PUBLICIDADE

Pesquisa mostra como violência afeta moradores da Maré

Estudo com 1.411 habitantes do complexo diz que 17% dos entrevistados já viram alguém ser baleado ou morto; relatos vão de dificuldade para dormir a pensamentos suicidas

23 ago 2021 05h11
| atualizado em 2/12/2021 às 13h57
ver comentários
Publicidade

Um estudo divulgado nesta segunda-feira, 23, mostra que um terço dos moradores do Complexo de Favelas da Maré, na zona norte do Rio, teve a saúde mental afetada por causa da violência. Entre os sintomas mais relatados estão os de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e tentativas de suicídio. Segundo a pesquisa, quase dois terços dos moradores relataram medo de serem alvejados por disparo de arma de fogo. O trabalho mostrou ainda que 71% deles apontou receio constante de que um familiar ou amigo fosse atingido.

Brasil, RJ, Rio de Janeiro. 29/03/2014. Movimentação em rua do Complexo da Maré, na zona norte da cidade, um dia antes da ocupação pelas forças de segurança da Polícia e do Exército.
Brasil, RJ, Rio de Janeiro. 29/03/2014. Movimentação em rua do Complexo da Maré, na zona norte da cidade, um dia antes da ocupação pelas forças de segurança da Polícia e do Exército.
Foto: MARCOS ARCOVERDE / ESTADÃO CONTEÚDO

Os números fazem parte da pesquisa 'Construindo Pontes', liderada pela organização inglesa People's Palace Projects e pela ONG Redes da Maré. O estudo ouviu 1.411 moradores das 16 favelas que compõem o complexo, entre 2018 e 2020.

De acordo com o levantamento, a violência armada está entre os principais temores dos moradores. Ao todo, 140 mil pessoas vivem na Maré. Um em cada quatro entrevistados disse já ter tido alguém próximo morto ou ferido. E, nos 12 meses anteriores às entrevistas, 44% deles relataram que estiveram em meio a um tiroteio.

Os moradores também apontaram uma rotina de violações. Dezessete por cento deles disseram ter visto alguém ser morto ou baleado, 24% presenciaram agressões, e 13% tiveram suas casas invadidas no período de até um ano antes das entrevistas.

"Acredito que sou muito impactada na saúde mental por morar num local onde a violência é quase diária. Tem a questão das operações policiais, a gente sofre violência de todas as formas", diz Vanda Canuto, moradora da Vila dos Pinheiros. "Quando eu saio de casa, deixo meus filhos e sei que aquela casa a qualquer momento pode ser invadida de uma forma violenta."

O impacto desses números revela outros, igualmente preocupantes. A pesquisa apontou que ansiedade e depressão são sintomas diretos dessa rotina de violência. Episódios depressivos e de ansiedade foram relatados por mais de um quarto dos entrevistados.

Entre os que estiveram em meio a tiroteios, 12% disseram ter pensamentos sobre suicídio e 30%, sobre morte. Eles também apresentaram sintomas físicos. São problemas como dificuldade para dormir (44%), perda de apetite (33%), vontade de vomitar e mal-estar no estômago (28%) e calafrios ou indigestão (21,5%).

"A população de favelas vive historicamente sob determinadas violações e violências", diz Eliana Silva, diretora da Redes da Maré. "Ao longo do tempo, a gente nunca conseguiu entender os efeitos disso na vida das pessoas que moram em favelas. Nós não temos políticas consistentes em relação à saúde mental, em relação aos efeitos que isso traz na vida das pessoas."

Os resultados do estudo motivaram a realização do Rema Maré. Trata-se de um conjunto de atividades que serão realizadas esta semana no complexo. Serão voltadas à saúde mental da população local.

A campanha contará com atividades culturais, debates e intervenções nas diferentes comunidades que compõem o conjunto de favelas. Um Guia de Saúde Mental da Maré, com orientações básicas aos moradores sobre o tema, também será distribuído.

O projeto é considerado essencial por James Douglas Oliveira, morador da favela Rubem Vaz.

"Já vivi os dois polos", contou. "Fui diagnosticado com crise de ansiedade e depressão, tive sintomas de depressão profunda. Já tive a tentação de tentar o suicídio. Vivi um processo de reabilitação, de tratamento. Fui buscar ajuda terapêutica. A importância do Rema Maré para os moradores é pautar esse assunto, introduzir esse tema, fazer com que a gente se abra mais para conversar sobre isso."

Estadão
Publicidade
Publicidade