Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

A bizarra saga de 'Coyote vs. Acme': uma ideia engraçada e 36 anos de bastidores rocambolescos

Ian Frazier relembra as idas e vindas do texto que escreveu há tantos anos até que ele finalmente virasse o filme que estreia agora combinando live-action e animação

28 ago 2026 - 08h06
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O filme *Coyote vs. Acme*, que adapta o conto humorístico de Ian Frazier publicado em 1990 sobre o Coiote processando a empresa Acme, finalmente estreia nos cinemas após mais de três décadas de entraves. A produção enfrentou anos de limbo em Hollywood, disputas sobre a autoria da ideia original e até o engavetamento pela Warner Bros. Discovery para fins fiscais, antes de encontrar uma nova distribuidora e garantir o lançamento da comédia que mistura live-action com animação.
📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos

Em 2022, Ian Frazier, colaborador de longa data da revista The New Yorker, recebeu um e-mail de uma amiga chamada Hannah Albee, diretamente de Albuquerque, no Novo México.

Eles haviam se conhecido anos antes na cozinha comunitária Holy Apostles, em Nova York, onde Frazier trabalhava como voluntário e Albee era funcionária.

"Parabéns", escreveu ela. "Eles estão filmando Coyote na minha rua."

Albee referia-se a Coyote vs. Acme, um potencial blockbuster estrelado pelos personagens do universo Looney Tunes, Wile E. Coyote (o Coiote) e o Road Runner (o Papaléguas). O filme estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta, 27.

Qual era a ideia engraçada?

O longa é baseado em um texto de humor que Frazier escreveu há mais de três décadas. Nele, o autor imagina o Coiote processando a corporação Acme por todos os danos e ferimentos sofridos enquanto perseguia sua presa com a ajuda de aparelhos defeituosos da marca.

O artigo foi publicado na edição de 65º aniversário da The New Yorker, em 19 de fevereiro de 1990. Na sequência, teve seus direitos comprados para o cinema. E, depois disso, caiu em um limbo aparentemente infinito em Hollywood.

Quando recebeu o e-mail da amiga, a adaptação cinematográfica era a última coisa na cabeça de Frazier.

"Na verdade, eu já tinha me esquecido completamente disso", disse ele durante o almoço em um restaurante vietnamita em Montclair, Nova Jersey, onde mora com a esposa, a romancista Jacqueline Carey.

Coyote vs. Acme, que combina live-action e animação, está sendo lançado 36 anos depois de ter sido datilografado em uma máquina de escrever manual Olympia.

Quem é Ian Frazier e como tudo começou

Aos 75 anos, Frazier não se encaixa no perfil habitual do sofisticado escritor novaiorquino. Conhecido pelos amigos como Sandy, ele mantém o jeito simples de sua criação em Hudson, no estado de Ohio. Porém, por trás da fachada calma, esconde-se a mente idiossincrática que criou a coletânea humorística Dating Your Mom e talvez seu livro mais famoso, Great Plains, uma vasta reflexão sobre o meio-oeste americano.

Saindo do interior de Ohio, ele conquistou uma vaga na Universidade Harvard. Escreveu para a revista humorística The Harvard Lampoon e ficou amigo de Jim Downey, que viria a se tornar um dos roteiristas mais produtivos do Saturday Night Live. Após se formar, em 1973, Frazier passou um tempo escrevendo legendas para a revista erótica Oui. Logo em seguida, encontrou o lar profissional perfeito: a The New Yorker.

Destacou-se com relatos concisos para a seção Talk of the Town, reportagens elegantes e textos humorísticos sempre certeiros. Em 1990, suas atenções se voltaram para o Coiote.

Ele tinha 39 anos e morava em Nova York com a esposa e a filha bebê. Naquela época, era leitor assíduo da revista American Lawyer, cujos exemplares pedia emprestados a um vizinho do andar de baixo. Ficou especialmente fascinado pelos argumentos jurídicos de Gerry Spence, um eloquente advogado de estilo caubói que defendeu Imelda Marcos de acusações de extorsão e crime organizado. Frazier decidiu então escrever algo assumindo a voz do advogado do Coiote.

"A ideia era usar a linguagem formal de um discurso de abertura de tribunal para descrever algo absolutamente absurdo", contou.

Como milhões de americanos que cresceram assistindo aos desenhos animados nas manhãs de sábado, ele conhecia muito bem as desventuras do Coiote. O animal tenta — e falha repetidamente, de formas desastrosas — capturar seu velocíssimo inimigo, o Papaléguas, usando uma variedade de bugigangas da marca Acme.

"Ocorreu-me que, se você pega um par de patins e instala pequenos motores de jato em cada um deles, é óbvio que algo vai dar errado", disse Frazier. "A corporação Acme de repente se tornou um personagem na minha cabeça."

Wile E. Coyote e o Papaléguas foram criados para a Warner Bros., produtora da franquia Looney Tunes, pelo animador Chuck M. Jones e pelo roteirista Michael Maltese. Em sua autobiografia, Chuck Amuck, Jones escreveu que se inspirou no livro Aventuras Rústicas (Roughing It), publicado por Mark Twain em 1872. Twain descrevia o coiote como um "esqueleto longo, magro, doentio e de aspecto miserável" e "uma alegoria viva e respirante da Privação".

Frazier conhecia a passagem de Twain e suspeitava que ela tivesse influenciado o personagem. Ele enxergava no desejo obsessivo do Coiote uma espécie de compaixão trágica. "Ele tenta ser assassino, mas há algo nele... ele simplesmente não consegue ser cruel o suficiente", observou. "E há aquele momento de paz na iluminação. Às vezes ele fica muito tranquilo no final, logo quando despenca do precipício. O momento de aceitação é sempre muito comovente."

Obra no centro de um bate-boca literário e acusação de plágio

A história, batizada por Frazier como Coyote v. Acme, foi escrita rapidamente, somando apenas 1.600 palavras. Ele tirou cópias das páginas e caminhou até a caixa de correio, perguntando-se se o material impressionaria sua editora na The New Yorker, Veronica Geng, ela própria uma renomada escritora de humor. "O 'sim' ou o 'não' dela determinava totalmente se um texto valia a pena", lembrou.

Pouco depois de ser publicada na revista, a obra virou centro de um bate-boca literário: outro autor de humor, Joey Green, concedeu entrevistas às revistas Newsweek e The New York Observer acusando Frazier de plágio.

Em 1982, Green havia publicado uma série em três partes chamada Cliffhanger Justice na National Lampoon, baseada exatamente na mesma premissa. "Eu adorava os desenhos do Papaléguas, e a grande questão era por que o Coiote nunca tinha processado a marca por propaganda enganosa e produtos defeituosos", disse Green em entrevista por telefone de sua casa, na Flórida.

Frazier afirmou que não conhecia o texto de Green antes de escrever Coyote v. Acme. Durante o almoço em Montclair, ele ainda parecia abatido com a acusação. "Como eu provo que não sabia?", disse. "Eu não lia a National Lampoon. Foi uma enorme decepção, para ser sincero."

Também foi uma decepção para Green — principalmente quando Coyote v. Acme ganhou ainda mais projeção como a história principal da coletânea de humor lançada por Frazier em 1996, livro que venceu a edição inaugural do Thurber Prize, tradicional prêmio do humor americano.

"Eu me sinto como o próprio Coiote", disse Green, hoje com 68 anos. "A catapulta disparou e a pedra caiu em cima de mim." Agora que o filme finalmente será lançado, ele gostaria de receber sua parte por parte de Hollywood, assim como Frazier. "Se o filme é baseado no texto dele, também é baseado no meu", defende Green.

Ambas as histórias usam o jargão jurídico imparcial para descrever a violência pastelão dos desenhos animados, mas a leveza de Frazier transformou Coyote v. Acme em um modelo de escrita humorística em seu estado mais brilhante e nonsense. A saber: "O Sr. Coiote perdeu o controle dos Patins a Jato logo após amarrá-los e colidiu contra um outdoor na beira da estrada com tanta violência que deixou um buraco com o formato exato de sua silhueta."

O romancista Jonathan Franzen considera o texto um clássico do gênero. Ele leu a obra em voz alta durante um episódio do programa de rádio da The New Yorker em 2015, classificando-a como "um verdadeiro espetáculo nas alturas" e elogiando o domínio de linguagem de Frazier na busca pelo "humor pelo próprio humor".

O caminho até Hollywood

Na década de 1990, o produtor Eric Steel tinha o hábito de recortar artigos que chamavam sua atenção e pregá-los no mural de avisos de seu escritório. Foi assim que Coyote vs. Acme começou sua segunda vida.

Na época, Steel trabalhava para o produtor Scott Rudin, que mais tarde seria duramente criticado por seu comportamento hostil e abusivo com funcionários. Visto como um visionário, Rudin estava por trás de grandes sucessos de meados dos anos 90, como A Firma, A Família Addams 2 e As Patricinhas de Beverly Hills. Steel imaginou que um filme baseado na história de Frazier poderia seguir a linha de Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), blockbuster que reuniu personagens de animação com atores reais e estabeleceu um novo padrão para o gênero.

