Metas na educação: quando a lógica do comércio invade a escola

Metas valendo dinheiro é a última coisa de que nossas escolas e a comunidade escolar precisam

22 mar 2026 - 09h36

Por Álvaro Nicotti*

Foto: Imagem gerada por I.A. / Porto Alegre 24 horas

Boa parte da minha vida como trabalhador foi como vendedor, seja em estabelecimentos comerciais, seja vendendo produtos na rua. Já vendi desde aparelhos de celular na Multisom, cadeiras de rodas, protetores de ouvido e aparelhos de medir pressão em uma ortopedia, até cursinhos de inglês de quinta categoria em comunidades periféricas da região metropolitana de Porto Alegre.

Publicidade

Em quase todos esses trabalhos, a escala era 6×1. Ou seja, nunca existiu o "sextar", pois o sábado sempre foi o dia mais ativo do comércio. Eventualmente existia um "sabadou", quando não era necessário abrir a loja no domingo — principalmente quando eu trabalhava em shopping. Aliás, os horários de shopping são os piores: entrava às 13h30 para sair às 22h, quando não era dezembro, mês em que saía às 23h. Não é à toa que nos autodenominávamos "escravoshoppings".

Como disse, na maioria das vezes fui vendedor. Mas aí entra mais uma sacanagem: minha carteira de trabalho (quando assinada!) era registrada como balconista. Ora, quando se é balconista, tem-se um salário fixo, sem metas. Logo, as metas eram pagas "por fora", o que não era computado para fins de FGTS, seguro-desemprego ou qualquer outro eventual benefício garantido pelas leis trabalhistas.

Porém, o que todos esses empregos tinham em comum eram as metas a cumprir. Metas de vendas. Metas que, quando batidas, geravam um benefício ao vendedor. Competíamos entre colegas; valia tudo para bater a meta; valia tudo para conseguir um dinheiro a mais no final do mês.

No entanto, em 2021, mudei de profissão: tornei-me professor. Acabaram as escalas 6×1, passei a ter muitos "sextou"; acabaram as metas e as comissões conquistadas em muitos domingos e feriados dentro de shoppings lotados de pessoas olhando mercadorias que, na maioria das vezes, não podiam comprar.

Publicidade

Mas, em 2026, surge uma novidade na educação pública do Rio Grande do Sul: as escolas passam a ter metas a alcançar. Meta, por si só, não seria um problema grave, se não fosse a lógica de atingir números satisfatórios para constar em tabelas passíveis de divulgação. O problema é que as escolas do RS passam a ter que atingir metas caso professores, funcionários e equipes diretivas queiram ganhar um 14º salário.

Opa, um 14º salário!

Bobagem — e muita sacanagem. Metas valendo dinheiro despertam comportamentos muito perigosos nas pessoas: ambição, disputa, vigilância, controle sobre a vida do outro e até traição. Isso não significa que seja regra ou que todos potencializem esses comportamentos, mas é, sem dúvida, uma porta de entrada. Não conheci nenhum local onde trabalhei, fora da educação, em que não presenciei esse tipo de situação — em alguns, pouco (boas equipes); em outros, verdadeiros antros de competição predatória.

Metas valendo dinheiro é a última coisa de que nossas escolas e a comunidade escolar precisam. Não existiria outra forma de valorizar a educação sem colocar em risco a unidade coletiva do corpo docente?

Com certeza existe. Mas colocar uns para vigiar os outros, garantindo que os números sejam alcançados, torna mais eficiente a sua aplicação e, consequentemente, sua divulgação em campanhas eleitorais no segundo semestre deste ano.

Publicidade

E nós? Talvez ganhemos algum valor a mais no contracheque.

*Professor, pesquisador e editor do site TemQueVer

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Porto Alegre 24 Horas

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se