Cientista francês testa nanopartículas para melhorar ação da imunoterapia contra o câncer
Como melhorar a eficácia da imunoterapia contra o câncer? Esse é o desafio do pesquisador francês Alexandre Detappe, diretor do Laboratório de Nanomedicina do Instituto Gustave Roussy, o maior centro de combate ao câncer da Europa, localizado em Villejuif, nos arredores de Paris. Em seu estudo, ele busca desenvolver nanopartículas capazes de ajudar o sistema imunológico a combater a doença.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Após alguns anos nos Estados Unidos, onde passou por instituições como o Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, Alexandre Detappe desenvolveu um projeto com uma equipe do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que utiliza nanopartículas para transportar medicamentos. A equipe incorporava anticorpos e proteínas à superfície dos materiais para que reconhecessem as células tumorais.
Na França, o alvo das pesquisas do cientista passou a ser as células do sistema imunológico. Esta é a base do seu atual projeto, o Nano-BITE, que acaba de receber financiamento do ERC (Conselho Europeu de Pesquisa), principal agência da União Europeia de fomento à pesquisa científica de excelência. O cientista francês obteve uma bolsa de € 150 mil (cerca de R$ 884 mil) destinada a pesquisadores que buscam aplicações práticas para suas descobertas.
O foco inicial dos estudos é a atividade celular de um subtipo de câncer de mama conhecido como HER-2 positivo. Este tipo de doença é caracterizado por uma quantidade excessiva da proteína HER2 e considerado mais agressivo. "A ideia é ativar o sistema imunológico adicionando certos anticorpos à superfície das nanopartículas. Nesse caso, elas funcionam como um meio de transporte, onde podemos colocar imunoterapias ou moléculas que vão estimular o sistema imunológico", explica.
Imunoterapia ainda é limitada
A eficácia da imunoterapia ainda permanece limitada em muitos tumores sólidos. As duas principais dificuldades são atrair uma quantidade suficiente de células imunitárias para o local do tumor e fazer com que elas permaneçam ativas por longos períodos, o que exige uma carga maior de medicamentos e aumenta o risco de efeitos colaterais. Nesse contexto, as nanopartículas funcionam como uma espécie de cavalo de Troia mais sofisticado, levando as moléculas terapêuticas de forma mais eficaz e estratégica, eliminando esses dois obstáculos.
"Fizemos nossas primeiras provas de conceito e validamos a hipótese de que, dependendo do tipo de nanopartícula utilizado, haverá uma determinada influência na resposta imune. A seleção foi feita após a análise de muitas nanopartículas, entre elas uma à base de PLGA, que é um pequeno polímero. Foi assim que surgiu o projeto Nano-BITE."
As nanopartículas medem entre 60 e 100 nanômetros e são formadas por gordura, colesterol e cadeias de polímeros sintéticos utilizados em diversos produtos, como xampus, por exemplo. Elas são cerca de 10 mil vezes menores que um fio de cabelo.
A título de comparação, os anticorpos incorporados à sua superfície têm cerca de 10 nanômetros. "É como uma emulsão com gotículas finas, estabilizada por um polímero chamado PLGA. A ideia é criar esferas minúsculas, com esses anticorpos na superfície, adicionando o princípio ativo, ou seja, a molécula terapêutica que nos interessa", explica Detappe. O PLGA, sigla para poliácido láctico-co-glicólico, é um polímero biodegradável e biocompatível utilizado em medicina e farmacologia.
'Ponte' entre células
A grande questão agora, diz o cientista francês, é confirmar a possibilidade de inserir essa nanopartícula na interface entre a célula tumoral e a imunológica. Sua função seria criar uma ponte de reconhecimento entre as duas células, ativando ao mesmo tempo a resposta imunitária que combaterá o tumor.
"O interesse deste projeto de prova de conceito no Gustave Roussy é o acesso a amostras de pacientes e a toda a estrutura clínica que o centro oferece para acelerar nossas pesquisas. A ideia é desenvolver nanopartículas de acordo com as necessidades de cada caso, dependendo do tumor ou da célula que será alvo do medicamento."
De acordo com o cientista, é possível fabricar rapidamente uma nanopartícula personalizada na plataforma criada pelo laboratório do instituto francês, tecnologia que poderá futuramente ser aplicada a outros tipos de câncer.
Após a validação da prova de conceito, o objetivo de Alexandre é buscar novos financiamentos europeus para realizar testes clínicos e viabilizar o uso desse meio de transporte biológico inovador como aliada das imunoterapias contra tumores malignos, em um futuro possivelmente próximo,
"A transição do meio acadêmico para o setor produtivo pode ser muito rápida. É apenas uma questão de captação de recursos e financiamento, como quase sempre ocorre. A ideia é que, ao longo dos próximos 18 meses, consigamos validar o máximo possível do ponto de vista acadêmico e pré-clínico", observa.
"O processo já existe. Depois, será necessário captar recursos e convencer um médico pesquisador a levar o projeto para os ensaios clínicos. O tempo dos ensaios clínicos em si não pode ser encurtado, porque envolve o recrutamento de pacientes. A fase 1 pode durar de um a dois anos, seguida pelas fases 2 e 3. Devemos prever entre sete e dez anos até uma eventual aprovação para uso no mercado. No entanto, o acesso ao primeiro paciente, se tudo correr bem, poderá ocorrer dentro de dois a três anos", aposta.
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