Por que estratégia de políticos mandarem "dar um Google" pode enganar
“Filtragem” e personalização de conteúdos com ajuda de algoritmos podem ocasionar resultados diferentes para cada internauta
Quase todo usuário que está na Internet já deve ter ouvido o termo “Dá um Google” quando diz respeito a fazer buscas sobre um determinado assunto. O motor de busca da empresa recebe bilhões de consultas todos os dias de países de todo o mundo em 150 idiomas.
O mais recente caso de “Dá um Google”, aconteceu durante o debate eleitoral da noite de domingo (16), quando o atual presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) afirmou que houve mais desmatamento no primeiro mandato do governo Lula (PT) (2003-2006) do que no atual governo (2019-2022). Bolsonaro então, pediu para que as pessoas procurassem sobre o tema "no Google".
O efeito que Bolsonaro espera, com a sugestão, é que todos vissem nos primeiros resultados os mesmos sites com a resposta para isso. Mas, na prática, não é bem assim.
Apesar de o Google ser uma plataforma universal, o resultado da pesquisa feita no buscador, no entanto, funciona diferente para cada usuário. Para que o site ofereça a melhor experiência de busca a cada pessoa, ele desenvolve sistemas chamados “algoritmos”.
De maneira geral, um algoritmo é uma sequência de ações executáveis que entregam uma solução para determinado problema. Ele é conduzido por um conjunto de cálculos que estabelecem procedimentos precisos, padronizados e eficientes para questões matemáticas e computacionais.
Fatores que influenciam resultados diferentes
O Google já explicou de forma geral como sua busca funciona e indexa páginas web. Além dos algoritmos, usa rastreadores, indexadores e inteligência tecnológica para encontrar os sites que tenham o melhor conteúdo para o usuário.
Algumas dessas tecnologias ajudam a entregar com maior precisão o resultado desejado. Elas incluem ferramentas capazes de detectar o idioma, o local de pesquisa, decifrar sequências de palavras, completar frases, entender e corrigir erros de digitação, utilizar sinônimos ou identificar se a busca é geral ou refinada.
O site leva em conta também que tipo de aparelho (smartphone ou computador) a pessoa está usando para fazer a busca.
Veja alguns pontos que o Google leva em conta ao “filtrar um conteúdo”.
- Rastreamento: o Google faz o download de textos, imagens e vídeos de páginas encontradas na Internet com programas automatizados chamados rastreadores.
- Indexação: o Google analisa os arquivos de texto, imagens e vídeo na página e armazena as informações no índice do Google, que é um grande banco de dados.
- Exibição dos resultados da pesquisa: quando um usuário faz uma pesquisa, o Google retorna informações relevantes para a consulta dele.
O buscador inteligente também analisa o contexto em que foi feita a pesquisa, ou seja, considera aquilo que está entre as novidades e tendências no momento. Todos esses “filtros” podem influenciar diretamente o resultado do conteúdo que aparece na sua busca.
Quer um exemplo disso? O modo mais famoso da influência de um algoritmo é pelas redes sociais com anúncios personalizados. Quando você faz uma busca de algo no Google, o algoritmo tende a traçar um perfil do usuário para dizer o que ele precisa naquele momento — assim, uma publicidade pode aparecer para você sobre o mesmo assunto que você pesquisou.
Impactos da seleção de conteúdos
O “filtro” refinado do Google feito nas buscas podem ter impactos positivos e negativos. Se por um lado os algoritmos são eficientes para o público obter as informações que precisa e otimiza os anúncios, por outro, separar o conteúdo com “apenas aquilo que agrada” a certos públicos pode criar o chamado “efeito bolha”.
Essa filtragem de informação atinge o internauta de maneira que ele acaba exposto apenas a ideias que lhe são afins, rejeitando argumentos contrários e enriquecedores. Neste caso, o efeito bolha restringe o acesso das pessoas à diversidade de conteúdos — o que pode levantar discussões sobre o seu potencial antidemocrático. É um tema que preocupa pesquisadores há tempos.
Em um artigo para a Escola Superior do Ministério Publico, Marcelo Santiago Guedes, perito em tecnologia do Ministério Público Federal e mestre em Ciência da Computação pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), afirma que “do ponto de vista legal e do Direito, a limitação dessas plataformas em fazer transitar conteúdos diversos e antagônicos nas mesmas redes sociais gera preocupações quanto à sua efetiva capacidade de cumprimento de decisões judiciais que envolvem o direito de resposta”.
[ATUALIZAÇÃO 18/10/2022] Procurado por Byte, o Google afirmou que as ferramentas buscam oferecer as informações mais úteis e que os algoritmos da busca examinam vários fatores e sinais. "Mas o peso de cada um deles, para determinar e priorizar a informação mais relevante, depende da natureza do que foi pesquisado", diz o comunicado.
Como exemplo, a empresa cita a data de publicação do conteúdo, que se torna um aspecto mais importante nas consultas sobre notícias recentes do que em definições de dicionário. Também diz que a pesquisa do Google "garantem que o usuário receba as informações certas no momento adequado e no formato mais útil para cada consulta".