Após quatro anos de julgamento, a Justiça da Itália condenou 32 pessoas, entre executivos, dirigentes públicos e servidores, por responsabilidade no desabamento da Ponte Morandi, em Gênova, tragédia que deixou 43 mortos em agosto de 2018.
Em audiência realizada nesta quinta-feira (16), a pena mais alta foi imposta a Giovanni Castellucci, ex-CEO da Autostrade per l'Italia (Aspi), antiga concessionária da via ? o Ministério Público havia pedido uma sentença de 18 anos e meio de reclusão.
Também foram condenados o ex-diretor de manutenções da Aspi Michele Donferri Mitelli (11 anos), o ex-número 2 da concessionária Paolo Berti (cinco anos e seis meses) e o ex-CEO da Spea, companhia contratada para fazer a manutenção da ponte, Antonino Galatà (cinco anos e seis meses).
Já Mauro Coletta, ex-diretor de vigilância de concessões rodoviárias do Ministério da Infraestrutura e dos Transportes, pegou cinco anos de prisão. Os réus foram condenados por crimes como homicídio, homicídio rodoviário e desabamento culposo, e as 32 penas totalizam quase 200 anos de reclusão. Outras 25 pessoas foram absolvidas ou tiveram seus delitos prescritos.
"A sentença de hoje marca um passo importante no percurso de verdade e justiça para a tragédia da Ponte Morandi", disse, em nota, o vice-ministro da Infraestrutura, Edoardo Rixi, acrescentando que "nenhuma decisão poderá restituir as 43 vidas despedaçadas nem aliviar a dor das famílias". "O desabamento não foi uma fatalidade, mas o resultado de graves erros e omissões de quem tinha o dever de garantir a segurança", acrescentou.
Familiares de vítimas da Ponte Morandi se abraçam após leitura de sentençaA defesa de Castellucci, por sua vez, afirmou que a única culpa do executivo é "ser inocente". "Buscaram culpados, mas não a culpa. Castellucci foi condenado sem culpa, mas vamos seguir lutando por sua inocência e temos certeza que a apelação remediará aquilo que consideramos um erro", afirmou o advogado Giovanni Paolo.
O julgamento havia iniciado em julho de 2022, e ainda cabe recurso em segunda instância. A Aspi e a Spea também eram alvos do inquérito, mas fizeram um acordo para pagar 29 milhões de euros aos cofres do Estado e encerrar o caso.
A concessionária era controlada pela família Benetton, mas foi reestatizada após a tragédia.
Corrosão
O colapso da Ponte Morandi, parte de uma rodovia que conecta Itália e França, ocorreu em uma manhã chuvosa em 14 de agosto de 2018, lançando veículos em um abismo de dezenas de metros de altura.
Uma perícia divulgada em dezembro de 2020 concluiu que o desabamento foi provocado pela corrosão em um dos cabos de sustentação da ponte. O relatório aponta que o desastre poderia ter sido evitado se "os controles e manutenções tivessem sido feitos corretamente".
A Morandi havia sido inaugurada em 1967 e consistia em uma estrutura estaiada, mas com as vias suspensas por tirantes de concreto, e não de aço, como é mais comum.
De acordo com os peritos, o processo de corrosão na armadura do tirante que causou a tragédia teve início logo nos "primeiros anos de vida da ponte" e progrediu de maneira ininterrupta até o desabamento.
"Era uma bomba-relógio", disse o procurador Walter Cotugno durante o julgamento. A substituta da Ponte Morandi foi inaugurada em agosto de 2020, com projeto do premiado arquiteto Renzo Piano, ao custo de 200 milhões de euros, valor bancado por um consórcio público-privado.