Um dia após ser confirmado como pré-candidato ao governo de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) saiu em defesa da ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), e disse que ela tem mais raízes em São Paulo do que o atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A ministra anunciou na semana passada que vai trocar o domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul para São Paulo e será candidata ao Senado na chapa de Haddad.
O petista criticou o vínculo do governador com o Estado em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira, 20. Segundo ele, um correligionário de Tarcísio chamou a ministra de "forasteira".
"Outro dia ouvi alguém do Tarcísio falar: 'como é que vocês vão votar para uma senadora forasteira?', se referindo à Simone Tebet. A Simone Tebet tem muito mais raízes em São Paulo (do que o Tarcísio), infinitamente mais. Tem duas filhas que moram há anos em São Paulo, ela visita São Paulo toda semana. Tem muito mais raízes em São Paulo do que o Tarcísio", disse o ex-ministro, acrescentando que "até hoje" Tarcísio não tem familiaridade com o Estado.
A assessoria do governador foi procurada pela reportagem para comentar a fala do ex-ministro. O espaço segue aberto.
A declaração ocorreu após Haddad ser questionado sobre a possibilidade de a campanha adversária explorar sua resistência em ser candidato ao governo novamente - o petista acabou cedendo após pressão de Lula. Haddad rebateu lembrando que Tarcísio levou tempo para abandonar o desejo de concorrer ao Senado por Goiás em 2022.
Exonerado da Fazenda nesta sexta, Haddad contou que, nos próximos dias, pretende se reunir com lideranças políticas do Estado para discutir a formação da chapa paulista. O petista conta que, no mínimo, deverá repetir a coalização de 2022, mas sinalizou que vai buscar diálogo com outros partidos, inclusive do campo conservador. A coligação do último pleito estadual reuniu a Federação Brasil da Esperança (PT/PCdoB/PV), o PSB, a Federação PSOL/REDE e o AGIR.
"Tenho muita fé que essa coalizão de 2022 vai ser mantida. Estou trabalhando com esse cenário. É daí para mais", declarou o ex-prefeito. "Não tenho nenhum preconceito contra apoio de partidos conservadores, respeitado o mandamento número um: princípios e valores não se abrem mão." Haddad citou o apoio que recebeu do PP à sua candidatura a prefeito de São Paulo, em 2012. Para ele, a aliança foi "decisiva" para ele vencer o pleito. "Eu não abri mão de absolutamente um item do ponto de vista programático. Não abri mão de nenhum princípio, nenhum valor. Na verdade, o PP até colaborou com o programa (de governo)."
Haddad desconversou sobre a formação de sua chapa e se limitou a dizer que ainda terá conversas com as lideranças do campo nos próximos dias, entre elas, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Márcio França (Empreendedorismo), ambos filiados ao PSB e cotados para a disputa ao Senado.
Na quinta-feira, 19, durante evento que oficializou a pré-candidatura do petista ao Palácio dos Bandeirantes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) admitiu que Alckmin pode deixar a vice para concorrer ao Senado em São Paulo, mas afirmou que o assunto ainda será discutido.
Haddad, por sua vez, afirmou nesta sexta-feira que Alckmin está "muito confortável" onde está e que o natural é ele ser novamente vice de Lula.
"Eu acho que é natural que o Alckmin seja o vice (do Lula), até pelos adjetivos que o próprio presidente fez questão de frisar ontem, no ato. O Alckmin é uma pessoa que está muito confortável onde está e todos nós estamos muito confortáveis com a solução que foi dada em 2022, da qual eu participei intensamente", disse o ex-ministro.
Haddad, porém, deixou claro que ainda discutirá o assunto com Alckmin.
"Como as coisas estão decantando, vamos ver como é que terminam as conversas com todos os setores da sociedade. Quero ouvir a opinião do governador Alckmin sobre as nossas chances aqui, qual que é a melhor composição para nós logramos êxito na eleição."
Haddad falou por diversas vezes que deseja fazer uma campanha de "alto nível", com debate de "ideias". O ex-ministro atribuiu a derrota de 2022 à dificuldade do PT de dialogar com o interior, onde o eleitorado é mais conservador e o antipetismo é latente.
"Nós temos, efetivamente, mais dificuldade com o interior. Eu fiz 55% dos votos na região metropolitana e 35% no interior. Foi por isso que nós perdemos a eleição", afirmou Haddad. "Continua o desafio de fazer um diálogo mais amplo com setores que são um pouco mais conservadores do que os da metrópole. E é um desafio que não é local, é um desafio mundial."
Haddad também disse que deseja "discutir as finanças do Estado" e sinalizou que uma das estratégias de sua campanha será mostrar à população os investimentos que o governo federal fez em Estado de São Paulo. O petista disse, no entanto, que embora os repasses sejam altos, "nem isso está ajudando", e fez um apelo para que se compare o que foi investido no Estado durante o governo Jair Bolsonaro (PL) e Lula.
Sobre o fato de agora enfrentar um candidato que disputará com alta aprovação e a máquina do governo estadual nas mãos, Haddad disse que a gestão Tarcísio tem muitas "vulnerabilidades" e sofre de uma "falta de encantamento" por parte da população. O ex-ministro, que vai agora recrutar especialistas para a montagem do plano de governo, disse de forma genérica que há "áreas problemáticas demais, que não avançaram" sob o governo Tarcísio.
Haddad também foi questionado se há alguma política de Tarcísio que ele cogita voltar atrás, como a privatização da Sabesp e o projeto do Novo Centro Administrativo. O petista respondeu que os governos do PT "respeitam contratos".