Com informações do enviado especial da RFI ao Golfo, Léo Pelon
Nesse oitavo dia da guerra no Oriente Médio, vários países do Golfo foram alvo de mísseis e drones, apesar das desculpas do presidente iraniano aos seus vizinhos pelos ataques que os atingiram. Os Emirados Árabes Unidos foram visados nesta manhã por 16 mísseis balísticos e 121 drones. No início da tarde, as autoridades relataram uma nova salva de tiros proveniente do Irã.
O aeroporto de Dubai chegou a ser fechado brevemente esta manhã. O aeroporto mais frequentado do mundo para o tráfego aéreo internacional voltou a funcionar parcialmente, com alguns voos sendo operados em outro terminal da cidade.
No Kuwait, um drone foi abatido. Ataques também ocorreram na Arábia Saudita, além de outras explosões em Doha, no Catar. Fortes explosões foram ouvidas em Manama, capital de Bahrein, nas primeiras horas da manhã.
Cotidiano de alertas
Há oito dias, o cotidiano dos moradores da cidade é marcado pelas sirenes dos alertas de ataques. Só na quinta-feira (5), o Ministério da Defesa anunciou ter destruído 75 mísseis e 123 drones provenientes do Irã.
O país já foi alvo de quase 200 disparos. Bahrein, localizado em um arquipélago, é a menor monarquia da região, mas abriga o quartel-general da Quinta Frota dos Estados Unidos. A base foi visada por tiros iranianos, mas o local não é o único visado.
Na noite de quinta-feira, um míssil iraniano provocou um incêndio na principal refinaria da companhia petrolífera nacional, a Bapco. Teerã também conduziu ataques contra hotéis e prédios residenciais. O regime iraniano afirmou que visava militares norte-americanos.
Maioria xiita
A rotina de ataques no Bahrein é compartilhada com as demais monarquias do Golfo. Mas, em comparação com seus vizinhos, é mais vulnerável. Entre os países da margem sul do Golfo Pérsico, é o único com uma população majoritariamente xiita.
Essa comunidade frequentemente considera que é mal representada nas instituições nacionais, controladas por uma monarquia sunita. No Bahrein, os protestos são mais frequentes do que nos demais países da região. O arquipélago viveu uma onda significativa de manifestações durante a Primavera Árabe, em 2011. À época, as autoridades acusavam o Irã de tentar desestabilizar o país.
Os vínculos entre o Irã e a comunidade xiita são reais. O aiatolá Issa Qassem, líder espiritual do principal partido de oposição, o Al-Wefaq, encontrou refúgio no Irã após as manifestações de 2011. Em 2016, seu partido foi dissolvido pelas autoridades, e ele perdeu a nacionalidade bareinita.
Desde o início dessa guerra na região, a maior parte da população se mantém unida, apoiando os esforços de defesa do governo. Mas alguns bareinitas lamentaram a morte do guia supremo iraniano nos ataques israelenses e norte-americanos. Durante dois dias seguidos, pequenas manifestações tentaram se dirigir à embaixada dos Estados Unidos em Manama.
O movimento é limitado. Mas a oposição no exílio tenta alimentá-lo, preocupando todas as monarquias da região. Por isso, o comando unificado das forças do Golfo enviou reforços ao local nesta semana, em uma decisão inédita desde 2011.
Fragilidade econômica
No plano econômico, Bahrein também não tem a solidez de seus vizinhos. Seu fundo soberano é menos robusto. Ele administra US$ 18 bilhões em ativos, contra US$ 450 bilhões do Catar.
A dívida pública se aproxima de 150% do PIB. A agência Fitch rebaixou a nota do país na semana passada, de B+ para B. A dívida bareinita está agora classificada na categoria especulativa.
A guerra em curso mergulhou toda a região em incerteza econômica. Ela pode afastar investidores estrangeiros. Também faz pairar um risco sobre as capacidades industriais dos países do Golfo.
Além do petróleo, Bahrein é um grande produtor de alumínio, mas teve de suspender suas exportações neste setor. Já enfrentando uma dívida pública elevada, o país precisa tentar manter suas finanças sob controle para evitar a falência.