Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Cientistas franceses criam esteira conectada que detecta sinais de Alzheimer e outros transtornos

A equipe da neurocientista francesa Leslie Decker, da Universidade de Caen, no noroeste da França, desenvolveu um dispositivo que detecta sinais precoces de transtornos cognitivos e de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Lançado em 2019 no laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen, o projeto Présage (Presságio, em tradução livre) é um programa acadêmico ambicioso que combina realidade virtual, matemática e inteligência artificial.

14 abr 2026 - 10h02
Compartilhar
Exibir comentários

Taíssa Stivanin, enviada especial da RFI a Caen

A equipe do Cireve, o laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen, na Normandia, no noroeste da França.
A equipe do Cireve, o laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen, na Normandia, no noroeste da França.
Foto: © Taíssa Stivanin/RFI / RFI

O aparelho criado pelos cientistas franceses, parecido com uma esteira ergomética, foi instalado em uma sala de cerca de 15 metros de comprimento e nove metros de largura do CIREVE, o laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen. Ele rastreia e registra riscos cognitivos e motores enquanto o paciente caminha e responde a perguntas que mobilizam atenção e memória. 

"Essa esteira permite avaliar o sistema locomotor e detectar biomarcadores que fornecem informações sobre o estado de saúde do participante. Tecnicamente, a esteira se adapta ao ritmo do paciente. Ela é equipada com duas plataformas de força, que registram o que chamamos de força de reação do solo, gerando dados sobre o equilíbrio dinâmico", explica a neurocientista francesa.

"A esteira também pode se inclinar na direção escolhida pelo participante e nas direções medial e lateral, mais complexas, que mobilizam mais recursos cognitivos para manter o equilíbrio. A esteira, claro, está conectada ao ambiente virtual", explica.

Durante o teste, o paciente é submetido a estímulos cognitivos enquanto caminha — primeiro em velocidade constante e depois em ritmos diferentes com cada perna. Ao mesmo tempo em que busca o ponto de equilíbrio deve executar simultaneamente uma outra tarefa: ler uma palavra em voz alta se ela estiver posicionada embaixo de um retângulo ou dizer qual é sua cor se for um losango. 

Em seguida, os pesquisadores franceses utilizam parâmetros matemáticos para avaliar e caracterizar os movimentos do paciente em função do risco cognitivo e motor. Quando detectado, ele triplica a probabilidade de desenvolvimento de transtornos neurocognitivos graves. "A ideia é saber se, nesse estágio bastante precoce, conseguimos identificar pacientes com risco de desenvolver esses transtornos", afirma Leslie Decker. 

Dispositivo já foi testado em cem pacientes 

Cerca de cem pacientes, com idades entre 55 e 87 anos, já testaram a ferramenta e 20 deles apresentavam a chamada síndrome do risco cognitivo motor (MCR), caracterizada por lentidão da marcha e queixas cognitivas subjetivas. 

Para definir um perfil locomotor específico dessa síndrome, a equipe utilizou modelos de inteligência artificial e analisou dados de pacientes saudáveis, estabelecendo critérios de comparação, explica o pesquisador Baptiste Perthuy.

"Isso permite identificar pacientes com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. A caminhada define um perfil locomotor, que é um reflexo do nosso estado estrutural. Isso é muito interessante porque traz muitas informações sobre uma patologia, uma pessoa e até mesmo sobre suas emoções", diz. 

Segundo o cientista Julien Rossato, outro integrante da equipe, quando esses transtornos afetam os movimentos e as funções mentais, é possível medir no teste a chamada reserva cognitiva - a capacidade do cérebro de se adaptar ao envelhecimento. Ela pode diminuir com o surgimento de uma doença ou simplesmente se esgotar com o passar dos anos. 

"O que nos interessa particularmente é medir o desempenho nessas duas tarefas — caminhada e estímulos. Para isso, pontos semelhantes a eletrodos são conectados aos participantes e medem a posição no espaço, com ajuda de câmeras instaladas ao redor do sistema", explica. "Assim, temos acesso a variáveis como ângulos das articulações e o tempo que a pessoa leva para levantar a perna. Também avaliamos o desempenho cognitivo, registrando a voz do paciente e seu tempo de reação", explica Rossato. 

A equipe utiliza modelos matemáticos e algoritmos avançados para analisar os dados e desenvolver estratégias de prevenção personalizadas. "A etapa final do projeto, depois de definido o perfil, é associar essas variáveis de desempenho a testes neurocognitivos ou questionários sociais", afirma Julien Rossato. 

O dispositivo utilizado no laboratório da universidade está agora em fase de adaptação para uso em consultórios médicos. O sistema desenvolvido pela startup a-gO usa três iPhones para captar os movimentos do paciente enquanto ele caminha por cinco minutos em uma esteira. 

A partir desses vídeos, a inteligência artificial cria um modelo 3D detalhado da marcha e o analisa para identificar sinais da síndrome do risco cognitivo motor — condição que precede doenças neurodegenerativas e associa lentidão da marcha a queixas cognitivas, explica Alexandre Dalibot, um dos fundadores da empresa. 

O objetivo é traçar um perfil de pacientes com a síndrome ou com sinais que exijam atenção, possibilitando a adoção de medidas preventivas ou tratamentos mais personalizados. "A meta da a-GO era desenvolver uma ferramenta capaz de detectar precocemente pessoas com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. Nesse estágio, ainda temos todos os neurônios e a reserva cognitiva", diz.

"Muitas medidas podem ser tomadas, e a ferramenta pode ser usada no dia a dia para monitorar a evolução desse risco. A ideia é adotar estratégias terapêuticas que permitam ao paciente agir e evitar transtornos associados ao envelhecimento. Vale lembrar que quase 75% das doenças neurodegenerativas podem ser evitadas", afirma Dalibot. 

A ferramenta deve ser testada em breve em centenas de pacientes de hospitais franceses e pode chegar a consultórios médicos do país em até dois anos. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar
TAGS

Comentários

As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra