Há biografias que se limitam a narrar trajetórias individuais. Outras, mais ambiciosas, funcionam como espelhos de uma época. O Sol Brilhou à Noite - a trajetória do líder afro-brasileiro José Vicente (DisrupTalks), de Ricardo Viveiros, vai além: transforma uma história pessoal em lente de aumento para observar o Brasil.
É difícil simplificar a trajetória de José Vicente. Foi engraxate, vendedor ambulante, entregador de leite, ajudante de açougue e operário de ferro-velho. Vestiu a farda da Polícia Militar por quase oito anos, tornou-se delegado da Polícia Civil e, mais tarde, advogado.
Doutor em Educação e mestre em Ciências Jurídicas e Administração, Vicente é o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares e um dos nomes mais influentes na pauta da inclusão racial no País aos 66 anos.
Essa história improvável começou no Morro do Querosene, bairro pobre de Marília (SP) nos anos 1960. A vida seguia precária nas ruas de terra, vizinhança barulhenta e nos riscos, muitos riscos.
O autor da biografia desenha ali um microcosmo urbano: "Bebidas alcoólicas, cafetões e prostitutas, jogo do bicho, traficantes de drogas… havia de tudo isso naquela vizinhança". Mas havia também solidariedade, cumplicidade e, sobretudo, escolhas. Um pacto juvenil quase ingênuo entre Vicente e dois amigos foi decisivo. "Sem drogas, sem malandragem e estudar para virar doutor".
A narrativa mostra um Brasil que se urbaniza às pressas, sustentado por ciclos econômicos instáveis nos anos 1950 e 1960. Era um País em que mobilidade social era exceção. Para famílias negras e pobres, como a de José Vicente, o caminho era ainda mais estreito. A morte precoce do pai desestrutura a casa, e a mãe se vê obrigada a dispersar os filhos, cena recorrente no Brasil invisível das estatísticas.
Nos anos seguintes, já na virada para a década de 1970, o racismo estrutural vira experiência concreta. Ainda no interior de São Paulo, jovens negros aprendem cedo como o Estado pode ser repressivo. "Os moradores como José, negros e jovens, eram os alvos preferidos dos interrogatórios e revistas", registra o livro.
Décadas depois, a leitura permanece atual. Nas palavras do próprio Vicente, ainda há um bloqueio. "A gente não trata igual o filho do rico em relação ao filho do pobre nem o negro em relação ao não negro", diz ao Estadão.
Mas a vida não se resumia ao peso das estruturas. Existiam pequenas frestas de alegria como os bailes de bairro com ponche, cuba libre e música alta, as fotonovelas, como Rosas Vermelhas para Bárbara, que ensinam códigos de afeto e também de linguagem.
Engraxate, entregador de leite, vendedor de limões...
O menino que trabalha durante o dia descobre, à noite, o poder da palavra. Escreve poemas, conquista a primeira namorada com versos improvisados, publica no jornal Correio de Marília. Pequenos gestos que, somados, começam um projeto de vida.
O trabalho sempre foi necessidade. Engraxar sapatos, vender limões, entregar leite, carregar ferro. No meio da rotina de sobrevivência, surge a percepção de que o estudo poderia abrir outras portas. Da farda da Polícia Militar, onde chegou a terceiro sargento, José Vicente segue para a faculdade de Direito, em Guarulhos, na região metropolitana, onde se envolve com o movimento estudantil. Era também um ambiente marcado pela ausência. "Na minha sala nós éramos dois negros entre 120 alunos".
Hoje, olhando para trás, o reitor aponta que esse foi um ponto de virada para que a sua trajetória individual se tornasse um projeto coletivo. "Quando eu fui eleito vice-presidente do Diretório Acadêmico, eu me dei conta da potência, da força que um espaço institucional pode ter para mudar o rumo das coisas".
O livro capta essa transformação do "eu" para "nós". José Vicente ascende e vai criando caminhos para quem viesse atrás. A fundação da ONG Afrobras e, sobretudo, da Universidade Zumbi dos Palmares, instituição de ensino superior privada, sem fins lucrativos, focada na inclusão de pessoas negras e de baixa renda, marca essa inflexão.
Em um Brasil que resistia às políticas de cotas, bandeira histórica defendida por Vicente, a instituição nasce com uma proposta direta: ampliar o acesso de estudantes negros ao ensino superior e ao mercado de trabalho. Não basta educar, é preciso empregar.
Hoje, a universidade soma 22 anos com 1200 alunos em nove cursos - mais dois serão abertos no ano que vem. Desde 2003, a Zumbi já formou cerca de 5 mil jovens, a maioria negros.
Vicente reconhece que o desafio continua. Um dos exemplos é a discussão sobre cotas raciais. Ainda. O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria, no mês passado, para declarar inconstitucional a lei que proíbe o uso de cotas raciais no ingresso em universidades de Santa Catarina.
Em janeiro, o governador do Estado, Jorginho Mello (PL), havia sancionado uma lei que proibia a aplicação de cotas em universidades públicas que recebem recursos do governo estadual. "As cotas são ferramentas indispensáveis, mas a gente ainda não construiu um consenso social definitivo sobre isso" .
Outras iniciativas, como o "Prêmio Raça Negra" e projetos mais recentes, como a criação de uma "Câmara de Mediação Racial" para conflitos no consumo, ampliam a atuação.
Os bastidores de uma biografia
Se o personagem carrega a história, o autor sustenta a narrativa. Jornalista de formação, Ricardo Viveiros, autor da biografia, deixa claro que o livro nasce da apuração, não da invenção. "A biografia, como a matéria jornalística, tem compromisso com a verdade".
Isso significa levar para o livro o mesmo compromisso com a apuração criteriosa, a checagem de dados e o garimpo de informações do ofício jornalístico. "O jornalista que eu sou acabou ensinando o escritor que me tornei a escrever".
Não por acaso, o livro funciona em duas camadas: acompanha a trajetória de um homem e, ao mesmo tempo, propõe uma reflexão sobre o País. Para o autor, a obra se trata de uma provocação deliberada. "É uma biografia poderosa, que discute um projeto de País" .
O processo de produção do livro foi longo. Foram anos de convencimento até que José Vicente aceitasse contar sua história e mais dois de trabalho intenso, com entrevistas presenciais, apuração, cruzamento de informações. "Eu entrevisto olhando no olho… quero sentir se o cara está falando a verdade", explica. O jornalista/escritor usa uma palavra boa e que resume todo o processo: "cavoucar".
Houve também o trabalho de reconstruir o passado: buscar personagens do Morro do Querosene, por exemplo, levantar documentos escassos, ouvir ex-alunos, empresários, políticos. Um trabalho de repórter, no sentido mais clássico. "Não conto só a historinha do personagem. Eu olho o mundo, o Brasil, e integro isso à vida dele".
No fim, O Sol Brilhou à Noite é uma narrativa sobre possibilidades coletivas. Ele deixa uma sensação de esperança ao final de suas 236 páginas. Em um Brasil onde desigualdades persistem, o livro sugere que transformação não é imediata nem simples, mas pode acontecer, lentamente, "tijolo por tijolo", outra expressão imagética da publicação.
Serviço
- O Sol Brilhou à Noite - A trajetória do líder afro-brasileiro José Vicente
- Autor: Ricardo Viveiros
- Editora: DisrupTalks
- Formato: 16 x 23 cm
- 236 páginas
- R$ 149,90