Conflito entre ex-primeira-dama e senador expõe racha no núcleo bolsonarista e estremece candidatura do filho de Jair Bolsonaro à Presidência. Em vídeos nas redes sociais, Michelle diz ter sido "humilhada" por enteado.Um conflito político e familiar envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, veio a público nesta semana, expondo divergências internas no Partido Liberal (PL) e revelando um racha dentro do núcleo bolsonarista.
O episódio ganhou repercussão após Michelle afirmar, em vídeos publicados nas redes sociais, ter sido "humilhada", "maltratada" e "desrespeitada" por seu enteado durante uma conversa telefônica ocorrida no fim de 2025.
Desde dezembro, quando Flávio anunciou que seu pai o escolhera como candidato do bolsonarismo à Presidência, Michelle se mantém afastada do projeto político dos filhos do marido, nunca havia expressado publicamente seu respaldo à candidatura do enteado.
Como começou a crise
Segundo Michelle Bolsonaro, a origem do conflito está nas articulações políticas para as eleições de 2026 no Ceará. A ex-primeira-dama se posicionou contra uma aliança do PL com o ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes, atualmente filiado ao PSDB. Ela defende que o campo conservador apoie o senador Eduardo Girão (Novo) na disputa pelo governo estadual.
Em um evento realizado em Fortaleza no fim de 2025, Michelle criticou publicamente a aproximação entre setores do PL e Ciro Gomes, lembrando que o político cearense fez duras críticas a Jair Bolsonaro durante os últimos anos. Para ela, uma eventual parceria seria incompatível com os valores defendidos pelo bolsonarismo.
Após o episódio, Michelle afirma que recebeu uma ligação de Flávio Bolsonaro que marcou o rompimento entre ambos. "Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou o telefone. E eu não tinha feito nada contra ele", disse a ex-primeira-dama.
De acordo com seu relato, o senador teria dito que ela deveria ficar fora das decisões partidárias e que "havia chegado ontem e não entendia de política". A ex-primeira-dama declarou que interpretou as palavras como uma humilhação e decidiu se afastar das articulações políticas ligadas ao grupo.
Outros motivos de divergência
Além da questão envolvendo Ciro Gomes, existe uma disputa interna sobre a candidatura ao Senado pelo Ceará. Michelle apoia a vereadora e dirigente do PL Mulher, Priscila Costa, enquanto setores do partido ligados a Flávio Bolsonaro apoiam o deputado Alcides Fernandes para a vaga.
Michelle também demonstrou insatisfação com a escolha do PL de lançar Carlos Bolsonaro para concorrer uma vaga ao Senado por Santa Catarina. Em fevereiro, a ex-primeira-dama publicou uma mensagem de apoio à deputada federal Caroline de Toni (PL), que também almeja uma vaga no Senado pelo estado catarinense. Em abril, ela voltou a divulgar em suas redes sociais conteúdos do senador Esperidião Amin (PP-SC), considerado o principal adversário de Carlos na disputa.
Essas divergências ampliaram as tensões dentro do partido e fortaleceu a percepção de que existem grupos distintos disputando influência no campo bolsonarista. Analistas políticos apontam que o caso ultrapassa uma simples discordância regional e revela diferenças de estratégia sobre os rumos da direita brasileira para as eleições de 2026.
As acusações de Michelle
Nos vídeos divulgados nas redes sociais, Michelle afirmou que ficou profundamente magoada com a postura de Flávio e sugeriu que houve um esforço coordenado para isolá-la politicamente. Ela declarou ter sido "apunhalada" e afirmou que não mantém diálogo com o senador desde o fim de 2025.
A ex-primeira-dama também rejeitou rumores de que estaria insatisfeita com a escolha de Flávio como principal nome do grupo para a disputa presidencial. Segundo ela, sua prioridade atual seria cuidar da família e apoiar Jair Bolsonaro.
A ex-primeira-dama ressaltou que, depois desse episódio, interpretou que seu respaldo a Flávio não era desejado.
"Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço".
A resposta de Flávio Bolsonaro
Após a repercussão das declarações, Flávio Bolsonaro publicou uma mensagem pedindo desculpas a Michelle caso ela tenha se sentido ofendida. O senador negou ter tido intenção de humilhá-la, afirmou que mantém respeito por sua atuação política e pessoal e disse ainda que "nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida".
"Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil", afirmou o senador em suas redes sociais.
Segundo ele, a família atravessa um momento delicado e sua intenção é buscar uma reconciliação.
Impacto político
O conflito surge em um momento sensível para o bolsonarismo, que se organiza para as eleições presidenciais de 2026. A exposição pública das divergências entre Michelle e Flávio pode dificultar a construção de uma imagem de unidade no campo conservador e gerar questionamentos sobre a capacidade de articulação do grupo.
Apesar da troca pública de acusações, ainda não está claro se o rompimento será definitivo. O pedido de desculpas feito por Flávio indica uma tentativa de reduzir a crise, mas as divergências políticas envolvendo o Ceará e Santa Catarina, além da disputa interna por espaço no partido permanecem sem solução.
Embora Flávio tenha pedido desculpas publicamente, as declarações de Michelle revelam um desgaste que já se arrasta há meses e que poderá ter reflexos importantes na estratégia eleitoral do bolsonarismo em 2026.
md/cn (ots)