Gerhard Schröder é amigo de longa data de Vladimir Putin e muito criticado na Alemanha por sua proximidade com o Kremlin, o que lhe rendeu vários cargos em empresas russas.O presidente da Rússia, Vladimir Putin, sugeriu neste sábado (09/05) o ex-chanceler federal alemão Gerhard Schröder como um possível mediador em negociações de paz para encerrar a guerra na Ucrânia.
Após o desfile militar comemorativo ao fim da Segunda Guerra Mundial em Moscou, Putin declarou que não consegue imaginar um interlocutor mais adequado do lado europeu do que o veterano do Partido Social-Democrata (SPD). "De todos os políticos europeus, eu preferiria conversar com Schröder", afirmou.
Schröder foi chanceler federal da Alemanha por dois mandatos, entre 1998 e 2005. Em 2003, ele ficou conhecido internacionalmente por se opor à participação alemã na invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Na época, os americanos formaram a chamada "coalizão dos dispostos" (coalition of the willing), à qual se uniram diversos aliados europeus, incluindo o Reino Unido e a Espanha, mas não a Alemanha.
Durante seu mandato como chanceler, Schröder não diferia muito de políticos alemães na sua postura de uma política externa pró-Rússia. Outros líderes alemães, incluindo os futuros chanceleres federais Angela Merkel e Olaf Scholz, bem como o atual presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, também desempenharam um papel no fortalecimento dos laços entre Berlim e Moscou por meio de projetos como os gasodutos Nord Stream.
Mas o que diferenciou a posição de Schröder da dos demais foi seu apoio à Rússia mesmo com a invasão da Ucrânia e a crescente indignação pública na Alemanha com a guerra iniciada por Putin. Isso afastou o ex-chanceler federal da elite política alemã, e o seu próprio partido, que ele liderou e pelo qual foi eleito chanceler, tentou expulsá-lo.
Uma longa amizade
Schröder é amigo de Putin desde que se tornou chanceler federal da Alemanha, em 1998. Ele chegou a participar do aniversário do presidente russo em Moscou, em 2014. Em 2004, afirmou, numa declaração que se tornaria famosa, que Putin era um "democrata impecável" (em alemão lupenreiner Demokrat).
Após deixar o cargo, Schröder passou a ser criticado por seu profundo envolvimento com empresas de energia estatais russas, como a Rosneft, Nord Stream e Gazprom. Em 2006 ele foi um dos principais intermediários na negociação que tornou a Gazprom patrocinadora master do time alemão Schalke 04. O patrocínio só acabou em 2022, justamente por causa da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Schröder também aprovou o primeiro gasoduto Nord Stream pouco antes de deixar o cargo, em 2005, e, em 2016, entrou para o conselho da empresa responsável pelo segundo gasoduto, o Nord Stream 2 - que acabou nunca indo adiante por causa da guerra na Ucrânia.
O social-democrata também deveria integrar o conselho de supervisão da Gazprom em 2022, mas acabou desistindo diante da crescente pressão após a invasão da Ucrânia. Pelo mesmo motivo ele também deixou a presidência do conselho de administração da petrolífera russa Rosneft, cargo que ocupava desde 2017.
Fortemente criticado
Numa entrevista em 2020 ao tabloide alemão Bild, o líder oposicionista russo Alexei Navalny (que morreria numa prisão na Sibéria no início de 2024) criticou Schröder por sua estreita relação com Putin. "Gerhard Schröder é pago por Putin", disse Navalny.
"Ele ainda é ex-chanceler do país mais poderoso da Europa", afirmou Navalny. "Agora ele é um garoto de recados do Putin e protege assassinos."
Na época, o especialista em política externa da conservadora União Democrata Cristã (CDU) Norbert Röttgen disse que a posição de Schröder no caso Navalny (o ex-chanceler afirmara não haver provas concretas de que Navalny havia sido envenenado) "enche muitos na Alemanha de vergonha".
Logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia, políticos da CDU e do Partido Verde exigiram que Schröder deixasse o cargo de presidente do conselho de diretores do projeto Nord Stream 2, bem como todos os seus outros cargos na Rússia. Schröder foi acusado de fazer lobby para o Kremlin.
A sucessora dele, Angela Merkel, da CDU, havia aprovado o segundo projeto de gasoduto em 2018.
Diante da recusa de Schröder de se afastar de Putin e de abandonar seus cargos em empresas russas, o Bundestag (Parlamento alemão) retirou dele, em maio de 2022, o privilégio concedido a ex-chanceleres federais de manterem um escritório e equipe financiados pelo Estado.
Semanas depois, Schröder viajou a Moscou para se encontrar com Putin e discutir uma "solução negociada" para a Ucrânia - um movimento que o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, chamou de "repugnante".
Numa entrevista de 2024, Schröder disse que negociações com Putin podem ser a única forma de encerrar a guerra na Ucrânia. "Trabalhamos juntos de forma sensata por muitos anos. Talvez isso ainda possa ajudar a encontrar uma solução negociada; não vejo outra solução", afirmou à agência de notícias alemã DPA.
Uma relação pessoal pela paz?
Nessa entrevista, Schröder foi questionado sobre o motivo de manter sua amizade com Putin apesar dos crimes de guerra atribuídos à Rússia. Ele respondeu dizendo que se tratava de duas coisas distintas.
Schröder disse não querer esquecer os "eventos positivos" com Putin e considerou que sua relação pessoal poderia ser útil para lidar com um problema político complexo. "É evidente que a guerra não pode terminar com a derrota total de um lado ou do outro", argumentou.
Num artigo publicado no jornal Berliner Zeitung em janeiro deste ano, Schröder reconheceu que a invasão russa contrariava o direito internacional. "Mas também sou contra demonizar a Rússia como um inimigo eterno", acrescentou, para então defender que a Alemanha retome as importações de energia russa, que foram interrompidas por causa do conflito.
De líder da ala jovem a chanceler federal
Nascido em 7 de abril de 1944 em Blomberg, no centro-oeste alemão, Schröder entrou pela o SPD em 1963. De início bastante esquerdista, tornou-se presidente do Grupo de Trabalho dos Jovens Socialistas (Jusos) da legenda. Porém logo adotaria uma postura mais realpolitik, tornando-se homem de poder e bon vivant.
Formado em direito, ele atuava como advogado em Hannover. Em 1980, foi eleito deputado para o Bundestag. Em 1990, elegeu-se governador da Baixa Saxônia, e oito anos mais tarde consagrava-se chanceler federal, o terceiro social-democrata da República Federal da Alemanha, mas o primeiro à frente de uma coalizão com o Partido Verde. Um ano mais tarde, assumia também a liderança do SPD.
Schröder sempre gostou de se autoencenar, além de ser anticonvencional: comia salsichas currywurst de pé e bebia cerveja no gargalo, mesmo se de terno fino, sapatos feitos sob medida, fumando charutos caros.
as/cn (DW, DPA)