Lula endurece discurso contra o crime para avançar em área na qual Flávio Bolsonaro tem vantagem

Em evento no Rio de Janeiro, presidente disse que 'ninguém respeita mais quem tá com a pétala de rosa' e defendeu que policial tem direito de andar armado

19 set 2026 - 14h24
Resumo
O presidente Lula endureceu o discurso contra a criminalidade durante evento no Rio de Janeiro, defendendo armar guardas municipais e combater o crime organizado. O movimento visa reduzir a desvantagem do petista na segurança pública e frear o crescimento eleitoral do senador Flávio Bolsonaro, que lidera percepções positivas na área e aparece tecnicamente empatado com Lula nas intenções de voto para a presidência, além de defender a classificação de facções nacionais como grupos terroristas.

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu adotar um discurso mais duro na segurança pública para tentar reduzir a vantagem de seu principal rival nas eleições, o senador Flávio Bolsonaro (PL), em uma área na qual seu adversário leva vantagem.

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Lula participou nesta sexta-feira, 18, de uma cerimônia para formalizar a assinatura de acordos de cooperação técnica e convênios de integração entre governo federal e governo e Prefeitura do Rio de Janeiro.

No evento, o petista citou o contexto de criminalidade no Estado e defendeu que a parceria entre governo federal, Estado e município poderia tirar o Rio de Janeiro "das páginas da corrupção" e da "dominação do crime organizado".

"Nós estamos querendo construir uma nova política de segurança pública nesse País, em que a gente envolva a Prefeitura. Do tamanho da cidade do Rio de Janeiro, com essa extensão, não pode ficar sem ter uma polícia dela com direito de andar armado", disse.

"Porque ninguém respeita mais quem tá com a pétala de rosa ou seja ninguém respeita. A pessoa tem que saber que o policial é para evitar o cometimento de crime, de ilícito", prosseguiu o presidente.

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O endurecimento do discurso de Lula na segurança pública ocorre em um cenário desfavorável ao petista na área. Pesquisa BTG/Nexus divulgada no fim de agosto mostrou que 52% dos entrevistados dizem que Flávio é capaz de enfrentar o problema da segurança pública no País, ante 40% que apontam Lula.

A avaliação negativa também aparece em levantamento Datafolha de maio. Para 16% da população, a área em que o governo se saiu pior foi a segurança pública, o maior porcentual. Em seguida, aparecem saúde (15%), economia (13%) e combate à corrupção (13%).

Já levantamento Ipsos/Ipec do fim de junho apontou que a atuação do governo na segurança pública tinha 47% de avaliações negativas, atrás de controle e corte de gastos públicos, com 51%.

O local onde ocorreu o discurso também tem peso político. O Rio de Janeiro é o Estado em que o bolsonarismo foi forjado, em meio ao avanço da violência e do crime organizado, temas que ganharam espaço no discurso do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de seus filhos ao longo de suas trajetórias políticas.

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Em 2018, Bolsonaro recebeu mais de dois terços dos votos no segundo turno no Estado, enquanto o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) obteve 32,05%. Quatro anos depois, o placar no Rio de Janeiro foi de 56,53% para Bolsonaro, ante 43,47% para Lula.

No evento, Lula também citou o compromisso de recuperar territórios hoje em poder do tráfico de drogas. "Não tem sentido um bandido mandar numa favela, não tem sentido o bandido tomar conta do clube do bairro, não tem sentido isso. E eu sei que, sozinho, nenhum de nós vai conseguir resolver. É muito fácil criticar e é muito difícil construir", disse o presidente.

Mudança de tom

O tom usado na sexta-feira contrasta com algumas declarações mais recentes do petista. Em outubro de 2025, durante viagem à Indonésia, o presidente afirmou que os traficantes eram "vítimas dos usuários", ao criticar a política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de combater com Forças Armadas cartéis do narcotráfico na América Latina.

Diante da repercussão negativa, disse que a frase havia sido "mal colocada" e afirmou ter uma posição clara contra traficantes e o crime organizado.

Terrorismo

O petista aproveitou o discurso para rebater a decisão do governo americano de classificar facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas.

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"Eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas como diz o Trump", disse. "Quando o Trump fala em terrorismo, ele fala em terrorismo de Estado, ele fala da luta pela briga pelo poder. Quem era isso era o Bolsonaro, tentando dar o golpe dia 8 de janeiro, isso é terrorismo. Pensando em matar Lula e matar até o Alexandre Moraes", continuou.

Na avaliação do presidente, bandidos são terroristas "para a família que mora no bairro, para as pessoas que estão na escola, para as pessoas que querem dançar num bailinho qualquer na periferia".

A posição diverge da defendida por Flávio, que apoiou a classificação adotada pelo governo Trump. Em março, o senador defendeu a classificação de PCC e CV como organizações terroristas e, dois meses depois, disse ter pedido pessoalmente ao presidente americano que adotasse a medida.

O posicionamento mais duro de Lula ocorre após um avanço do filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais. Na última segunda-feira, 14, pesquisa Quaest trouxe Flávio numericamente à frente do petista, com 42% frente a 40% de Lula. O cenário, porém, é de empate técnico dentro da margem de erro do levantamento, de dois pontos porcentuais.

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Na quinta-feira, 17, pesquisa Atlas/Bloomberg também mostrou o senador à frente do presidente, com 47,2% das intenções de voto, ante 46,8%. A margem de erro é de um ponto porcentual para mais ou para menos.

Já Datafolha, também divulgado na quinta-feira, indicou empate técnico entre os dois. Lula teria 46% das intenções de voto, contra 44% do candidato do PL.

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