Trecho de "Diário de uma Expedição"
Domingo, 23 de julho de 2000, 00h42min
Uma a uma, com uma precisão matemática, as granadas estouravam dentro da área reduzida do inimigo, batendo-a em todos os pontos, casa por casa; ricochetando em certos lugares e abrindo um círculo amplíssimo de estragos, suspendendo além, bruscamente, numa explosão enorme, a poeira intensa dos escombros, alevantando mais longe a coma fulva e desgrenhada dos incêndios. Durante 48 minutos os canhões da Sete de Setembro, do centro e da direita da linha fulminaram, reviraram, revolveram um trecho do povoado onde repugnava à razão admitir a existência dos homens, sobre-humanamente bravos embora. E durante todo esse tempo sob uma avalanche pesadíssima de ferro, nem uma voz se alteou da zona fulminada, imersa toda numa quietude pasmosa, inconceptível quase; nem um vulto correndo estonteado pelas vielas estreitas e tortuosas, nem a mais leve agitação patenteavam a existência de seres, ali dentro. A artilharia fez estragos incalculáveis nas pequenas casas, repletas todas. Penetrando pelos tetos e pelas paredes as granadas explodiam nos quartinhos minúsculos despedaçando homens, mulheres e crianças sobre os quais descia, às vezes, o pesado teto de argila, pesadamente, como a laje de um túmulo, completando o estrago. Parece, porém, que os malferidos mesmo sofreavam os brados de agonia e os próprios tímidos evitavam a fuga, tal o silêncio, tal a quietude soberana e estranha, que pairavam sobre as ruínas fumegantes, quando, às 6h48, cessou o bombardeio. (...) Sejamos justos - há alguma coisa de grande e solene nessa coragem estóica e incoercível, no heroísmo soberano e forte dos nossos rudes patrícios transviados (...) Leia mais: » "Diário de uma Expedição" mostra Euclides da Cunha no sertão » Açude de Canudos concentra esperança » "Os Sertões" é um feito literário do jornalismo
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O Estado de S. Paulo
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