Por que é problemática a proposta de enterrar restos mortais na Lua
Envio de cinzas humanas para a Lua, como faria a sonda Peregrine, enfrenta desafios éticos e legais
O módulo Peregrine, desenvolvido pela Astrobotic Technology em colaboração com a Nasa, falhou em sua missão lunar e voltou para a Terra na última quinta-feira (18).
Lançada em 8 de janeiro, a nave enfrentou um problema de propulsão que a impediria de pousar suavemente na Lua. Após 10 dias no espaço, retornou e colidiu com a espessa atmosfera da Terra sobre uma área remota do Oceano Pacífico Sul.
Se chegasse à Lua, nave cumpiria, além de outros objetivos científicos e comerciais, a missão de levar ao satélite cinzas humanas, incluindo as do renomado autor de ficção científica Arthur C. Clarke.
Empresas como a Celestis e a Elysium Space já oferecem serviços de envio de cinzas para o espaço, com preços começando em alguns milhares de dólares. Porém, a Peregrine propôs o primeiro sepultamento lunar comercial, custando cerca de US$ 13 mil (R$ 64 mil).
Isso significa que devemos ter "cemitérios lunares" no futuro próximo? Não é bem assim.
A questão dos sepultamentos lunares toca em diversos aspectos sensíveis, incluindo conflitos entre tradições culturais e ambições científicas.
Como exemplo, em 1998, a Nasa enfrentou críticas do povo Navajo, nativo da América do Norte, ao transportar cinzas do astrônomo americano Eugene Shoemaker para a Lua, na missão Lunar Prospector. Isso porque o satélite natural é considerado sagrada por muitas culturas indígenas.
Além disso, há um labirinto legal e ético. As regras de cada país sobre o manejo e transporte de cinzas humanas são diversas, e a extensão dessas regras torna o espaço uma verdadeira terra sem lei.
A legislação espacial, como o Tratado do Espaço Exterior, foca em regular ações governamentas, não abordando diretamente atividades de empresas e indivíduos privados.
Há ainda o Acordo Artemis, feito entre o governo dos Estados Unidos e outros governos mundiais participantes do programa Artemis, esforço dos EUA para mandar humanos à Lua até 2025, com o objetivo final de expandir a exploração espacial para Marte e além.
O texto expande a proteção a sítios lunares de importância histórica, mas essas proteções, novamente, aplicam-se apenas a governos, não a missões comerciais, cada vez mais comuns.
Seguem não respondidas sobre quem tem o direito de realizar atividades como sepultamentos na Lua. Fato é que, se seguirem as mesmas tendências que tours espaciais, os cemitérios cósmicos devem ficar restritos a quem tiver milhares de dólares para investir na experiência.