas. No Brasil, pesquisas recentes apontam milhões de mulheres vítimas de violência doméstica em um único ano, e a maioria das agressões acontece dentro de casa, cometida por companheiros ou ex-companheiros.
Para a psicóloga, o dado mais revelador é outro: a maioria das vítimas não procura ajuda. "O silêncio é a resposta mais comum. Por isso, o desafio não é só oferecer serviços, mas criar confiança para romper esse silêncio — e é aí que a comunidade ao redor da mulher faz diferença", explica.
Do consultório ao púlpito: uma trajetória incomum
A combinação de experiências de Josy Severo é rara. Formada em Psicologia e pós-graduada em Saúde Mental, com capacitação em avaliação psicológica para procedimentos cirúrgicos, ela construiu uma carreira que atravessa frentes que raramente se encontram em um só profissional.
No campo clínico, dedicou-se ao tratamento de quadros complexos em comunidades terapêuticas e clínicas de reabilitação voltadas à dependência química, e atuou como psicóloga no Centro de Tratamento Bezerra de Menezes, referência em saúde mental, entre 2020 e 2024. Mantém consultório próprio desde 2012, com foco em psicoterapia individual e terapia de casais.
Sua atuação também alcançou a esfera pública. Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), integrou a coordenação da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Pessoa com Epilepsia, articulando lideranças e entidades de todo o país e ajudando a construir políticas públicas. Em paralelo, levou a psicologia a projetos sociais e a grupos de mulheres em situação de vulnerabilidade, com foco na conscientização sobre a violência doméstica e na restauração da autonomia feminina.
Um estudo para transformar fé em proteção
O trabalho mais recente de Josy Severo é também o que melhor sintetiza sua trajetória. Ela reuniu anos de prática e pesquisa em um artigo científico sobre o papel das comunidades de fé no enfrentamento da violência doméstica — um estudo quantitativo e comparativo que analisa dados oficiais e experiências bem-sucedidas de intervenção religiosa no Brasil e no mundo. O trabalho foi aprovado por pares (revisão cega) e espera pela publicação em uma das revistas científicas mais reconhecidas no país.
"Quando se diz a uma mulher agredida para orar mais e ter paciência, transfere-se a ela a culpa pela própria dor. A fé de uma mulher nunca pode custar a vida dela", afirma a psicóloga.
Em vez de barreira, Josy propõe que a igreja seja ponte: um lugar seguro de escuta, informação sobre direitos e encaminhamento para a rede de proteção. Seu modelo se estrutura em cinco eixos — liderança feminina, escuta sem julgamento, letramento jurídico, articulação com a rede pública e conscientização permanente da comunidade. "A igreja não substitui a polícia nem a Justiça.
Conscientizar para salvar
Para Josy Severo, informação é o primeiro passo da prevenção. Ela lembra que canais como o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) e o 190 (emergência), além das delegacias da mulher e dos centros de referência, precisam ser conhecidos e divulgados nos espaços onde as mulheres já estão.
"A violência prospera no escuro, no segredo e na vergonha. Conscientizar é acender a luz — e acender a luz, aqui, pode significar salvar uma vida", conclui.
Por: Nathalia Carvalho
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