'A Casa dos Malditos' desnuda com coragem o percurso de dúvida e fé, excessos e solidão de ex-monge
Tito Leite volta ao momento em que decide abandonar o hábito monástico para contar, com sinceridade, sua luta contra o vício, seu castigo e a descoberta de que é preciso atravessar a dor para então decidir qual vida, afinal, ele deseja viver
Há livros que parecem pedir ao leitor não apenas atenção, mas também alguma espécie de cumplicidade. A Casa dos Malditos, de Tito Leite, é um deles. Sincero, corajoso e, sobretudo, desarmado, o livro começa com uma afirmação que já anuncia a travessia: o narrador pretende abandonar o hábito monástico. Até que isso aconteça, porém, há um longo percurso de dúvidas, excessos, fé, álcool, literatura, desejo e solidão.
Dividido em duas partes, Estilhaços da alma e Adeus ano velho, o livro acompanha os dois últimos anos da experiência monástica de Tito (2022 e 2023), sem pretender reconstituir linearmente toda a sua trajetória religiosa. O passado aparece pelas lembranças, mas o centro da narrativa está no período em que ele é enviado para uma casa de recuperação destinada a religiosos por conta do seu vício em álcool. E, depois, retorna a Olinda antes de finalmente deixar o mosteiro. Nesse meio, está Mônica, personagem de nome fictício, por quem o autor fica desesperadamente apaixonado.
É justamente nessa estrutura que reside uma das forças do livro. Tito alterna tempos, ambientes e experiências sem deixar que a narrativa se disperse. O leitor pode estar acompanhando uma noite de excessos nos bares do Sítio Histórico de Olinda, quando ele mergulha profundamente na bebida, e, poucas páginas depois, encontrar o narrador numa igreja, numa oração ou diante de uma questão espiritual. A alternância funciona como mecanismo de sedução: quando uma história ameaça perder velocidade, outra surge e nos conduz adiante. O resultado é a sensação, curiosa e muito bem-vinda, de estarmos diante de um romance, embora se trate de um livro de memórias.
Entre a igreja, o álcool e a literatura
Na primeira parte, acompanhamos a vida mundana de um monge que frequentava os bares de Olinda, bebia, escrevia, amava e se metia em aventuras. O álcool e a literatura caminham quase de mãos dadas. Tito já era um escritor reconhecido, autor dos romances Jenipapo Western e Dilúvio das Almas, este finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, ambos vendidos para o cinema, além de livros de poemas. A escrita, portanto, não é mero detalhe biográfico, é uma vocação que disputa espaço com todas as outras. O desejo de escrever parece insaciável, uma espécie de antídoto para as mazelas do corpo e da alma.
O excesso, porém, cobra seu preço. Tito é enviado para uma casa de recuperação de religiosos, instalada num mosteiro no sul do país, adaptado para essa finalidade, e que ele chama de "Casa dos Malditos". Ali passa meses em terapias individuais e coletivas, convivendo com outros religiosos igualmente marcados pelo vício. Há conflitos, confrontos com terapeutas e embates entre os internos. A recuperação aparece como aquilo que de fato é: uma luta diária. "O primeiro passo é admitir que somos impotentes diante do álcool", escreve.
A segunda parte acompanha seu retorno ao mosteiro de São Bento e a aproximação definitiva da saída. É quando a experiência religiosa ganha ainda mais espaço. Tito revela ao leitor a engrenagem de uma vida que normalmente permanece invisível para quem está do lado de fora: as orações dos monges, a clausura, as obrigações, as missas, as relações entre os irmãos, as disputas de poder e os embates com o abade, o superior do mosteiro. Também aparecem as dúvidas sobre a vocação e o sofrimento de não ser aceito pela própria comunidade. É feito até um dossiê anônimo de denúncias sobre ele, mostrando os excessos nas noites olindenses.
Há críticas ao moralismo superficial e às incoerências institucionais, mas A Casa dos Malditos não é um livro de vingança, denúncia ou acerto de contas com a Igreja. É, antes, um livro sobre o confronto de um homem consigo mesmo. O próprio Tito se desnuda por inteiro, colocando sua alma diante do leitor, com suas contradições e escolhas. "Somos a prova de que nem sempre o Espírito Santo age nas grandes tomadas de decisão de uma casa religiosa", afirma em determinado momento. A frase resume parte da inquietação que atravessa a obra.
Mas há também beleza nessa experiência. A fé em Deus e a devoção a São Bento aparecem ao lado da busca pelo místico. Thomas Merton, autor do clássico A Montanha dos Sete Patamares, entre outros, surge como referência espiritual e literária. Tito também encontra espaço para reflexão sobre a rejeição lendo Nietzsche: "Os mais odiados são aqueles que podem voar". Em outro momento, um dos mais bonitos do texto, o autor relata sentir a presença da oração de alguém que sabe estar rezando por ele. São passagens que revelam um homem tentando compreender a própria fé para além dos protocolos religiosos.