"O texto de Frazier funcionava porque era uma reviravolta inteligente em algo que todos conhecíamos bem", disse Steel. "Minha ideia foi: e se déssemos uma virada ainda maior? E se usássemos outros personagens da Warner Bros., tendo o julgamento no tribunal como estrutura principal?"

Em 1998, oito anos após a publicação do artigo, a Scott Rudin Productions comprou os direitos da obra. Frazier recebeu um cheque modesto, com a promessa de um pagamento significativo caso o filme fosse efetivamente produzido. No entanto, havia um obstáculo, como observou Steel: a produção não poderia avançar sem a aprovação formal da Warner Bros.

A opção de compra venceu após um ano. Rudin renovou. Depois veio uma segunda extensão — e uma terceira. Frazier recebia pequenos pagamentos ao longo do processo (ele preferiu não revelar valores). A única vez em que realmente alimentou esperanças foi quando um assistente de Rudin ligou avisando que o próprio produtor iria telefonar para ele. A ligação nunca aconteceu.

"Fui mais um cancelado por Scott Rudin", disse Frazier.

Em 2004, Rudin deixou a opção caducar. Steel, que a essa altura trabalhava como produtor independente, adquiriu os direitos novamente, mas optou por não renová-los quando o prazo expirou, em 2006.

Pela década seguinte, o projeto permaneceu engavetado. Nada que fizesse Frazier perder o sono. Ele estava ocupado com suas matérias para a The New Yorker e com a escrita de seu livro de não ficção, Travels in Siberia. Além disso, nunca teve a ambição secreta de virar um grande nome de Hollywood — embora tenha atuado em Sem Fôlego (Blue in the Face), filme independente codirigido por Wayne Wang e Paul Auster. Quando Frazier foi assisti-lo em um cinema de arte em Missoula, Montana, era a única pessoa na sala.

"Eu não vou ao cinema", disse ele. "Por muito tempo, eu assistia a apenas um filme por ano: SOS - Tem um Louco Solto no Espaço."

E então chegou a hora e veio o grande cheque

James Gunn, diretor dos filmes Guardiões da Galáxia, era outro fã do texto de Frazier. Em 2015, ele apresentou a ideia diretamente à Warner Bros. e recebeu o sinal verde.

"Quando a Warner assumiu o projeto, pensei: 'Agora tem mais chances'", disse Frazier.

Mais seis anos se passaram. Múltiplas versões de roteiro. Uma nova equipe de produção. A fusão da WarnerMedia com a Discovery. Finalmente, em 2022, as filmagens começaram.

Mesmo então, o texto de 1990 continuou guiando a visão do produtor Chris DeFaria, do diretor Dave Green e da roteirista Samy Burch. "O texto do Ian sempre foi a nossa meta em termos de tom", disse Burch. Green definiu a obra de Frazier como "engraçada e profunda ao mesmo tempo", acrescentando: "Foi o que acendeu a minha faísca e me fez dar risadas altas de verdade."

Filme é gravado, mas vai parar na gaveta

Após o filme de US$ 70 milhões ser totalmente rodado, a estreia foi marcada para julho de 2023. Foi quando a produção despencou do precipício: a Warner Bros. Discovery decidiu engavetá-la — não porque Coyote vs. Acme fosse ruim (as exibições de teste com o público foram um sucesso), mas porque engavetar o lançamento permitia à empresa abater US$ 30 milhões em impostos.

Frazier contou que ficou decepcionado não por si mesmo, mas pela equipe técnica e pelo elenco. "Li que o pessoal encarregado das explosões lamentou que o público não pudesse ver o trabalho que eles fizeram", disse. "Eu me comovi com isso. Afinal, quando você faz uma boa explosão..."

O filme passou o ano de 2024 em uma espécie de purgatório. Então, demonstrando a mesma resiliência do Coiote, encontrou uma nova distribuidora.

Agora que Coyote vs. Acme está chegando às telas, Frazier parece ansioso antes de assistir à obra. "Sou meio supersticioso", confessou. "Quero muito, do fundo do coração, que seja bom."

Quatro anos atrás, quando soube das gravações por sua amiga em Albuquerque, ele entrou em contato com seu agente literário, que procurou a Warner Bros. Discovery. Ninguém no estúdio se dera ao trabalho de informá-lo de que as filmagens haviam começado, e ele não tinha recebido o gordo cheque normalmente pago ao autor da obra original no primeiro dia de produção.

Quando o pagamento finalmente caiu na conta, Frazier resolveu se dar ao luxo de um extravagante consumo.

Comprou um Toyota Camry híbrido.

"Nunca amei tanto um objeto na minha vida", arrematou.

Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos
Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra