Alienação parental: entenda quando o conceito exige cautela

Especialista alerta para o que nem sempre aparece nos processos judiciais

21 abr 2026 - 08h03

Especialista aponta que nem todos os casos refletem a realidade e destaca a importância de análise psicológica nos processos judiciais

Nos conflitos familiares que chegam ao Judiciário, especialmente em disputas de guarda, uma expressão tem se tornado cada vez mais recorrente: alienação parental. Embora frequentemente apresentada como uma acusação objetiva nos autos, o conceito nem sempre traduz a complexidade das dinâmicas psicológicas envolvidas nas relações familiares.

Foto: Revista Malu

De acordo com a psicóloga jurídica Bárbara Caroline Macedo, especialista em psicologia forense, os processos judiciais são, por natureza, recortes limitados da realidade. "Eles organizam versões, provas e narrativas dentro de parâmetros formais. O que muitas vezes fica de fora são elementos fundamentais, como o histórico relacional da família, os padrões de vínculo e as dinâmicas conflitivas. Além das experiências emocionais acumuladas ao longo do tempo", explica.

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A profissional destaca que aspectos importantes tendem a ser invisibilizados, como a existência de histórico de violência, a forma de comunicação entre os genitores, a exposição da criança a conflitos e até mesmo as competências parentais no cotidiano. "Sem uma análise psicológica cuidadosa, corre-se o risco de reduzir situações complexas a interpretações simplificadas, o que pode impactar diretamente a tomada de decisões judiciais", afirma.

Crescimento das acusações de alienação parental exige cautela

Nos últimos anos, houve um aumento significativo de disputas judiciais envolvendo alegações de alienação parental. No entanto, segundo Bárbara, esse crescimento não necessariamente reflete uma maior incidência real do fenômeno. "Também pode estar relacionado à popularização do conceito no meio jurídico, que passou a ser utilizado, em alguns casos, como estratégia em contextos de alta conflituosidade e, até mesmo, de violência contra mulheres", pontua.

Essa realidade, segundo ela, exige um olhar técnico ainda mais rigoroso. "É fundamental diferenciar situações em que há, de fato, interferência indevida na relação da criança com um dos genitores, daquelas em que o termo é utilizado de forma estratégica, sem respaldo nas dinâmicas reais da família", diz.

Os riscos do uso indiscriminado

A especialista alerta que o uso indiscriminado do conceito pode trazer consequências importantes. "Quando aplicado de forma acrítica, há o risco de simplificar conflitos complexos e até de invisibilizar outras formas de violência", ressalta.

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Ela reforça que a manipulação nem sempre causa a recusa da criança em relação a um dos genitores. "Em alguns casos, essa recusa pode estar relacionada a experiências reais vividas pela criança. Uma criança pode recusar o convívio com um dos genitores por não se sentir segura e atendida em suas necessidades quando está com esse cuidador ou, até mesmo, apresenta medo e indícios de um trauma psicológico por ter vivenciado ou sido exposta a violência perpetrada pelo genitor com o qual recusa conviver. Por isso, é essencial uma análise contextualizada e uma escuta qualificada", afirma.

Dinâmicas emocionais e disputas familiares

Do ponto de vista psicológico, as alegações de alienação parental costumam surgir em cenários marcados por rupturas difíceis, alta beligerância entre o ex-casal e sofrimento intenso das pessoas envolvidas. "Os adultos frequentemente deslocam seus conflitos para a relação com a criança, que passa a ocupar um lugar central nessa disputa", explica Bárbara.

Segundo ela, também é importante considerar que percepções e relatos não são neutros. "Emoções, expectativas e, muitas vezes, estratégias de defesa (conscientes ou não) influenciam esses relatos", acrescenta.

Para além da busca por culpados

Um dos diferenciais da atuação da psicologia jurídica é justamente ampliar o foco da análise. "Mais do que identificar quem está certo ou errado, buscamos compreender os fatores de risco e de proteção presentes em cada contexto familiar", destaca.

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Essa abordagem, segundo a especialista, contribui para decisões mais cuidadosas e alinhadas à realidade. "A psicologia jurídica busca produzir uma leitura qualificada das dinâmicas em jogo, evitar polarizações e priorizar, de forma concreta, os melhores interesses da criança", conclui.

Revista Malu
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