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"Os Sertões" é um feito literário do jornalismo

Domingo, 23 de julho de 2000, 00h41min
É no mínimo irônico que queiram negar a Os Sertões o caráter jornalístico. O livro é tido e estudado como uma obra literária e/ou sociológica, um primo em segundo grau de Grande Sertão: Veredas e em primeiro grau de Casa-Grande & Senzala. Mas Os Sertões é antes de mais nada uma obra de um jornalista, o maior feito jornalístico das letras brasileiras ou, o que dá na mesma, o maior feito literário do jornalismo brasileiro.

Como tal, deveria ser estudado nas escolas de jornalismo, se os jovens não fugissem de suas dificuldades retóricas como quem foge de um tiroteio.

Como demonstraram suas cartas, lançadas pela Edusp há alguns anos, e demonstra agora essa reedição do Diário de uma Expedição, o monumental Os Sertões foi sendo imaginado aos poucos, ao sabor dos acontecimentos, à medida que o repórter com formação de engenheiro militar via confrontados seus preconceitos pela seqüência de fatos surpreendentes. Quer definição mais clara de jornalismo? E o livro finalmente publicado em 1902 seria a soma de um trabalho árduo e ardoroso movido pela busca do entendimento de todas as implicações contidas naquela seqüência de fatos, custasse o que custasse. Para Euclides, como para o Brasil, custava uma reversão aguda de sua percepção sobre a realidade. Quer papel mais glorioso para um jornalista?

Euclides saiu daqui preocupado em entender como os próceres da República estavam sendo capazes de "curvar a cerviz" diante de uma horda primitiva, como diz numa de suas cartas, e esperava, nas palavras finais de seu primeiro artigo sobre a guerra, que esses soldados "admiráveis de bravura e abnegação" logo impusessem sua moral e ciência superiores. Voltou, depois de acompanhar in loco o que chamaria de "charqueada" - hoje diríamos "carnificina" -, disposto a advogar em nome dos sertanejos, uma gente forte como a natureza que a cercava, sobre a qual os evoluídos nada sabiam, mostrando-se, por isso, mais atrasados e violentos do que os seguidores de Conselheiro. E fez assim seu "livro bárbaro e vingador".

É comum no Diário uma perplexidade do tipo: "É extraordinário que os que aqui têm estado e escrito ou prestado informações sobre esta campanha, nada tenham dito ainda acerca de um terreno cuja disposição topográfica e constituição geológica são simplesmente surpreendedoras." Desta anotação sobre a ignorância ou descuido dos outros jornalistas é que nasceria, claro, A Terra, primeira parte de Os Sertões. Ou então: "Sejamos justos - há alguma coisa de grande e solene nessa coragem estóica e incoercível, no heroísmo soberano e forte dos nossos rudes patrícios transviados." Eis a semente de O Homem, tentativa de entender a rude soberania daquelas almas crentes. Logo a seguir: "O mesmo avançar dos jagunços - célere, serpeante, escapando à trajetória retilínea - num colear indescritível e fantástico quase." Ora, é A Luta.

Mostrar esse estoicismo que serpenteia num terreno surpreendente, descrever o quase indescritível, relatar o que vivenciou sem deixar o frio do dogma e o calor da hora obscurecerem os paradoxos da vida - valendo-se de conhecimentos em geologia, literatura ou antropologia -, talvez esse seja um objetivo jornalístico que o próprio jornalismo tem vergonha de reconhecer como seu?

Leia mais:
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O Estado de S, Paulo


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