Quanto os EUA está gastando com a ofensiva contra o Irã? Entenda

Centro de Estudos Estratégicos Internacionais aponta que apenas nas primeiras 100 horas de operação os custos foram de R$ 19,4 bi

9 mar 2026 - 04h57
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Foto: ANSA / Ansa - Brasil

Há uma semana, no último dia 28, os Estados Unidos bombardearam o Irã em ataque coordenado com Israel -- tendo como motivo as “ameaças aos interesses nacionais” por conta do programa nuclear iraniano. Desde então, após contra-ataque iraniano, a tensão segue escalonado no Oriente Médio. E tudo isso custa caro. O Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS) estima que apenas nas primeiras 100 horas de operação (pouco mais de 4 dias), os custos norte-americanos com a ofensiva foram de US$ 3,7 bilhões, o equivalente a R$ 19,4 bi, na conversão atual. 

O que o estudo aponta é que, por dia, a Operação Fúria Época – como foi batizada a campanha militar dos EUA contra o Irã -- custa US$ 891,4 milhões (R$ 4,6 bi).

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Os custos são resumidos em três categorias: munições (aproximadamente US$ 3,1 bilhões - R$ 16,2 bi), perdas de combate e reparação de danos à infraestrutura (aproximadamente US$ 350 milhões - R$ 1,8 bi) e custos operacionais (aproximadamente US$ 196 milhões - R$ 1 bi).

Para entender melhor a questão, ao Terra, Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), explica que operações do tipo são desagregadas em várias rúbricas. Como operação e manutenção de meios aéreos e navais, combustível, horas de voo, reposição de munições, logística, manutenção acelerada, pagamentos de pessoal mobilizado, transporte estratégico, defesa antimíssil, inteligência, comunicações e, depois, recomposição de estoques.

“O valor fica tão alto, neste caso, porque a fase inicial da operação teve características de campanha intensiva, e não de ataque pontual. O CSIS estima que, só nas primeiras 100 horas, a reposição ‘like for like’ das munições gastas chegaria a cerca de US$ 3,1 bilhões, e que aproximadamente US$ 3,5 bilhões do total inicial não estavam previamente orçados. Isso indica que o grosso do custo está menos no ‘ato de apertar o botão’ e mais na combinação entre munição de alto valor, ritmo operacional muito elevado e necessidade de recompor inventário rapidamente”, explica. 

O grande diferencial, como aponta, é a tecnologia. O custo sobe quando são usadas munições guiadas de precisão em larga escala, plataformas furtivas, defesa antimíssil e integração ar-mar-terra em tempo real. Além disso, ele cita o fato de que a operação também combina sistemas muito caros com sistemas mais baratos e novos. “O Comando Central dos EUA (CENTCOM) afirmou que a operação incluiu munições lançadas do ar, terra e mar, e que uma força-tarefa empregou drones de ataque de baixo custo pela primeira vez em combate; além disso, houve o primeiro uso em combate do Precision Strike Missile (PrSM)”. Sendo assim, não é só a questão de usarem “armas caras”, mas sim de toda uma arquitetura da campanha.

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Tudo isso tornou a operação contra o Irã fora da curva. “Isso é diferente do padrão de ataques mais limitados já feitos pelos EUA. Como comparação, o ataque americano à base de Shayrat, na Síria, em abril de 2017, envolveu 59 Tomahawks e foi descrito pela Reuters como um lançamento de 59 mísseis contra um alvo específico; estimativas na época colocaram a reposição desses mísseis em algo perto de US$ 89 milhões. A diferença de escala para uma campanha que, agora, fala em mais de 2.000 munições em 100 horas é brutal. Em linguagem simples: uma coisa é um golpe cirúrgico, outra é abrir uma campanha de supressão, penetração, interdição e defesa simultânea”, afirmou o professor.

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De onde sai o dinheiro?

No curto prazo, como aponta, o dinheiro costuma vir de contas já existentes do Departamento de Defesa dos Estados Unidos até que o governo peça reforço orçamentário. “Historicamente, os EUA recorreram muito a créditos suplementares e verbas de contingência para guerras. A GAO [o Escritório de Prestação de Contas do Governo dos EUA, em tradução livre] observa que, antes do ano fiscal de 2010, pedidos para esse tipo de operação eram apresentados ao Congresso como ‘supplemental appropriations’, isto é, dotações adicionais quando a necessidade era urgente demais para esperar o ciclo normal do orçamento”, explica.

O que acontece é: primeiro o Pentágono executa dentro das margens possíveis, remaneja, consome estoque e pressiona contas correntes. Depois vem a disputa política por recomposição e suplementação.

“Na economia interna dos EUA, os canais principais são três. O primeiro é fiscal: mais gasto de guerra tende a significar mais déficit ou mais deslocamento de recursos públicos. O segundo é inflacionário indireto, sobretudo via energia e logística. O terceiro é industrial: uma guerra prolongada exige recompor estoques de mísseis e interceptores num momento em que a base industrial já está pressionada”, explica.

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A questão se torna cada vez mais complexa, visto que o conflito elevou a incerteza econômica, pressionando o petróleo e tornando mais incerto o cenário para juros. E isso reverbera no mundo, sendo o choque mais óbvio no setor energético.

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‘Guerra de desgaste’

Donald Trump, o presidente norte-americano, tem deixado claro em suas declarações que esse foi apenas o início de “grandes operações de combate” e ainda há uma “grande onda” por vir. A leitura de Khatib sobre a questão é que o conflito pode até ter uma fase inicial de altíssima intensidade seguida de redução do ritmo, mas o risco maior é ele migrar para uma guerra de desgaste.

“O gasto deixa de ser só ‘bombardear alvos’ e passa a incluir patrulha permanente, defesa aérea, proteção de rotas marítimas, reposição de estoques, assistência a aliados, seguro, reconstrução parcial de prontidão e ampliação de contratos industriais. Quando isso acontece, o custo marginal da guerra começa a contaminar o custo estrutural da defesa”, explica.

Para os países diretamente envolvidos, como aponta, o problema é duplo. De um lado, há o custo militar direto. De outro, há o custo econômico sistêmico: queda de atividade, interrupção logística, fuga de capitais, aumento de prêmio de risco e compressão fiscal.

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“No caso de Israel, por exemplo, o Ministério das Finanças estimou que a guerra com o Irã poderia custar cerca de NIS [Novo Shekel Israelense] 9,4 bilhões por semana, ou algo como US$ 3 bilhões semanais, se as restrições econômicas persistirem. Isso mostra que o custo não está só no Ministério da Defesa, está na economia real parando, voos cancelando, empresas operando menos e seguros explodindo”, complementa.

Para o Irã a situação é ainda mais severa. Ele explica que, em capacidade de sustentação, o peso relativo da guerra é muito mais destrutivo para Teerã, mesmo que Washington esteja queimando dinheiro num ritmo absoluto muito maior.

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Fonte: Portal Terra
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