Evan Hand já tinha visto momentos esportivos que viralizaram antes, mas aquele que mudou a forma como ele entendia o alcance do futebol não veio de uma superestrela.
Veio de Vozinha, o goleiro de 40 anos de Cabo Verde, cuja atuação com sete defesas no empate sem gols contra a Espanha — grande favorita — o transformou, da noite para o dia, em uma sensação nas redes sociais.
"O grande momento para mim foi a história do Vozinha", disse Hand, criador de conteúdo esportivo.
"Foi ver esse cara ganhar 15 milhões de seguidores praticamente da noite para o dia jogando por uma seleção que, se você fosse olhar no mapa, não saberia me dizer onde fica Cabo Verde agora".
"(O astro da NFL) Tom Brady tem menos seguidores do que esse cara, e ele teve, sem dúvida, a trajetória mais dominante da história do esporte. Então, esse foi um momento especial para mim."
Para muitos fãs de esportes norte-americanos, esta Copa do Mundo causou um impacto semelhante.
À medida que torcedores de todo o mundo lotam os estádios, a audiência televisiva dispara e os torcedores norte-americanos lotam festivais de torcida e bares esportivos, o torneio serviu como um lembrete vívido de que o futebol não é um esporte de nicho tentando entrar no mainstream norte-americano. É o esporte dominante no mundo, e os Estados Unidos ainda estão tentando alcançar sua magnitude.
O torneio já está a caminho de bater o recorde de público. Nas primeiras 44 partidas, o público total ultrapassou 2,85 milhões, com os estádios operando em média a cerca de 99,6% da capacidade, de acordo com uma análise da Reuters baseada em dados da FIFA.
A transmissão da Fox da vitória dos EUA sobre a Austrália atraiu 16,2 milhões de telespectadores, um número que provavelmente será superado à medida que os norte-americanos avançarem para as fases eliminatórias.
"Acho que muitas pessoas que sempre acharam o esporte chato estão descobrindo que ele é emocionante", disse Bob Dorfman, analista de marketing esportivo. "E isso está ajudando o futebol."
PAIXÃO GLOBAL
O impacto do torneio nos Estados Unidos pode ser medido tanto pela emoção quanto pelos índices de audiência.
Dorfman disse que os torcedores norte-americanos estão entrando em contato não apenas com jogadores de elite, mas também com a paixão dos torcedores que viajam para acompanhar a seleção e das comunidades de imigrantes, que tratam a Copa do Mundo mais como um feriado nacional do que como um evento esportivo.
"Nos Estados Unidos, há todos esses estrangeiros que estão chegando ou imigrantes que já estão aqui e estão simplesmente enlouquecidos com isso", disse ele. "E acho que, até certo ponto, os cidadãos norte-americanos estão com um pouco de inveja dos torcedores escoceses e dos brasileiros".
"Eu estava assistindo ao jogo do Brasil ontem e fiquei com um nó na garganta ao vê-los cantando o hino nacional. A emoção é enorme. A empolgação é enorme. Há grandes estrelas jogando que os norte-americanos finalmente estão podendo ver de perto."
Hand disse que seus vídeos sobre a Copa do Mundo estão indo "muito melhor" do que seu conteúdo habitual, que normalmente se concentra em esportes como futebol norte-americano universitário e golfe.
"Não é que não soubéssemos que o futebol era grande", disse ele.
"Acho que não sabíamos a verdadeira dimensão de quão grande o futebol realmente é. Todas as pessoas no resto do mundo, mesmo que sejam de alguma cidade qualquer no Brasil ou na Sibéria, conhecem o futebol. E amam o futebol e morreriam por esse esporte."
ENTUSIASMO NOS EUA CRESCE
Do lado de fora do Los Angeles Stadium, antes da partida de quinta-feira entre EUA e Turquia, os torcedores criaram uma atmosfera de carnaval, cantando músicas, tocando tambores e soltando bombas de fumaça nas cores vermelho, branco e azul. O sucesso da seleção dos EUA no torneio até agora — vencendo suas duas primeiras partidas e liderando o grupo — estimulou o entusiasmo.
Alicia Rutz, uma ex-jogadora vestida de Mulher Maravilha a caminho do jogo com o marido, que apareceu fantasiado de Ted Lasso, o técnico fictício da série de TV, disse que os norte-americanos começaram a apreciar os pequenos detalhes do esporte.
"É muito divertido ver os norte-americanos entendendo o futebol, amando o futebol", disse Rutz. "Eles não estão torcendo apenas pelos gols, estão torcendo pelas coisas certas — as jogadas certas, os toques certos — e é muito divertido ver os norte-americanos adotarem o futebol e amá-lo."
Ainda assim, a ideia de um avanço do futebol nos Estados Unidos é quase tão antiga quanto o próprio esporte norte-americano moderno.
A realização da Copa do Mundo masculina de 1994, o crescimento da Major League Soccer e o sucesso da seleção feminina dos EUA trouxeram, cada um à sua vez, previsões de que o esporte estava pronto para conquistar um lugar permanente ao lado das ligas mais poderosas do país.
"Já vimos isso muitas vezes nos EUA", disse Rutz.
"Mas acho que isso pode finalmente acontecer. Os programas de base estão decolando em todo o país e isso pode finalmente se tornar algo equivalente ao futebol norte-americano da NFL, o que eu adoraria ver."
ISSO VAI DURAR?
O futebol tem uma base mais sólida nos EUA do que nas gerações anteriores: acesso mais amplo a transmissões internacionais, uma presença crescente da MLS, um futebol feminino de destaque, torcidas latinas e de imigrantes, e uma cultura juvenil cada vez mais familiarizada com estrelas como Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Christian Pulisic. Times amadores estão atraindo torcedores, principalmente em locais onde faltam ligas profissionais norte-americanas.
Mas o mercado esportivo norte-americano está saturado, e a NFL continua sendo a força comercial dominante do país.
"A NFL é a rainha aqui", disse Dorfman. "Eles fizeram um excelente trabalho em dominar o mercado, e é para lá que toda a atenção se volta. O Super Bowl é o Super Bowl e, mesmo que a final da Copa do Mundo tenha dez vezes mais público, este é um país do futebol norte-americano. Não sei se o futebol vai conseguir alcançar esse nível algum dia."
Hand também é cauteloso. Ele vê um torneio capaz de inspirar jovens torcedores, mas não necessariamente forte o suficiente para manter os holofotes nacionais quando a temporada de futebol norte-americano voltar.
"Acho que, neste momento, estamos todos muito empolgados com o futebol", disse Hand. "E há milhares de pequenos Timmys e pequenas Emilys que admiram esses ícones como Messi, Ronaldo e Pulisic. Eles dizem: 'Quero ser como eles quando crescer'."
"Mas, ao mesmo tempo, centenas de milhares dessas crianças ainda idolatram os Patrick Mahomes, os Arch Mannings, os Alex Ovechkins e as Caitlin Clarks."
"Quando agosto chegar e tivermos a pré-temporada da NFL, o 'Hard Knocks' e a Semana Zero do futebol norte-americano universitário, as pessoas vão, em grande parte, esquecer que isso chegou a acontecer."
Por enquanto, porém, a Copa do Mundo conseguiu o que gerações de evangelistas do futebol nos Estados Unidos tentaram fazer: tornar a magnitude do esporte impossível de ignorar.
A lição para os torcedores norte-americanos talvez não seja que o futebol esteja finalmente se tornando enorme.
É que ele já era.