Telecirurgia no SUS avança e expõe escassez de técnicos

Com R$ 50 milhões investidos em telecirurgia robótica no SUS e o Brasil como primeiro país a realizar o procedimento com internet de baixo custo, o setor enfrenta um gargalo concreto: 59% dos hospitais globais relatam atrasos na implantação de robôs cirúrgicos por falta de profissionais técnicos capacitados. Matheus Moreira Soares, especialista em suporte técnico intraoperatório, analisa os riscos operacionais e clínicos dessa lacuna.

23 jun 2026 - 14h44

O governo federal anunciou investimento de R$ 50 milhões para estruturar uma rede de telecirurgia robótica no Sistema Único de Saúde (SUS), conectando o Hospital de Amor em Barretos (SP) a Porto Velho (RO), com início das operações previsto para julho de 2026. O anúncio ocorre em um contexto em que o Brasil já acumula marcos concretos nessa área: em outubro de 2025, o país realizou a primeira telecirurgia robótica do mundo com internet de baixo custo, conectando João Pessoa (PB) a Curitiba (PR) em um procedimento que mobilizou 42 profissionais e 17 empresas. Em fevereiro de 2026, a FMUSP realizou as primeiras telecirurgias robóticas do SUS, com equipe presencial de ao menos 15 profissionais na sala cirúrgica para acompanhamento técnico contínuo dos braços robóticos.

Foto: Canva/Livre / DINO

A expansão ocorre em um mercado global em aceleração. O mercado de robótica cirúrgica atingiu US$ 12,49 bilhões em 2025 e projeta crescimento de 14,95% ao ano até 2035, quando deve alcançar US$ 50,29 bilhões, segundo a Precedence Research. O mesmo levantamento aponta que cerca de 59% dos hospitais relatam atrasos na implantação de robôs cirúrgicos por escassez de profissionais técnicos capacitados, dado que posiciona a lacuna de suporte especializado como barreira operacional, não apenas de custo ou infraestrutura.

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Para Matheus Moreira Soares, especialista em suporte técnico intraoperatório e manutenção de equipamentos médico-cirúrgicos com atuação em hospitais públicos e privados, os requisitos técnicos da telecirurgia tornam o suporte intraoperatório especializado uma condição operacional insubstituível. O Hospital de Amor, referência do programa no SUS, já realizou quase 4 mil procedimentos robóticos e opera com exigências de rede de alta performance, estabilidade de conexão e segurança cibernética que ampliam a complexidade do ambiente técnico-cirúrgico. "Quando um sistema de videocirurgia falha no meio de um procedimento laparoscópico, o tempo de resposta técnica não é uma questão logística, é uma questão clínica. A diferença entre uma intervenção de dois minutos e uma de vinte pode determinar o desfecho da cirurgia", afirma.

O gargalo de profissionais técnicos especializados não se restringe ao Brasil. O mercado americano de telecirurgia deve crescer de US$ 1,2 bilhão em 2025 para US$ 3,6 bilhões em 2031, e relatório da Mobility Foresights aponta a escassez de treinamento especializado e a curva de aprendizado técnico como os principais fatores que travam a adoção da telecirurgia nos Estados Unidos. Moreira Soares avalia que o problema é estrutural. "O investimento em robótica e videocirurgia não vem acompanhado automaticamente de estrutura técnica para sustentá-lo. Hospitais que adquirem sistemas de alta complexidade frequentemente subestimam o custo operacional de mantê-los disponíveis e seguros durante os procedimentos", observa.

A escassez global de especialistas técnicos em robótica cirúrgica é identificada como principal barreira de expansão do setor por análise da Global Growth Insights publicada em junho de 2025, com o dado de 59% de hospitais com atrasos de implantação reforçando a dimensão do problema. Moreira Soares aponta que, em um volume de 192 mil videolaparoscopias anuais pelo SUS, falhas que afetem 1% dos procedimentos representam quase dois mil casos comprometidos. "Em um traçado de 192 mil videolaparoscopias por ano só pelo SUS, qualquer falha sistêmica de equipamento que afete 1% dos procedimentos representa quase duas mil intervenções comprometidas. O impacto não é estatístico, é clínico e financeiro", descreve.

Em resposta a esse cenário, o especialista desenvolveu o Protocolo SCIDP, Standardized Capture and Image Documentation Protocol, voltado à padronização operacional de sistemas de videocirurgia. O momento de mercado reforça a relevância da abordagem: a cirurgia robótica movimentou US$ 8,89 bilhões globalmente em 2025, crescimento de 13,4% sobre o ano anterior, com a telecirurgia projetada como próxima fronteira de expansão, segundo a plataforma médica Sermo. A aplicação do SCIDP resultou em redução estimada entre 30% e 45% nas falhas técnicas intraoperatórias e disponibilidade operacional acima de 95%. "O protocolo foi construído a partir da observação direta de falhas recorrentes em campo, não de manuais de fabricante. Parâmetros operacionais genéricos não respondem às variações de uso clínico real entre especialidades", detalha.

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Moreira Soares também estruturou a Intraoperative Clinical Support and Integrated Prevention Methodology (ICSIP). O valor financeiro do suporte técnico especializado é concreto: com aproximadamente 200 plataformas robóticas instaladas no Brasil e custo de R$ 7,5 a R$ 16 milhões por equipamento, além de R$ 10 a R$ 15 mil por procedimento em materiais e manutenção, qualquer falha técnica durante o uso representa passivo operacional e clínico direto, segundo o Saúde Business. "A manutenção corretiva resolve a falha depois que ela ocorre. O modelo ICSIP funciona antes: monitora continuamente, reconfigura em tempo real e elimina a necessidade de parar o procedimento para intervir no equipamento", explica.

Com sete anos de atuação em suporte intraoperatório, com participação em 150 a 250 cirurgias por ano em ambientes de média e alta complexidade, o especialista desenhou o Manual Técnico de Boas Práticas e Operação Segura de Equipamentos Médico-Cirúrgicos, adotado em hospitais e clínicas para treinamento de equipes médicas, de enfermagem e de engenharia clínica. O material sistematiza protocolos de operação para diferentes marcas e configurações de equipamentos cirúrgicos, com foco em redução de erros e padronização de condutas em ambientes com alta rotatividade de equipe.

Para Moreira Soares, a combinação entre expansão tecnológica acelerada e déficit de profissionais com formação técnica especializada em suporte intraoperatório tende a pressionar os indicadores de segurança e custo operacional das instituições hospitalares. "Expansão de cirurgia robótica sem formação técnica especializada em suporte intraoperatório é uma equação incompleta. O equipamento chega, mas o profissional que garante que ele funciona durante a cirurgia ainda é escasso, e esse gargalo tem custo direto em cancelamentos, riscos clínicos e retrabalho de manutenção", conclui.

Este é um conteúdo comercial divulgado pela empresa Dino e não é de responsabilidade do Terra
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