Sono prolongado em idosos pode estar ligado à piora da mobilidade em homens, aponta estudo

Um estudo aponta que homens idosos que dormem mais de nove horas por noite apresentam maior risco de perda de mobilidade ao longo dos anos. Saiba os detalhes!

23 jun 2026 - 12h32

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da University College London (Reino Unido) trouxe novos dados sobre a relação entre o sono de idosos e a perda de mobilidade ao longo do tempo. A pesquisa, publicada no Journal of the American Medical Directors Association, acompanhou mais de 3 mil pessoas com 60 anos ou mais durante cerca de oito anos, com foco em como a duração do sono se relaciona com a capacidade de caminhar, levantar-se e realizar tarefas básicas do dia a dia.

Os participantes fazem parte do Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento (ELSA, na sigla em inglês), uma ampla pesquisa populacional que monitora a saúde de idosos no Reino Unido. Ao todo, foram analisados dados de 1.582 homens e 1.626 mulheres, todos com 60 anos ou mais, com informações periódicas sobre hábitos de sono, histórico clínico, condição física e desempenho em testes de mobilidade. A partir desses registros, os cientistas buscaram padrões que ligassem a qualidade e o tempo de sono à velocidade de marcha e à execução de movimentos simples.

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A pesquisa, publicada no Journal of the American Medical Directors Association, acompanhou mais de 3 mil pessoas com 60 anos ou mais durante cerca de oito anos, com foco em como a duração do sono se relaciona com a capacidade de caminhar, levantar-se e realizar tarefas básicas do dia a dia – depositphotos.com / Krakenimages.com
A pesquisa, publicada no Journal of the American Medical Directors Association, acompanhou mais de 3 mil pessoas com 60 anos ou mais durante cerca de oito anos, com foco em como a duração do sono se relaciona com a capacidade de caminhar, levantar-se e realizar tarefas básicas do dia a dia – depositphotos.com / Krakenimages.com
Foto: Giro 10

Qual é a relação entre sono de idosos e perda de mobilidade?

O principal resultado do trabalho aponta que homens idosos que dormem mais de nove horas por noite apresentam maior risco de perda de mobilidade ao longo dos anos. Nesse grupo, foi observada redução importante na velocidade de caminhada, chegando em alguns casos a até um quarto da velocidade inicial registrada no início do acompanhamento. A perda de agilidade também apareceu em tarefas como levantar-se de uma cadeira e iniciar a marcha, indicando piora funcional progressiva.

No estudo, a expressão "perda de mobilidade" foi usada para descrever dificuldades em atividades físicas básicas, como caminhar em ritmo habitual, subir pequenos desníveis, ficar em pé a partir da posição sentada e manter o equilíbrio durante deslocamentos curtos. Esse tipo de lentidão motora está associado a maior risco de quedas, dependência para tarefas diárias e necessidade de apoio de cuidadores ou serviços de saúde. Por isso, o tempo de sono em idosos passou a ser observado como um possível marcador de risco para esse processo.

Por que homens que dormem mais de nove horas preocupam os pesquisadores?

De acordo com os autores, dormir mais de nove horas por noite, entre homens com 60 anos ou mais, pode funcionar como um sinal de alerta para problemas de saúde que ainda não se manifestaram de forma evidente. O padrão de sono prolongado foi associado a maior probabilidade de lentidão motora, mas os cientistas destacam que o estudo não demonstra que o sono excessivo seja a causa direta da perda de mobilidade. Em vez disso, o sono prolongado pode refletir condições subjacentes, como inflamações persistentes, doenças crônicas, fadiga intensa ou sedentarismo ao longo do dia.

Os pesquisadores lembram que o organismo nessa faixa etária costuma lidar com múltiplos fatores ao mesmo tempo, como alterações metabólicas, uso de medicamentos e mudanças na massa muscular. Assim, o aumento no tempo de sono pode indicar que o corpo está respondendo a algum desgaste interno. O acompanhamento de longo prazo, com cerca de oito anos de observação, permitiu relacionar esse padrão de sono prolongado com a piora gradativa da capacidade de locomoção, especialmente entre os homens.

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Por que o padrão não se repetiu de forma significativa entre as mulheres?

Um dos pontos destacados no estudo é que esse mesmo padrão de associação entre sono prolongado e perda de mobilidade não foi observado de forma significativa entre as mulheres idosas. Embora também houvesse mulheres que relatavam dormir mais de nove horas, a relação estatística com a lentidão motora foi menos consistente. Os pesquisadores sugerem que diferenças hormonais ao longo da vida podem explicar essa disparidade entre os sexos.

O perfil hormonal feminino, com variações ao longo do ciclo reprodutivo e mudanças importantes após a menopausa, influencia tanto o sono quanto a saúde óssea e muscular. Esse histórico pode atuar de maneira distinta na forma como o corpo reage ao envelhecimento e à duração do sono. Há também a hipótese de que diferenças comportamentais, como padrões de atividade física, divisão de tarefas domésticas e busca por atendimento médico, contribuam para resultados distintos entre homens e mulheres, embora o estudo não tenha sido desenhado para esgotar essas explicações.

Um dos pontos destacados no estudo é que esse mesmo padrão de associação entre sono prolongado e perda de mobilidade não foi observado de forma significativa entre as mulheres idosas – depositphotos.com / serezniy
Foto: Giro 10

O que o estudo indica para o acompanhamento da saúde de idosos?

Os autores ressaltam que dormir muito não deve ser interpretado isoladamente como um problema, mas como um elemento que merece atenção quando associado a outros sinais, como cansaço constante, dificuldade para caminhar ou diminuição da participação em atividades rotineiras. A pesquisa, realizada com apoio da FAPESP, sugere que profissionais de saúde considerem o tempo de sono como um possível indicador de risco para lentidão motora em homens acima dos 60 anos, principalmente quando há relato de sono acima de nove horas por noite.

Entre as recomendações práticas, o monitoramento regular da mobilidade, por meio de testes simples de caminhada e de levantar-se de uma cadeira, pode ajudar a identificar cedo a perda de velocidade. Além disso, a investigação de condições como inflamações crônicas, doenças cardiovasculares, distúrbios do sono, fadiga persistente e baixos níveis de atividade física pode esclarecer se o sono prolongado está associado a algum desses fatores. Para os pesquisadores, esse tipo de evidência reforça a importância de olhar para o sono de idosos não apenas como descanso, mas como um indicador clínico relevante na avaliação do envelhecimento funcional.

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