O coordenador nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST), Gilberto Portes, afirmou que o movimento está disposto a ceder e aceitar a exigência do governo e retirar os trabalhadores acampados em frente da Fazenda Córrego da Ponte, em Buritis (MG), se for marcada uma reunião e houver disposição para discutir as reivindicações dos sem-terra: “Mas queremos uma reunião de trabalho e não um teatro.”Segundo ele, o MST também poderá orientar seus integrantes a abandonar a vigília em frente às sedes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) nos Estados. “Mas não voltaremos para casa sem nada.” Ele disse que há cerca de mil pessoas fazendo jejum do total de 15 mil sem-terra que estão em vigília.
Portes anunciou que o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Jayme Chemello tentaria falar ainda ontem com o presidente para marcar uma audiência para hoje e discutir a questão. A líder do bloco de oposição, senadora Heloísa Helena (PT-AL), comprometeu-se também a fazer contato com o Ministério do Desenvolvimento Agrário para agendar um encontro para hoje com os sem-terra.
Reuniram-se ontem na CNBB, para debater a crise, o presidente da comissão de Direitos Humanos do Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Paulo Guimarães, o secretário-geral da conferência, d. Raymundo Damasceno, e o secretário do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), Hervínio Schmidt.
Portes discordou da afirmação do presidente Fernando Henrique Cardoso, que, ontem, no Rio, comparou os sem-terra a funcionários públicos pelo fato de pleitearem empréstimo de R$ 2 mil, com juros subsidiados, para custeio da safra agrícola. “Não queremos virar servidor, mas impedir que os sem-terra se transformem em desempregados e disputem comida nas cidades.”
O presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), d. Thomaz Balduíno, que também esteve na CNNB, reagiu igualmente às críticas de Fernando Henrique. “É uma ofensa ao trabalhador e uma tentativa de mostrar que os sem-terra são parasitas.”
O MST marcou para hoje uma caravana até a fazenda dos filhos do presidente, que contará com a presença de políticos e representantes de igrejas. Está previsto um culto ecumênico às 11h.
Os cerca de 500 acampados de Buritis manifestavam ontem disposição de resistir a qualquer tentativa de prisão de líderes do grupo. Porretes de madeira começaram a ser confeccionados no fim da tarde para que cada trabalhador tivesse seu próprio instrumento de defesa, incluindo foices ou facões. “Ninguém vai deixar que alguém seja preso aqui”, disse o coordenador nacional do MST e liderança máxima do acampamento, Lucídio Ravanello.
Ele admitiu ter sido surpreendido pela forma como o governo reagiu à destruição da câmera de vídeo usada segunda-feira por um agente de segurança do Palácio do Planalto na frente da fazenda. A tensão no local cresceu por volta do meio-dia, quando três helicópteros da Polícia Federal, equipados com metralhadoras, fizeram vôos rasantes sobre as barracas dos sem-terra.
Depois de sobrevoarem a área algumas vezes, os helicópteros pousaram na propriedade. “Um pedaço de pau contra fuzis e metralhadoras não surte efeito”, resignou-se o integrante da direção estadual do movimento no Distrito Federal, Augusto Lima.
“Temos o direito constitucional de não sermos filmados e preservar nossa privacidade”, alegou Ravanello. O segurança da Presidência, que foi agredido e teve sua identidade mantida em sigilo, poderá ser arrolado como testemunha no inquérito aberto pela PF para identificar e pedir a prisão dos responsáveis pela quarta ameaça de invasão da Córrego da Ponte.
O Planalto garante que não fugirá à obediência da lei para enquadrar os sem-terra. “As pessoas têm de ser responsabilizadas, não sei se presas”, disse um interlocutor do presidente.
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