É enganoso que Lula tenha apagado do site oficial o registro de consagração do Brasil a Nossa Senhora Aparecida, feito sob a gestão Bolsonaro. Segundo o Estadão Verifica, a página foi temporariamente arquivada para cumprir as regras de neutralidade do defeso eleitoral, que restringem a publicidade institucional antes do pleito. Por cautela contra punições, órgãos públicos têm ocultado milhares de conteúdos históricos e dados técnicos, que voltarão ao ar após o fim do período eleitoral.
O que estão compartilhando: que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria apagado do site oficial do governo federal o registro do Ato de Consagração do Brasil a Nossa Senhora Aparecida, realizado em 24 de outubro de 2022, durante a gestão de Jair Bolsonaro, sugerindo uma postura contrária à padroeira do País.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O conteúdo não foi excluído, mas arquivado em cumprimento às regras do período de defeso eleitoral, que exige medidas de neutralidade da administração pública. Entre 4 de julho e 25 de outubro de 2026, órgãos federais aplicam restrições a seus canais oficiais. As medidas incluem a ocultação de notícias publicadas até 3 de julho, a desativação de elementos de identidade visual governamental nos portais, a suspensão ou adequação de perfis em redes sociais e a criação de uma área específica para o período eleitoral.
Em nota ao Verifica, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência comunicou que arquivou essa e outras notícias. Após o término do prazo de restrição legal, os conteúdos voltarão a ficar acessíveis.
Saiba mais: O Verifica entrou em contato com o Centro Dom Bosco, responsável pela postagem sobre o apagamento, mas não obteve resposta.
O Centro Dom Bosco é uma instituição de leigos católicos criada em 2016. Eles afirmam que a identidade católica no Brasil foi "obscurecida pelo modernismo e seus filhos mais proeminentes, o liberalismo e o comunismo".
Em nota divulgada em 2025, a Arquidiciocese do Rio de Janeiro informou que "não possui qualquer vínculo" com o Centro Dom Bosco. A nota acrescenta que "os fiéis católicos devem abster-se de participar das atividades promovidas" pela entidade, por ele estar filiado à Fraternidade Sacerdotal São Pio X.
Essa fraternidade foi excomungada da Igreja Católica em julho de 2026 por ordenar quatro bispos sem autorização. Padres ligados à São Pio X também foram excomungados. A fraternidade recorre da decisão.
O que é o defeso eleitoral
A restrição e o arquivamento de páginas do governo federal decorrem do período de defeso eleitoral, iniciado em 4 de julho de 2026. A legislação eleitoral proíbe, nos três meses anteriores ao pleito, a publicidade institucional de atos, programas, obras, serviços e campanhas de órgãos públicos, para resguardar a igualdade de oportunidades entre os candidatos na disputa.
Conforme análise divulgada pelo site The Conversation, o receio de punições tem levado órgãos e entidades da administração pública a adotar uma cautela excessiva, o que resulta na retirada indiscriminada de dados essenciais à pesquisa científica e à elaboração de políticas públicas.
O fenômeno, descrito por especialistas ao site como "apagão das canetas", reflete uma paralisia decisória motivada pelo medo de responsabilização pessoal dos gestores públicos. Diante da dúvida jurídica sobre a interpretação das normas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), autoridades têm optado pela exclusão preventiva de conteúdos inteiros.
Ainda de acordo com o site, a prática atinge registros históricos e relatórios técnicos. Durante o período, foram afetadas páginas com indicadores sobre desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), notícias do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e reportagens sobre taxas de mortalidade infantil veiculadas pela Agência Brasil.
O Arquivo Nacional ocultou publicações anteriores a 3 de julho deste ano, a plataforma Brasil Participativo suprimiu processos já finalizados e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) chegou a retirar do ar cerca de 146 mil reportagens sob a mesma justificativa. Governos estaduais também adotaram a suspensão integral de canais oficiais até 25 de outubro.