O que é o Rumble, mencionado no documento encontrado pela PF na casa de Bolsonaro
Parceira da rede social de Trump, plataforma conservadora virou peça-chave na disputa entre Brasil e EUA
O Rumble, plataforma de vídeos que é reduto da extrema-direita global, se tornou um dos pontos centrais da operação contra Jair Bolsonaro desta sexta-feira, 18. Durante buscas autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal encontrou na casa do ex-presidente uma cópia impressa da ação que a empresa move contra o ministro Alexandre de Moraes na Justiça dos Estados Unidos.
O documento, protocolado no início do ano em parceria com a Trump Media (conglomerado de comunicação de Donald Trump), acusa Moraes de censura e pede que suas ordens judiciais não tenham efeito em território americano.
A descoberta reforça suspeitas de que Bolsonaro tentou influenciar autoridades estrangeiras contra decisões do Judiciário brasileiro. Na mesma operação, os agentes apreenderam seu celular, cerca de US$ 14 mil, R$ 8 mil em espécie e um pendrive escondido em um banheiro. O ex-presidente agora está proibido de usar redes sociais, entrar em embaixadas e manter contato com diplomatas e aliados políticos, incluindo seu filho Eduardo Bolsonaro.
Fundado em 2013, o Rumble é uma plataforma de vídeos similar ao YouTube. A partir de 2021, passou a abrigar influenciadores e políticos banidos por violar regras de conteúdo em redes como X (antigo Twitter), Facebook, YouTube e Instagram. Desde então, passou a fornecer a infraestrutura tecnológica da Truth Social, rede social criada por Trump após ser suspenso das plataformas tradicionais. O vínculo foi consolidado com investimentos de figuras próximas ao ex-presidente, como Peter Thiel (bilionário cofundador do Paypal) e o atual vice, J.D. Vance.
O embate entre o Rumble e o STF teve início com a recusa da empresa em cumprir ordens judiciais brasileiras, como a suspensão de perfis envolvidos em ataques à democracia, incluindo o blogueiro Allan dos Santos. Em fevereiro de 2025, Moraes determinou o bloqueio da plataforma no Brasil por tempo indeterminado, após a empresa se recusar a indicar um representante legal no país. A medida foi confirmada por unanimidade pela Primeira Turma do Supremo.
Mais recentemente, Moraes ordenou também a suspensão do perfil do comentarista Rodrigo Constantino, agora cidadão americano. O Rumble voltou a desobedecer a ordem e, junto com a Trump Media, acionou a Justiça da Flórida pedindo que as determinações de Moraes não tenham efeito nos Estados Unidos. O processo gerou notificação oficial ao ministro, que poderá ser julgado à revelia se não responder no prazo estipulado.
O caso se agravou ainda mais após Donald Trump publicar, no dia 9 de julho, uma carta aberta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No texto, o republicano denunciou o STF por supostas "ordens secretas e ilegais" e anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Especialistas veem a carta como parte de uma articulação entre o governo americano, parlamentares aliados a Bolsonaro e grandes empresas de tecnologia dos EUA, incomodadas com os avanços regulatórios no Brasil.
Entre os pontos de maior incômodo estão a mudança no entendimento do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que passou a permitir a responsabilização de plataformas mesmo sem ordem judicial, a tramitação do Marco Legal da Inteligência Artificial e as diretrizes firmadas pelo Brasil nos Brics e no G20 sobre soberania digital. As big techs enxergam esses movimentos como uma ameaça direta a seus modelos de negócio baseados em autorregulação e opacidade algorítmica.
Para investigadores, a cópia da petição do Rumble na casa de Bolsonaro mostra que a ofensiva internacional tem conexão direta com a estratégia de defesa do ex-presidente. Em maio, a Procuradoria-Geral da República (PGR) já havia pedido apuração sobre possíveis tentativas de Bolsonaro de estimular retaliações internacionais contra Moraes. A PF agora também investiga se houve tentativa deliberada de obstruir investigações ou pressionar instituições brasileiras por meio de articulações no exterior.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.