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O que falta para nos livrarmos do plástico e outros derivados do petróleo?

Especialistas ouvidos pelo Byte apontam falta de lei mais específica para frear o uso de derivados do petróleo

22 jun 2023 - 05h00
(atualizado em 26/6/2023 às 11h46)
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Segundo a ONU, estima-se que o mundo produza 430 milhões de toneladas de plástico anualmente e apenas 9% são recicladas.
Segundo a ONU, estima-se que o mundo produza 430 milhões de toneladas de plástico anualmente e apenas 9% são recicladas.
Foto: Freepik

A decisão de não perfurar um poço no litoral do Amapá, em maio, não foi só uma disputa política de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, contra o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates. Foi também um novo lembrete para que o Brasil, assim como o resto do mundo, seja cada vez menos dependente de petróleo.

Nos últimos anos temos visto um aumento de interesse nas alternativas a combustíveis fósseis como a gasolina e o diesel, ambos derivados do petróleo. Combustíveis renováveis foram mencionados em novembro na declaração final da Cop27, a Conferência da ONU pelo clima, pela primeira vez na história do evento.

Mas o material não se resume ao seu potencial energético. É uma das matérias-primas mais usadas em todo o mundo. A partir dele surgem diversos tipos de plásticos, solventes, asfalto, borracha sintéticatecidos como o poliéster

Além dos impactos ambientais na extração do petróleo, há um a crescente preocupação com as mudanças climáticas e a necessidade de reduzir a dependência desse recurso em todo mundo.

Quando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou autorização para a Petrobras perfurar um poço de petróleo no litoral do Amapá, disse que a ideia da estatal para a área não apresentava garantias para a fauna e terras indígenas em Oiapoque. A área é considerada a foz do Rio Amazonas, um importante foco de preservação ambiental.

Já temos alternativas ao plástico sem petróleo, ou até mesmo comestíveis como um da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Apesar disso, a transição requer um esforço global de sociedade, empresas e governos, como apontam especialistas ouvidos pelo Byte.

“Não é um problema só de falta de tecnologia. Há um interesse muito grande na estrutura do petróleo, mas falta uma aplicação [para fazer a transição de materiais]”, comentou Jacques Demajorovic, professor da pós-graduação em Administração e sustentabilidade da FEI (Fundação Educacional Inaciana). 

O petróleo e seus derivados

O petróleo é o principal componente para a fabricação de plásticos, responsável pela maioria dos produtos que usamos no nosso dia a dia.

  • A exploração mundial se iniciou no século 19 por meio da perfuração e exploração em escala comercial dos primeiros poços petrolíferos;
  • Já no século 20, o uso aumentou significativamente com a ampliação de áreas produtoras de petróleo;
  • No Brasil, por exemplo, houve a criação da Petrobras e a descoberta do pré-sal como principais marcos históricos da exploração petrolífera.

Veja como são aplicados no cotidiano

  1. Polietileno (PE): é um dos polímeros mais usados. É encontrado em embalagens plásticas, sacolas de compras, garrafas de refrigerante e até mesmo em tubos de encanamento. Embora seja reciclável, a baixa taxa de reúso e o descarte inadequado levam à poluição ambiental, especialmente em rios e oceanos;
  2. Polipropileno (PP): é usado na fabricação de recipientes de alimentos, embalagens de produtos, brinquedos e até mesmo em fibras têxteis. Assim como o polietileno, a reciclagem adequada é essencial para minimizar seus impactos ambientais negativos.
  3. Policloreto de vinila (PVC): é conhecido por sua versatilidade e durabilidade. É usado em tubulações, janelas, revestimentos de fios elétricos e até mesmo em brinquedos. A produção do PVC envolve o uso de produtos químicos tóxicos. Também é de difícil reciclagem, o que pode resultar em impactos ambientais significativos se não for gerenciado adequadamente.
  4. Poliestireno (PS): é encontrado em copos descartáveis, embalagens de alimentos e até mesmo em produtos de isolamento térmico. No entanto, o PS é frequentemente apontado como um dos polímeros mais problemáticos em termos de poluição ambiental, devido à sua baixa taxa de reciclagem e sua degradação lenta na natureza.
  5. Polietileno tereftalato (PET): é usado em garrafas de refrigerante, recipientes de alimentos, fibras têxteis e até mesmo em tapetes. Embora seja reciclável, muitas garrafas com o material acabam em aterros sanitários ou no ambiente, contribuindo para a poluição plástica e afetando a vida marinha e terrestre.

