Dispositivo "Charm" da Meta carrega grandes ambições de Zuckerberg em relação à IA
A Meta revelou o Muse Charm, dispositivo de bolso voltado à inteligência artificial que dispensa o uso de smartphones. O lançamento reflete a guinada de Mark Zuckerberg rumo à "superinteligência pessoal", deixando o metaverso em segundo plano. Com tela de 5 cm, conexão 5G e apelo nostálgico similar a um Tamagotchi, o aparelho mira a Geração Z e impulsionou as ações da empresa, embora analistas ainda questionem sua capacidade de se consolidar como um produto de massa frente a rivais do setor.
Mark Zuckerberg fez várias alusões irônicas à Apple durante o evento anual da Meta, na quarta-feira, para depois seguir o exemplo de Steve Jobs em uma revelação surpresa: um dispositivo do tamanho de um relógio de bolso que leva o agente de inteligência artificial da companhia para o mundo real.
O dispositivo, chamado Muse Charm, destaca uma mudança mais ampla na gigante das mídias sociais, que há muito tempo busca se livrar dos sistemas operacionais da Apple e do Google por meio de uma plataforma própria. Os usuários podem tocar no aparelho para acessar o Muse diretamente, sem precisar passar pelos aplicativos de IA nos smartphones.
Tendo outrora defendido o metaverso, o mundo digital imersivo que inspirou a mudança de nome da empresa em 2021, como a próxima plataforma de computação, Zuckerberg agora vê a "superinteligência pessoal" como o avanço maior e mais imediato, após o fracasso de sua aposta anterior bilionária.
"Na verdade, está bastante claro que a superinteligência pessoal não só virá primeiro, como será muito maior e mais importante", disse Zuckerberg na conferência anual da empresa, a Meta Connect.
"Por isso, mudamos nosso foco para a criação dos melhores dispositivos para a superinteligência pessoal", disse ele, acrescentando que o Muse também estará disponível em breve em toda a linha de óculos inteligentes da Meta.
As declarações vêm após alguns dias de grande sucesso para o Muse, que atraiu milhões de downloads no que, segundo alguns analistas, pode ter sido o maior lançamento de aplicativo nos Estados Unidos desde que o ChatGPT chegou, em novembro de 2022, e deu início ao boom da IA.
Os investidores abraçaram o potencial do Muse para automatizar tarefas que vão desde a reserva de voos até a declaração de impostos, impulsionando as ações de parceiros como a Shopify, enquanto se desfizeram de empresas consideradas vulneráveis a disrupções, incluindo a agência de viagens online Booking e a Intuit, criadora do software TurboTax.
As ações da Meta subiram mais de 3% nesta quinta-feira, após acumularem alta de quase 24% desde o lançamento do Muse, em 8 de setembro. A empresa está a caminho de adicionar cerca de US$56 bilhões em valor de mercado, após cerca de US$ 324 bilhões até o fechamento da quarta-feira.
TAMAGOTCHI
O Muse Charm pode encontrar eco entre os consumidores mais jovens, em um momento em que câmeras digitais, celulares dobráveis e tocadores de MP3 estão voltando à moda com um toque nostálgico, afirmam analistas.
Os consumidores da Geração Z, com idades entre 14 e 29 anos, tratam os assistentes de IA como companheiros ou parceiros de discussão, em vez de simplesmente ferramentas de busca. Muitos interagem com a tecnologia por meio de notas de voz, vídeos curtos e chatbots de IA, ao contrário dos usuários mais velhos, que geralmente se sentem mais à vontade com computadores e aplicativos de smartphone.
"O Muse Charm pode ganhar força entre a Geração Z e os consumidores mais jovens. A combinação de IA, moda e personalização pode atrair os usuários mais jovens, especialmente se for acessível e fácil de usar", disse Linda Sui, fundadora da Smart Analytics Global, uma empresa de pesquisa de mercado.
O dispositivo possui uma tela de aproximadamente 2 polegadas (5 cm) que pode ser controlada com o polegar, com um personagem Muse personalizável no centro. Um modem 5G integrado permite o acesso ao Muse mesmo sem Wi-Fi, embora ele não possa fazer chamadas.
"Eles são atraentes para pessoas que talvez não queiram usar óculos ou que não confiem neles", disse o diretor da empresa de pesquisa de mercado IDC, Jitesh Ubrani.
"Algumas pessoas podem se lembrar do Tamagotchi, e isso pode evocar essa lembrança", disse Ubrani, referindo-se aos bichinhos virtuais coloridos que se tornaram um fenômeno cultural no final da década de 1990. "Eles podem ser capazes de executar um pequeno modelo de linguagem localmente. Assim, é possível rodar IA em um dispositivo tão pequeno."
Se a Muse conseguirá manter seu ímpeto e se o dispositivo poderá ampliar esse apelo é uma questão para os próximos meses.
Dispositivos semelhantes tiveram sucesso limitado. O Rabbit R1, um dispositivo portátil de IA generativa da startup Rabbit Inc com uma tela e um botão, teve um lançamento badalado no início de 2024, mas acabou sendo um fracasso porque prometeu mais do que podia em termos de recursos de IA e ofereceu uma experiência pouco confiável.
"Eu seria cauteloso quanto ao seu potencial no mercado de massa", disse Sui. "A menos que o Muse Charm possa oferecer funções exclusivas que smartphones, relógios, fones de ouvido ou óculos inteligentes não consigam substituir facilmente, é mais provável que ele continue sendo um dispositivo 'legal de se ter' para os primeiros usuários do que se torne um produto de massa."
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