De fotomontagens antinazistas a fotos encenadas, uma exposição em Amsterdã destaca a longa história de imagens manipuladasUma ferramenta de potencial infinito ou uma tecnologia que ameaça a democracia por meio de deepfakes? Embora imagens geradas por inteligência artificial (IA) tenham entrado no nosso cotidiano, seu impacto na sociedade ainda está sendo pesquisado.
A exposição Fake! Early Photo Collages and Photomontages ("Falso! as primeiras colagens fotográficas e fotomontagens"), em cartaz até 25 de maio no Rijksmuseum, em Amsterdã, dá um passo atrás no debate atual para nos lembrar que imagens já eram falsificadas e manipuladas muito antes da invenção do Photoshop ou da IA.
"Assim que a fotografia foi inventada, cerca de 187 anos atrás, as imagens começaram a ser alteradas, modificadas, manipuladas - às vezes por motivos ruins, às vezes apenas para entretenimento", disse o curador da exposição, Hans Rooseboom, à DW.
Técnicas diferentes, motivações diferentes
A exposição reúne 50 imagens históricas da coleção do museu. Originalmente publicadas em diversos formatos - cartões-postais, capas de revistas e cartazes - elas apresentam uma variedade de técnicas de manipulação.
A fotografia de múltipla exposição, uma técnica criativa que se tornou popular pouco depois da invenção da fotografia, permitia mostrar, por exemplo, a mesma pessoa duas vezes numa mesma imagem, já que diferentes áreas da placa fotográfica eram expostas em etapas distintas para compor uma única foto.
Em outros casos, partes de negativos eram combinadas para criar trabalhos surreais, como a fotomontagem de um homem empurrando um carrinho de mão contendo uma cabeça desproporcional, obra anônima datada de cerca de 1900 -1910.
A exposição também explora as motivações por trás das fotos manipuladas. "Algumas foram feitas por razões políticas, ou para publicidade, mas a maioria foi feita para fins de entretenimento - e isso deve ter sido um mercado extremamente grande", disse Rooseboom, assim como os memes, vídeos de gatos e outras produções impulsionadas por IA que hoje inundam a internet.
Fotografia como arma política
No entanto, alguns artistas usavam técnicas criativas para comunicar ideias políticas.
Já em 1870, os irmãos Eugene e Ernest Appert, retratistas parisienses, utilizaram técnicas de fotomontagem como ferramentas de propaganda. Um deles criou uma série chamada Crimes da Comuna, que enfatizava os crimes dos parisienses que se revoltaram contra o novo governo de tendências monarquistas após a queda de Napoleão 3°.
As fotos se inspiravam em eventos reais, mas Appert as encenava, usando atores para recriar certas cenas e depois recortava e colava os rostos das figuras centrais da Comuna. Posteriormente, as fotos foram proibidas por "perturbar a ordem pública" e estimular mais violência ao reforçar sentimentos opositores à Comuna de Paris.
Fotomontagens satíricas antinazistas
Em outros casos de comentário político, as colagens não pretendiam parecer realistas.
Helmut Herzfeld foi um artista alemão que assinava suas obras sob uma versão em inglês do próprio nome, John Heartfield. Ele foi pioneiro no uso da arte como arma política, criando fotomontagens para promover suas visões antinazistas e antifascistas.
A partir de 1930, Heartfield criou regularmente as capas da revista comunista Arbeiter-Illustrierte-Zeitung (AIZ), sediada em Berlim até a tomada do poder por Hitler em 1933. Depois, a revista se exilou em Praga.
Em uma das capas expostas no Rijksmuseum, Joseph Goebbels - chefe da propaganda nazista - aparece colocando a icônica barba de Karl Marx no rosto de Adolf Hitler. A revista afirma que Goebbels convenceu o "Führer" a usar a barba do pensador comunista ao discursar para trabalhadores, em uma tentativa desesperada de fazer a classe operária adotar ideias nazistas.
Os leitores entendiam que aquilo era sátira, lembrou Rooseboom: "Era claro para todos que ele não estava tentando fazer as pessoas acreditarem que as cenas retratadas estavam realmente acontecendo."
Ainda assim, as imagens chamavam atenção numa época em que a mídia de massa estava apenas começando a se expandir. A partir da década de 1930, revistas de grande circulação chegavam a milhões de exemplares por semana, disse Rooseboom.
Mais imagens em um dia que em toda uma vida
De modo geral, pouco se sabe sobre como o público recebia fotos manipuladas no início do século 20, disse Rooseboom. O que é claro é que as pessoas da época não eram expostas a tantas imagens.
"Hoje, a cada dia vemos mais imagens ou fotografias do que uma pessoa do século 19 veria em toda a sua vida", afirmou.
Ironicamente, embora a exposição limitada às imagens no passado facilitasse que as pessoas fossem enganadas por montagens, atualmente tendemos a rolar rapidamente por um número esmagador de fotos - muitas vezes deixando passar justamente os detalhes que revelariam uma foto gerada por IA.