Os problemas causados pelos derivados

Apesar de ser tão útil, o petróleo causa impactos ambientais associados à sua extração e queima. Seu  plástico derivado também se tornou um grave problema para o planeta, devido à sua baixa taxa de reciclagem e à poluição causada por seu descarte inadequado.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o uso nocivo do material tem impacto para saúde humana e crise climática. Estima-se que o mundo produza 430 milhões de toneladas de plástico anualmente, e apenas 9% são reciclados

O programa estima ainda que no ritmo atual, a produção de plástico deve triplicar até 2060. Hoje o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial, com a produção de aproximadamente 11 milhões de toneladas por ano.

Um dos desafios do plástico é que eles demoram cerca de 450 anos para se decompor. Enquanto isso, poluem a terra e os oceanos, além de causar mortes de ecossistemas marinhos. 

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a queima de combustíveis fósseis como a gasolina e o diesel respondem por mais de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa e quase 90% de todas as emissões de dióxido de carbono (CO2).

Plásticos que chegam aos oceanos impactam a vida marinha
Plásticos que chegam aos oceanos impactam a vida marinha
Foto: Mayne \ WWF

Alternativas atuais ao petróleo

No campo dos substitutos viáveis e ecologicamente responsáveis do plástico, estão surgindo materiais como bioplásticos criados a partir de fontes renováveis, como amido de milho, cana-de-açúcar, celulose e até mesmo algas marinhas. 

No Brasil, o uso do bagaço de cana já é uma realidade desde o início do Proálcool (Programa Nacional do Álcool) em 1975. Já no campo da energia, o material é usado nas caldeiras industriais e na produção do etanol 2G, gerado a partir dos resíduos descartados na produção do etanol de primeira geração.

"Além do etanol 2G, há a produção do biogás a partir de resíduos do processo de vinhaça e torta de filtro", explicou Suani Coelho, professora do Instituto de Energia e Ambiente da USP e membro do Centro de Pesquisas para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI).

A vinhaça e a torta de filtro são produzidos com resíduos da cana de açúcar e usados em fertilizantes. Também são um importante biocombustível não apenas para geração de eletricidade, mas também para o biometano, capaz de substituir o diesel e o gás natural.

Um estudo desenvolvido pelo Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) foca no poliol, elemento-chave na estrutura química dos poliuretanos. Estes são materiais encontrados em espumas, colas, adesivos de alto desempenho e rodas de skate. 

Praticamente todos os polióis usados nos poliuretanos são derivados do petróleo, mas a equipe visa prepará-los a partir do bagaço da cana. Esses materiais possuem características semelhantes às do plástico convencional, mas são biodegradáveis e compostáveis, o que reduz sua pegada ambiental.

Outros materiais estão sendo estudados e desenvolvidos, como compostos à base de fibras naturais, plásticos de origem vegetal e borrachas sintéticas sustentáveis.

Em 2010, a fabricante de pneys Goodyear anunciou o bioisopreno, borracha formulado a partir de açúcares encontrados na cana-de-açúcar, no milho, em um tipo capim chamado switchgrass e outros tipos de biomassa. No entanto, o desenvolvimento tem sido lento. Só no ano passado lançou o pneu sustentável Eagle Go do carro Citroën oli, da montadora francesa.

Alguns desses plásticos mais ecológicos já são aplicados no dia a dia. Em 2015, a Coca-Cola anunciou uma garrafa orgânica produzida a partir da cana-de-açúcar. A novidade, chamda de PlantBottle, foi apresentada na Expo Milano, conferência de tecnologia e alimentação.

