Regime fundamentalista, que assumiu o poder no Afeganistão em 2021 e é notório por oprimir mulheres, não é reconhecido pelos europeus. Bloco diz que conversas são necessárias para deportar indivíduos perigosos.Eurodeputados e ativistas pró-imigrantes criticaram as lideranças da União Europeia por receberem nesta terça-feira (23/06) uma delegação do Talibã em Bruxelas - pela primeira vez desde que o grupo fundamentalista retomou o poder no Afeganistão, em 2021, apesar de os próprios europeus até hoje não reconhecerem seu governo e terem sancionado diversos indivíduos ligados ao regime.
A reunião, denunciada por críticos como um gesto de legitimação dos islamistas, foi defendida pela UE como um passo para facilitar a deportação de imigrantes afegãos cujos pedidos de asilo no bloco tenham sido rejeitados e que tenham cometido crimes ou sejam considerados perigosos. O bloco argumenta que, para isso, é preciso manter diálogos limitados com as "autoridades de fato" do país.
De olho no eleitorado e na guinada de alguns países à direita, governos da UE têm aumentado seus esforços para controlar a imigração e deportar cidadãos indesejados.
"A capacidade de retornar indivíduos que não têm um direito legal de permanecer no país é um pilar central de um sistema credível e funcional de migração e asilo", disse após o encontro o ministro sueco de Migração, Johan Forssell.
Participaram da reunião autoridades da Comissão Europeia, braço executivo da UE, e representantes de 15 Estados-membros.
À agência de notícias Reuters, um porta-voz da diplomacia afegã disse que foram discutidos uma possível presença consular do Talibã na UE, a retomada de serviços consulares para afegãos no bloco e "a necessidade de medidas de construção de confiança".
Quantos afegãos buscaram refúgio na UE?
O Afeganistão, que esteve em guerra de 2001 a 2021, foi tomado pelo Talibã após a saída das tropas dos Estados Unidos do país. Desde então, os islamistas têm restringido progressivamente os direitos da população, limitando a liberdade de movimento das mulheres, proibindo meninas de estudar além do ensino primário e impondo leis de moralidade que restringem a liberdade de expressão e o acesso ao emprego.
A ONG International Rescue Committee estima que cerca de 40% da população do país passe fome.
Os países da UE receberam cerca de 1 milhão de pedidos de asilo apresentados por afegãos entre 2013 e 2024, segundo dados oficiais do bloco. Cerca de metade desse total foi aprovada no período.
É um número menor do que os cerca de 1,5 milhões de refugiados afegãos que a ACNUR, agência de refugiados da ONU, estima que vivam hoje no vizinho Paquistão.
"Somos 450 milhões de pessoas ao todo [na UE]. Não há motivo para pânico quando se fala de um certo número de migrantes fugindo do desespero ou da falta de oportunidades. Quanto mais da perseguição, que é motivo para buscarem proteção internacional", disse o eurodeputado espanhol Juan Fernando López Aguilar, da aliança social-democrata, ao jornal britânico The Guardian. "A migração não é uma ameaça, nem mesmo uma crise. É um fato constante da história da humanidade."
Dos 27 Estados-membros da UE, 20 manifestaram em outubro do ano passado interesse em deportar alguns migrantes afegãos sem direito de permanência.
Alguns países já avançaram, com a Alemanha deportando mais de 100 afegãos com condenações criminais desde 2024, por meio de voos fretados facilitados pelo Catar, e a Áustria seguindo o exemplo.
Visto de apenas um dia para o Talibã
A visita do Talibã foi duramente criticada por grupos de direitos humanos e alguns políticos europeus, que disseram que esse tipo de engajamento poderia colocar afegãos em risco e minar valores fundamentais da UE.
"A Comissão Europeia está convidando opressores de milhões de mulheres afegãs. Elas não podem se fazer ouvir. Nem ir a um parque. Nem trabalhar ou estudar. Convidar este regime cruel é uma bofetada para elas - e uma derrota para nossos valores", declarou a presidenta da delegação do Parlamento Europeu no Afeganistão, Raquel García Hermida van der Walle, à agência de notícias EFE.
Um grupo de 37 eurodeputados oriundos das bancadas verde, de esquerda, social-democrata e liberal chegou a enviar uma carta ao ministro belga do Exterior, Maxime Prévot, pedindo que barrasse a entrada dos representantes do Talibã.
O Ministério das Relações Exteriores da Bélgica havia emitido um visto que permitiu aos representantes afegãos entrar no país por apenas um dia e restringiu sua presença ao território belga, em vez de permitir a livre circulação normal na zona Schengen da UE.
Afegãos em risco?
Países da UE e a Comissão negam que acolher autoridades do Talibã equivalha a reconhecer o governo em Cabul.
Para ativistas, porém, a abertura de diálogo prejudica a posição internacional do bloco em direitos humanos e suscita questionamentos sobre o que Bruxelas estaria disposta a oferecer a Cabul em troca de cooperação em migração.
"A Europa não deve legitimar um regime responsável por uma das piores crises de direitos humanos do mundo", disse no X a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai, ativista paquistanesa pelo direito das meninas à educação. Malala foi ela mesma vítima do Talibã, baleada por membros do grupo em 2012 a caminho da escola. "O Talibã apagou mulheres e meninas da vida pública."
Há também quem tema pela segurança de afegãos deportados, ou que as deportações acabem atingindo também aqueles sem condenações criminais.
"A consequência mais óbvia e perigosa é que afegãos serão enviados de volta pela UE e enfrentarão perseguição do Talibã após sua chegada", disse Jeff Crisp, ex-chefe de Desenvolvimento de Políticas e Avaliação da ACNUR e pesquisador visitante na Universidade de Oxford.
"Em um momento em que os afegãos seguem sofrendo perseguição, repressão e graves penúrias humanitárias, a UE deveria protegê-los, e não buscar novas formas de deportá-los para o perigo", afirmou Chiara Catelli, da ONG de defesa de migrantes Picum.
Um relatório publicado em 2025 pela ONU e citado pelo Guardian coletou relatos de afegãos que foram forçados a voltar para o seu país, a maioria vindos do Paquistão e Irã, sofreram prisão arbitrária, tortura e maus tratos nas mãos das autoridades. O direito internacional, porém, veta a deportação de pessoas que corram o risco de sofrer perseguição ou tortura.
ra (Reuters, EFE, AFP, ots)
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