O livro é denso, mas não pesado. Existe humor, ironia e até episódios hilários. Tito sabe rir de si mesmo e dos ambientes que frequentou. Conhecedor da tradição cristã, insere informações sobre santos e episódios da história religiosa, inclusive a figura fascinante de São Bento José Labre, que desejou ser monge, mas nunca conseguiu se encaixar num mosteiro e acabou se tornando um peregrino. Tornou-se o padroeiro dos mendigos, por ter renunciado aos bens materiais e vivido em extrema pobreza.
Fé também na literatura
A literatura para Tito, no entanto, permanece como uma espécie de fé paralela. Ele escreve porque precisa escrever. A prosa e a poesia são instrumentos de sobrevivência e de compreensão do mundo. O escritor aparece em constante diálogo com outros autores, artistas e referências culturais, revelando um intelectual atento ao que acontece ao redor. A própria narrativa demonstra o domínio de quem conhece o ofício de contar histórias.
Por isso, a experiência de leitura não se reduz à curiosidade sobre a vida interna de um mosteiro. A Casa dos Malditos está muito distante de ser um "Big Brother monástico". O que lemos é a travessia de um homem que tenta conciliar tantas vocações e descobrir qual vida, afinal, deseja viver. "É estranho viver num lugar em que não existe ninguém feliz", escreve sobre a clínica de recuperação. Em outra passagem, diante da solidão, pergunta-se pela misericórdia de Deus, que ele próprio define como "o músculo mais forte da alma".
Talvez essa seja a palavra fundamental do livro: misericórdia. Há misericórdia para quem cai, para quem sofre, para quem se contradiz e até para a própria instituição religiosa. Tito não escreve com raiva. Olha para o passado tentando compreender o que aconteceu e, ao mesmo tempo, abre espaço para o futuro. A saída do mosteiro é uma derrota e, simultaneamente, um recomeço.
O autor encerra sua travessia lembrando o homem que um dia desejou ser: "Eu sempre vi o monge como o homem que está além da dor." Mas talvez a grande descoberta de A Casa dos Malditos seja justamente a de que o monge, o escritor e o homem não estão além da dor. Precisam atravessá-la. "Entrei no mosteiro buscando verdadeiramente a Deus, mas aos poucos me esqueci do meu propósito de vida." E é nesse reconhecimento, entre a queda e o recomeço, que a busca finalmente muda de perspectiva.
Ao final, fica a sensação de que a Casa dos Malditos não era apenas o lugar do castigo para onde outros o enviaram. Ele compreende que o verdadeiro maldito talvez fosse ele mesmo. Não como condenação, mas como aquele que precisava encarar as próprias sombras. A longa caminhada religiosa não terminou exatamente como imaginara. Ainda assim, permanecem a fé, a escrita e a esperança de um novo ano. Seja pelas expectativas do que pode vir do lado de fora, do mundo material, seja, principalmente, pelo que pode florescer do lado de dentro, na própria alma.
A Casa dos Malditos: Memórias de um ex-monge Beneditino
- Autor: Tito Leite
- Editora: Zahar (168 págs.; R$ 77,90; R$ 39,90 o e-book)
Leia trechos de 'A Casa dos Malditos'
"Penso seriamente em largar o hábito monástico, mas sou convidado a me internar numa clínica de reabilitação, só para padres e freiras. Nem sabia que esse lugar existia. O site fala de um espaço que oferece apoio psíquico e espiritual para religiosos que sofrem. Não é muito comentado, mas aumentou bastante o número de suicídios na vida consagrada. Quando vejo uma corda, sempre me preocupo com o pescoço de um dos nossos monges. O meu abade fala que seria bom para mim, pois estou doente, e, feito um bom médico da alma, ele deseja a minha salvação. A verdade é que a minha cabeça é só conflito. Não é fácil explicar, os motivos são múltiplos: a crise vocacional, o alcoolismo, um amor não correspondido e as confusões dentro do mosteiro. É muito triste quando os anos passam e não entendemos o que realmente acontece ao nosso redor e dentro de nós.
Um ser humano em conflito é sempre um animal que sangra. Eu aceito conhecer a clínica de reabilitação. O que realmente quero é fugir de tudo o que me dilacera: da dor do amor, de uma vida de conflitos, das minhas contradições e de todo o moralismo superficial da Igreja.
O meu superior acha melhor que eu parta no começo de dezembro, para ficar longe das festas de fim de ano em Olinda. Viajo no dia 4. Para economizar, o abade compra uma passagem de avião com quatro escalas. Em cada aeroporto lavo a minha face no fundo do poço."
(...)
"Eu sempre vi o monge como o homem que está além da dor. No começo da minha caminhada vocacional, o monaquismo era para mim um depositário da épica dos dias atuais. Entrei no mosteiro buscando verdadeiramente a Deus, mas aos poucos me esqueci do meu propósito de vida. O monge (do grego monos) é 'um' em Deus, indiviso, sem dualidade. Buscando essa deificação abracei os ditos do deserto, as palavras de salvação, que são as sentenças deixadas pelos Padres no Deserto."
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