Outro estudo de cientistas brasileiros da Universidade Estadual Paulista (Unesp) busca fabricar um bioplástico a partir da gelatina incolor de tipo B, extraída do tutano de boi e facilmente encontrável em supermercados. Os resultados foram publicados na revista científica Polymers e teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Plástico feito com pectina, um tipo de fibra solúvel que pode ser encontrada naturalmente em frutas e verduras, como maçã, beterraba e frutas cítricas.
Plástico feito com pectina, um tipo de fibra solúvel que pode ser encontrada naturalmente em frutas e verduras, como maçã, beterraba e frutas cítricas.
Foto: Arquivo pessoal \ Márcia Regina Aouada

Márcia Regina de Moura Aouada, professora do departamento de física e química da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira (FEIS) da Unesp (Universidade Estadual Paulista), diz que esta pesquisa é uma oportunidade de ter materiais que não geram tanta preocupação com descarte irregular. 

“Há uma biodegradação rápida em que a embalagem irá se decompor sem causar danos ao meio ambiente”, explicou.

O grupo trabalha também na produção de um tipo de plástico oriundo da celulose bacteriana, gerado por microrganismos. Segundo a pesquisadora, esse material “apresenta propriedades muito satisfatórias em relação à melhoria das propriedades mecânicas” das embalagens de produtos comerciais. Ou seja, pode suportar conteúdos no interior, ser selado e manuseado. 

Demajorovic explica que a ampliação do uso dessas alternativas poderia dar ao país uma vantagem no cenário mundial como produtor. "O Brasil poderia estar despontando como um grande fornecedor de plástico biodegradável, mas a gente [país] tem interesses como a própria Petrobrás”, avaliou.

O que falta para um mundo sem petróleo?

Márcia Regina, da Unesp, afirmou que a ideia não é ter um mundo sem petróleo, mas uma alternativa. “Sem o plástico, muitas coisas que temos hoje não seriam possíveis, como vacinas. A ideia é ter uma alternativa ao petróleo ao consumidor, mostrar por que isso importa”, disse.

Para Demajorovic, da FEI, o problema não é mais sobre tecnologia limitada, é colocar isso como prioridade de governo. “O petróleo não precisa desaparecer. Mas precisamos de uma menor dependência e mais inovação política do governo”, afirmou o professor. 

Byte entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para saber mais sobre políticas voltadas para alternativas ao plástico, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. 

Legislação também importa

O Brasil conta com algumas iniciativas para a redução de derivados do petróleo. Uma delas é a RenovaBio, do Ministério de Minas e Energia (MME), lançada em dezembro de 2016 para expandir a produção de biocombustíveis. 

Também há a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), estabelecida pela Lei 12.305, de 2010, como um marco legal para controlar a poluição causada pelos resíduos sólidos, principalmente do plástico.

Mas, não existe lei nacional específica que trate de restrições ou banimento para plásticos descartáveis. Alguns estados e municípios já aprovaram leis nesse sentido, como a limitação ao uso de sacolas plásticas.

Um estudo de 2021 do Senado Federal mostrou que o crescente aumento da poluição do plástico indica a necessidade de uma legislação nacional. De acordo com Joaquim Maia Neto, consultor legislativo autor da pesquisa, tal lei traria uma uniformidade desejável e levaria a mais investimentos na produção de materiais sustentáveis.

Falta uma legislação mais específica sobre o uso de plástico no Brasil, dizem especialistas
Falta uma legislação mais específica sobre o uso de plástico no Brasil, dizem especialistas
Foto: Poder360

Esse não é um problema só do Brasil. De acordo com um estudo de 2019 da ONU Meio Ambiente em parceria com o World Resources Institute (WRI), dos 193 países no mundo, 127 promulgaram leis que proíbem produtos específicos, como pratos, copos, canudos e embalagens. Já 63 têm normas de responsabilidade estendida do fabricante para plásticos de uso único, incluindo reembolso de depósitos.

Para Demajorovic, falta uma regulamentação mais específica para recompensar empresas que reduzem o uso do petróleo. “O que o governo pode fazer incentivos diferenciados na medida que considera o menor impacto ambiental. Hoje a gente tem uma cadeia de reciclagem que funciona, mas não temos uma cadeia que premia o reciclador”, disse.

À medida que os acordos climáticos demoram para avançar, Márcia Regina afirma que a solução é tornar o consumidor mais consciente. 

“Nas praias, nos shoppings, nas ruas, a quantidade de lixo é absurda. Falta mostrar à população esses pontos negativos [do uso do plástico derivado do petróleo] que prejudicam a vida marinha e terrestre, que contaminam alimentos e outros danos que podem causar”, finalizou. 

Fonte: Redação Byte
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