Reeleição de Lula: mercado volta os olhos para o fiscal e cobra nomes e sinais de credibilidade

Para economistas, próximo governo precisará reconstruir confiança, ajustar regras e reduzir incertezas para evitar piora mais duradoura nas condições financeiras

26 out 2026 - 08h50
(atualizado às 08h55)
Resumo
A confirmação do quarto mandato de Lula volta a atenção do mercado para o cenário fiscal e a urgência de reconstruir a confiança, sob risco de alta do dólar e dos juros. Analistas alertam que o arcabouço fiscal exige revisões e cortes de despesas diante do endividamento crescente e do Congresso exigente. Para conter a volatilidade, investidores cobram sinais práticos imediatos e monitoram a escolha da nova equipe econômica e as indicações para o Banco Central e o STF como termômetro de credibilidade.

NOVA YORK E SÃO PAULO - A confirmação do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva recoloca o tema fiscal no centro das expectativas e pode definir a duração da reprecificação de ativos no curto prazo, como a volatilidade no câmbio e na curva de juros. Economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast apontam que a reação inicial deve refletir, sobretudo, a leitura de que o próximo governo precisará reconstruir confiança, ajustar regras e reduzir incertezas para evitar piora mais duradoura nas condições financeiras.

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A reeleição de Lula muda o eixo do debate econômico para 2027: menos a surpresa do resultado e mais a capacidade do governo de entregar credibilidade — na equipe econômica, no arcabouço fiscal e na condução das contas públicas — em um ambiente que já se desenha mais adverso no exterior e mais exigente em Brasília.

Reeleito presidente no domingo, 25, em uma virada histórica, com 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu o quarto mandato da população brasileira e terá de lidar com os problemas que ele mesmo criou na economia.
Reeleito presidente no domingo, 25, em uma virada histórica, com 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu o quarto mandato da população brasileira e terá de lidar com os problemas que ele mesmo criou na economia.
Foto: Werther Santana/Estadao / Estadão

A economista do Peterson Institute e conselheira do Cebri, Monica de Bolle, resume o desafio como um problema de confiança. Com um Congresso recém-eleito e um cenário global que pode combinar juros altos, choques de energia e guerras, o governo precisará do "apoio do mercado" para avançar. Para ela, o ponto central é que o arcabouço fiscal "já está meio morto" e demandaria revisão urgente, porque o crescimento esperado pelo programa de governo pode não se materializar em 2027 — justamente quando a dinâmica da dívida tende a pressionar mais.

Para a economista-chefe da Lifetime, Marcela Kawauti, a reeleição faz o mercado voltar a olhar o fiscal com preocupação, em um contexto em que o terceiro mandato já teria sido marcado por aumento do endividamento e sucessivas exceções dentro do arcabouço. A consequência, diz, pode vir na forma de piora do câmbio, com estimativas entre R$ 5,50 e R$ 6,00 em 2026 e 2027.

Já o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, enxerga um ajuste fiscal provável, mas mais moderado do que seria sob um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), e projeta um dólar mais próximo de R$ 5,40 de forma sustentada em 2027. Para Sung, o curto prazo é mais "estressado", mas o desempenho adiante dependerá de como o governo vai se organizar e do que conseguirá aprovar.

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O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, concorda que o Brasil precisará reordenar as contas públicas, reduzindo despesas fora do arcabouço, mas defende que isso ocorra com gradualismo. Na visão do economista, a previsibilidade fiscal tende a melhorar juros e câmbio — e a reação negativa do mercado no dia seguinte à eleição pode ocorrer, mas não necessariamente foge do padrão. Os preços, diz, podem "ir se assentando" à medida que reformas avancem.

No pano de fundo, as fontes convergem em um ponto: o "termômetro" do mercado não será apenas a retórica, mas o pacote de sinais concretos e, sobretudo, a capacidade de reduzir incertezas com medidas que alterem expectativas de dívida e resultado primário.

De Bolle, por exemplo, cobra um anúncio urgente com impacto relevante, sugerindo como possibilidade a redução de desonerações e a reversão de gastos tributários. Ela minimiza propostas pontuais de geração de receita, como a venda de imóveis defendida pelo candidato derrotado, por considerar o efeito incerto e insuficiente como prova de compromisso fiscal — e afirma que uma medida de credibilidade deveria ter impacto de ao menos R$ 40 bilhões.

Nomes

O maior desafio do quarto mandato do presidente Lula será dar credibilidade à equipe econômica, afirma de Bolle. "Já vai ser muito difícil para o governo fazer qualquer coisa com o Congresso que foi eleito. O governo precisa ter a simpatia e o apoio do mercado para conseguir avançar", afirmou.

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O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, avalia que a "duração e a intensidade" do ajuste dos preços de mercado dependerão das primeiras sinalizações do novo governo. O diretor ressalta que as atenções estarão voltadas para a composição do novo ministério de Lula, em especial para a equipe econômica e para as diretorias vagas do Banco Central, além de indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF).

"Esses nomes ajudarão a definir a percepção dos investidores sobre a orientação da política econômica, a qualidade institucional e o grau de compromisso com a estabilidade macroeconômica", afirma Oliveira.

Além do fiscal, surge um vetor adicional de atenção para 2027: a composição do BC, na opinião de Kawauti. Ela chama a atenção para a renovação de cadeiras na diretoria, com duas vagas já no horizonte e mais duas em janeiro, o que deixaria quase metade do Copom indicada pelo presidente.

Na prática, o mercado tende a incorporar esse calendário ao prêmio de risco, à medida que tenta inferir qual será o grau de continuidade (ou mudança) na condução da política monetária.

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