O Movimento dos Sem-Terra (MST) está decidido a manter o acampamento nas proximidades da Fazenda Córrego da Ponte, em Buritis (MG), para pressionar o governo a retomar o diálogo em torno da liberação de recursos extras para famílias assentadas. A idéia é dar caráter permanente ao acampamento, instalado a 14 quilômetros da propriedade dos filhos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Líderes do movimento garantem, no entanto, que não haverá tentativa de invasão da área.A permanência em Buritis, já aprovada por lideranças do MST, seria discutida hoje no começo da noite em assembléia dos cerca de 350 acampados no povoado de Serra Bonita. Cerca de cem trabalhadores de Minas vieram substituir colegas que abandonaram o local nos últimos dias, trazendo comida suficiente para a alimentação durante uma semana. O movimento anunciou que deixará até hoje o pátio da escola onde está instalado, para não atrapalhar as aulas. Caberia à assembléia definir o local para onde irão as famílias.
"O presidente Fernando Henrique Cardoso nos provocou", disse o coordenador do MST no noroeste mineiro, Gilmar de Oliveira, criticando a suspensão das negociações mesmo depois de os sem-terra terem saído da frente da fazenda, na semana passada. "Ninguém vai voltar para casa sem medidas concretas", ameaçou ele, que assumiu a liderança provisória do acampamento no fim de semana, depois que o coordenador nacional, Lucídio Ravanello, viajou a Brasília, no sábado.
Segundo Oliveira, os sem-terra poderão ocupar outro terreno em Serra Bonita, seguir para assentamentos na região ou até mesmo retornar à frente da Córrego da Ponte. "Vamos decidir tudo na assembléia", afirmou, informando que lideranças nos Estados também estão sendo consultadas para definir os próximos passos no acampamento de maior visibilidade do MST.
Oliveira criticou o uso de tropas do Exército na fazenda dos filhos de FHC. Para ele, a saída da PM mineira configura "ainda mais o estado de sítio da atual situação". O MST quer a liberação de R$ 2 mil extras por família assentada para garantir o plantio este ano e a retomada dos serviços de assistência técnica, além do assentamento de 60 mil famílias.
No fim de semana, os integrantes do MST promoveram atividades diversas para passar o tempo e entreter quem queria voltar para casa. No sábado à noite, eles dançaram forró, depois de terem coletado lixo das ruas e pintado postes de luz, sempre com a bandeira do movimento em punho. No domingo participaram de um culto ecumênico e, à tarde, de um torneio de futebol. "Ninguém é de ferro", disse um dos coordenadores do grupo, Jacemir Buffon.
Nos últimos dias mais de 250 militantes deixaram o local, a maior parte assentados que queriam cuidar de suas terras. O ânimo no acampamento, montado no pátio de uma escola, melhorou no sábado à noite com a chegada de cerca de 70 trabalhadores vindos de Arinos (MG). Hoje chegaram mais 30, o que permitiu a saída de outros cem integrantes.
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