Fundado em 1998 em Florianópolis pelo advogado Nestor Lodetti, o Manezinhos é um time amador de futebol que já atuou em cinco continentes, somando 80 jogos em cerca de 40 viagens internacionais. Unindo esporte, diplomacia e trocas culturais, o grupo coleciona episódios marcantes, como partidas contra veteranos do Barcelona e um encontro bem-humorado com o papa Francisco no Vaticano. A equipe agora prepara um livro sobre sua história e reúne documentos para pleitear uma vaga no Guinness Book.
Renan Tolentino, da RFI em Paris
A equipe, fundada em 1998 em Florianópolis (SC), tem um currículo de fazer inveja a muitos times profissionais: já disputou 80 partidas fora do Brasil, em pelo menos 40 excursões ao exterior, segundo seu fundador, o advogado catarinense Nestor Lodetti, de 76 anos, ex-presidente do Figueirense, clube profissional de Santa Catarina.
"Essa iniciativa surgiu no ano de 1998, quando um técnico argentino, amigo nosso, que treinava a base de alguns clubes dos Estados Unidos, convidou nosso time de amigos de Florianópolis para fazer dois jogos em Miami. Aí nos mobilizamos e fomos com um grupo de 64 brasileiros (entre atletas amadores e familiares) e disputamos essa partida lá. A partir daí, surgiu a ideia de rodar o planeta", explica.
Não à toa, o Manezinhos se intitula como "o único grupo de peladas do mundo a jogar em cinco continentes".
"No ano seguinte fomos ao Canadá. Depois viemos aqui à França, jogamos em Lésigny (a 20 km de Paris), jogamos também em Bandol, do lado de Marselha (no sudoeste da França), aí depois disso gostamos da ideia e rodamos o mundo", recorda Nestor.
A última parada do Manezinhos foi em Paris, nesta semana, para um amistoso contra o Black Stars International, time amador da capital francesa, com a presença do cônsul-geral adjunto do Brasil, Murilo Vieira Komniski.
Bênção do papa e amistoso no Vaticano
Entre tantos encontros internacionais, o grupo brasileiro guarda histórias insólitas na bagagem. Na lista de adversários estão times veteranos de grandes clubes europeus, como Barcelona e Benfica, além de equipes formadas por consulados e embaixadas nos países visitados.
Um dos momentos mais memoráveis, de acordo com Nestor, foi o encontro com o papa Francisco, que era fã de futebol e torcedor do San Lorenzo, da Argentina. O episódio aconteceu em setembro de 2023, durante um campeonato disputado no Vaticano.
"O papa Francisco tomou conhecimento da nossa presença lá no Vaticano e fez questão de nos receber. Claro que nossos assuntos com ele foram religiosos, mas, no fim, para quebrar o gelo, nós o presenteamos com uma camisa do Figueirense, clube do qual fui presidente quando estava na primeira divisão, e pedimos uma bênção especial".
"Em seguida, o papa perguntou qual era a situação do Figueirense, que naquela época jogava a terceira divisão do futebol brasileiro (...) Ele entrou no espírito da conversa, pegou no meu braço e disse: 'esse tipo de milagre o papa não faz'", detalha o catarinense.
Falando a linguagem da bola
O filho de Nestor, Nikola Lodetti, que acompanha o pai desde criança, relembra outros momentos marcantes da equipe de futebol amador pelo mundo.
"Há 11 anos nós jogamos contra o time de masters do Barcelona, do lado do mini Camp Nou. Tomamos de 7 a 1, mas fiz um gol de cavadinha, num dos meus primeiros jogos vestindo a camisa do Manezinhos", brinca.
No duelo contra ex-jogadores do clube catalão, em 2015, o time catarinense contou com o reforço de Paulo Cézar Caju, ídolo do futebol brasileiro e campeão mundial com a Seleção em 1970, no México.
O resultado é o que menos importa para a equipe brasileira, que faz uma "tabelinha" entre futebol e diplomacia para conhecer diferentes culturas e divulgar o Brasil mundo afora, sublinha Nikola.
"É um choque cultural muito grande e também um aprendizado. A gente está em contato com realidades diferentes e vê como o futebol transforma as pessoas e cria vínculos nos mais diversos países, nas mais diversas línguas. Cada experiência, cada viagem, cada jogo é um motivo de orgulho e satisfação em fazer parte disso", afirma.
Manezinhos da ilha
Amigo de Nestor e um dos veteranos do time, Luis Angelo, de 66 anos, conta que o nome do clube vem do termo "manezinho da ilha", como são chamados os moradores de Florianópolis. O apelido ficou ainda mais popular nacionalmente com o sucesso do tenista catarinense Gustavo Kuerten em quadras internacionais, incluindo Roland Garros, na França.
"O nome 'manezinho' é um título dado ao morador da ilha (de Florianópolis), aquele morador mais simples, que foi criado no interior da ilha. Depois, o termo ficou mais conhecido quando nosso tenista campeão de Roland Garros, Gustavo Kuerten, se intitulou 'manezinho da ilha de Florianópolis'. Hoje, quem é natural de Florianópolis é apelidado de 'manezinho'", explica Luis Angelo.
Com tantas partidas pelo mundo, acumulando histórias surpreendentes, a jornada do Manezinhos do Brasil extrapola as quatro linhas dos gramados e pode ganhar novas páginas. Nestor Lodetti tem planos de lançar um livro narrando a caminhada do "time de peladas mais internacional do planeta". Ele revela ainda a possibilidade de a equipe entrar para o Guinness, o livro dos recordes.
"Nossas relações internacionais são importantes e reconhecidas, tanto é que o Guinness World Records veio nos procurar por sermos o único grupo de futebol (amador) que jogou em todos os continentes. Mas estamos aguardando o momento para reunir a documentação necessária para comprovar. Além disso, também estamos editando um livro que conta toda a nossa história. Depois, vamos pensar no Guinness. Porque, para nós, o importante é jogar futebol", conclui.
Ao longo de quase três décadas, a trajetória do Manezinhos indica até onde pode ir a paixão do brasileiro pelo futebol e mostra também que o esporte continua sendo uma potente ferramenta de integração social, seja em gramados internacionais ou nos inúmeros campos de várzea espalhados pelo Brasil.