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Açude de Canudos concentra esperança

Domingo, 23 de julho de 2000, 00h37min
Na região de Canudos, tudo parece convergir para o açude de Cocorobó, que suscita sentimentos dúbios no sertanejo local: ao mesmo tempo que ele recobre com suas generosas águas o palco da sangrenta guerra de Canudos, é quando está seco que vêm para suas margens os turistas e estudiosos, uma razoável fonte de renda turística para as cidades circunvizinhas.

"Graças a Deus ele está coberto de água", diz Tanicleide Santos, diretora da Associação Canudense de Estudos e Pesquisas Antônio Conselheiro, expressando essa amb iguidade. "Choveu em dezembro e ele tornou a encher." Sem a água, o gado morre de sede e a cidade mingua. Mas as "ruínas" aparecem e aumenta o interesse do romeiro e do turista.

Tanicleide, ao mesmo tempo que zela pelo que restou da História, é também proprietária do Hotel Brasil, raro albergue na região. Anteontem, esperava por uma comitiva de 120 estudantes de Salvador que veio conhecer o cenário de um dos mais fascinantes conflitos sociopolíticos do Brasil.

O açude de Cocorobó encobriu a segunda Canudos - construída apenas seis meses após sua destruição pelo Exército - e que só chegou a ter 60 casas, segundo os historiadores. Em 1968, o regime militar (de novo os militares) deu o golpe fatal na história e financiou a construção do açude. A "incômoda" história de Canudos parecia ter finalmente desaparecido.

Seca forte - As ruínas de Canudos, encobertas por uma água escura e ladeadas por uma vegetação baixa, só aparecem quando a seca é forte. É provável, segundo historiadores, que o corpo decapitado do próprio Conselheiro esteja enterrado ali - a cabeça foi para Salvador e destruída num incêndio.

O açude é visível já a partir do Alto do Mário, o ponto culminante da região, onde hoje os restos de pequenas trincheiras e escavações arqueológicas são demarcados por correntes e marcos de cimento.

Até quatro anos atrás, não havia nada demarcado nem vigias e o turista levava tudo que encontrasse pela frente. E, por incrível que possa parecer, havia o que levar: restos de projéteis, fivelas de cintos, botões de fardas.

Mesmo cem anos após o conflito, as marcas da guerra ainda estão espalhadas pela região.

Todo o conjunto forma o Parque Estadual de Canudos, criado em 1986 por decreto do então governador João Durval. Atualmente, já se planeja inclusive estender essa influência do parque, criando-se o Parque Nacional de Canudos - o governo federal estuda a possibilidade.

Ao longe, da beira do açude, divisam-se as serras arredondadas que Conselheiro avistou antes de ordenar a parada de sua comitiva e ordenar a construção do seu Belo Monte. Uma cidade de "rios de leite e barrancas de cuscuz", imaginou o líder religioso, objeto de devoção de cerca de 3 mil romeiros que, todo ano, desde 1994, vão para a beira do açude em romaria para prestar-lhe homenagens.

Mas os romeiros também se dividem quanto aos motivos que os levam até Cocorobó. Há duas correntes que realizam duas festas distintas. Uma está representada pela Igreja, é a que reúne o maior número de pessoas e é realizada no fim de outubro.

A segunda corrente - concentrada no que se batizou de Movimento Popular Histórico de Canudos - é uma dissidência e é liderada pelo Padre Enoque Oliveira, expulso da Igreja em 1989 sob a acusação de estar "politizando" demais a questão de Canudos entre os agricultores e intelectuais da região.

"São dois movimentos opostos e de finalidades distintas", diz a sergipana Guilhermina Ramos, secretária-geral do Movimento Popular Histórico de Canudos. "Nosso movimento entende que o Parque Estadual de Canudos não tem significado nenhum para a população, porque exclui o sertanejo e obriga a marcar hora para visitar uma terra que é do povo", ela diz.

Como se vê, o cenário bucólico e histórico de Canudos esconde, desde sempre, um antigo conflito. A viagem a Canudos pode ser feita de Aracaju ao açude em estrada asfaltada. Mas, se for feita a partir de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), cidades às margens do São Francisco, leva por 300 quilômetros de estrada ruim - boa parte sem asfalto - e por uma paisagem desigual.

A irrigação anima um bom trecho, mas o restante é feito de rios mortos e muita pedra. Legiões de bodes atravessam a estrada a todo momento, e a carne de cabrito é servida de diversas maneiras nas cidades históricas, como Uauá - onde o conflito começou, em 1896.

Na cidade de Euclides da Cunha (ou Cumbe, como era chamada originalmente e como ainda é conhecida), Conselheiro virou nome de hotel. Ali também está o Museu de Cumbe, com um acervo cuidadosamente recolhido pelo sertanejo José Aras, que conheceu e entrevistou pessoalmente sobreviventes da guerra e recolheu objetos do conflito.

Em Monte Santo (cidade que foi o quartel-general do planejamento das operações que incendiaram o Belo Monte), Conselheiro tornou-se merecedor de uma escultura em madeira, exposta na Praça da Matriz, juntamente com o busto do marechal Bittencourt e o canhão Wordsworth (a famosa "matadeira") utilizado na guerra contra Canudos; em Uauá, o Conselheiro é atração turística na feira municipal.

Bendengó, que foi outro importante cenário da guerra e fica a poucos quilômetros do açude de Cocorobó, hoje é um vilarejo meio parado. Ficou famoso por ter sido o local onde caiu, no século passado, o maior meteoro já visto no Brasil, que teve de ser carregado por 12 parelhas de boi.

Memorial - A atual Canudos - distante uns dez quilômetros do açude - tem pouco mais de 10 mil habitantes e construiu recentemente um memorial para Conselheiro e seus sertanejos. A Associação Canudense de Estudos e Pesquisas Antônio Conselheiro é uma batalha solitária de Tanicleide e Haroldo Costa, que contam entre suas grandes conquistas a recuperação do documentário Os Sinos Badalam em Canudos, em preto-e-branco, que mostra o momento em que a segunda Canudos foi engolida pelas águas do açude de Cocorobó.

Segundo a associação, da primeira Canudos, a de Conselheiro, foram salvos apenas a cruz de madeira do líder religioso - hoje num abrigo construído pela prefeitura no Alto do Cruzeiro - e pedaços das paredes da igreja.

Um dos grandes capítulos de Os Sertões é também o menos lido: A Terra.

Pula-se a descrição geográfica de Euclides da Cunha para chegar-se direto ao Homem, ao conflito, à ação. Mas é em A Terra que ele prepara o leitor para fazer as conexões entre a geografia e o humano, sem o qual não se compreende a história.

É uma terra mitológica e triste, tão triste que às vezes o surgimento da cor no cenário cinza, entre os pés de umburanas e os faveleiros, parece machucar os olhos, acostumados à desolação. Não foi por acaso que, na subida do Morro de Santa Cruz, também na região, Gláuber Rocha filmou cena de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Leia mais:
» "Diário de uma Expedição" mostra Euclides da Cunha no sertão
» "Os Sertões" é um feito literário do jornalismo
» Trecho de "Diário de uma Expedição"

O Estado de S. Paulo


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