"Me deem apenas um voto de confiança e nós teremos o nosso sindicato de volta", discursou o então jovem Luiz Inácio Lula da Silva para um estádio de futebol tomado por dezenas de milhares de trabalhadores.
Era meados de 1979, e o sindicato dos metalúrgicos do ABC Paulista, do qual ele era diretor, estava sob intervenção do governo do general João Batista Figueiredo em meio às pressões dos trabalhadores em greve.
Quase cinco décadas depois, ele volta ao mesmo lugar — o estádio Primeiro de Maio — pedindo novamente um voto de confiança. Neste domingo (16/8), quando a campanha desta eleição se inicia oficialmente, o PT comanda o ato em São Bernardo do Campo para marcar a última disputa eleitoral de Lula.
A BBC News Brasil apurou que, além do lançamento da campanha, o PT gravará cenas para sua propaganda eleitoral, cujo período de veiculação se inicia também neste domingo. Um jingle da campanha também será lançado na ocasião.
O presidente deverá discursar sobre um palco instalado no meio do campo de futebol — reproduzindo a configuração das assembleias sindicais da época da Grande Greve do ABC, entre o fim dos anos 1970 e o início da década de 1980.
O público ficará espalhado pelo gramado. Para encher o estádio, que nas arquibancadas comporta 12,5 mil pessoas, os diretórios regionais do partido estão organizando caravanas saindo até de outros estados. A expectativa é receber ao menos 20 mil pessoas, um teste do fôlego da militância petista.
"Recontar a história" do PT, fundado há 47 anos em São Paulo, é outro objetivo do ato deste domingo.
"Tem um caráter simbólico e educativo, porque as novas gerações não conhecem a história do PT", afirmou à BBC News Brasil o ex-ministro José Dirceu, candidato a deputado federal por São Paulo e um dos criadores do partido. "O PT precisa recontar sua história para o país." Ele não deve comparecer, porém, devido ao tratamento de um linfoma.
No mesmo domingo, aliados de Flávio Bolsonaro também organizam um comício em um local que, para o PL, é igualmente simbólico: a praia de Copacabana. Assim como a Avenida Paulista, em São Paulo, a orla carioca também abrigou dezenas de atos da direita nos últimos anos.
A reunião da militância petista em São Paulo e a da bolsonarista no Rio de Janeiro simbolizam a polarização e a disputa de forças entre os dois candidatos, cuja diferença nas intenções de voto é a mais acirrada da história.
As pesquisas eleitorais mostram uma margem muito pequena de diferença entre os dois candidatos. Segundo o agregador da BBC News Brasil, Lula tem 46% das intenções de voto, enquanto Flávio aparece com 42%, na simulação de 2º turno.
Por que a Vila Euclides
A Vila Euclides, bairro onde está situado o estádio Primeiro de Maio, carrega parte da história que o PT pretende recontar neste domingo.
O bairro surgiu na década de 1920, época em que São Bernardo do Campo era um subúrbio de São Paulo e ainda não tinha características industriais. Foi a partir da década de 1950 que as montadoras foram atraídas para a região do ABC, impulsionadas por políticas de incentivo à indústria.
A proibição da importação de veículos montados — instituída por Getúlio Vargas para forçar a produção interna — e, posteriormente, a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), por Juscelino Kubitschek, estão entre as mais importantes para o setor na época.
Mas a região também era estratégica: próxima à capital e às margens da Via Anchieta, era um canal direto ao Porto de Santos, por onde chegavam peças e componentes importados.
Assim, o ABC se tornou o berço automobilístico do país, abrigando montadoras como Ford, Willys Overland, Mercedes-Benz, Karmann Ghia, Volkswagen e Simca.
Para atender à demanda industrial, a mão de obra foi buscada em outras regiões do país. "Os trabalhadores não vinham por vontade própria. Eram recrutados no Nordeste e em estados como Minas Gerais, com a promessa de bons salários e uma cidade com infraestrutura", conta a urbanista Silvia Helena Passarelli, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC).
No entanto, chegando à região, a promessa se mostrava frágil. "É nesse momento que se dá a explosão de favelas", explica ela.
Esse fluxo migratório maciço fez São Bernardo do Campo saltar de 81,2 mil habitantes em 1960 para 425,6 mil em 1980 — em um ritmo de cerca de 20 mil novos moradores por ano somente na década de 1970.
O aposentado Geovaldo Gomes dos Santos, de 77 anos, foi um dos milhares de trabalhadores que chegaram nessa ocasião, vindo de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.
Com o objetivo de estudar e trabalhar, chegou a São Bernardo do Campo em meados de 1970. Ali cursou o ensino médio, depois metalurgia e, em 1973, entrou na Ford como técnico. Um ano depois, começou a trabalhar na Volkswagen.
Geovaldo recorda que, já em 1976, as assembleias do sindicato dos metalúrgicos eram grandes demais para o prédio da entidade. Na época, a categoria reunia cerca de 200 mil trabalhadores no ABC Paulista.
A massa de trabalhadores rapidamente transbordou as intermediações do sindicato, que buscou um lugar com uma dupla função: facilitar a comunicação com a categoria e proteger os grevistas da violência do regime militar.
O estádio da Vila Euclides, localizado entre o centro de São Bernardo e a Via Anchieta, onde ficavam as montadoras, era estratégico, portanto. Na época, o prefeito Antônio Tito Costa, do MDB — a única oposição ao Arena —, passou a ceder o estádio para as assembleias.
Mas a próprio Vila Euclides tem uma origem de classe distinta da dos operários que o tornaram famoso. O loteamento não foi concebido para trabalhadores fabris.
"Não eram casas de trabalhadores da indústria", diz Passarelli. "Talvez a do gerente estivesse lá, mas os trabalhadores estavam mais na periferia."
Geograficamente, o bairro é vizinho a Ferrazópolis, onde Lula vivia quando foi preso pelo DOPS em 19 de abril de 1980. Em abril de 2018, ele se entregou à Polícia Federal no mesmo local, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Hoje, embora viva entre Brasília e São Paulo há anos, ele ainda vota em São Bernardo.
De nome de general a homenagem proletária
Construído nos anos 1950 como campo de futebol da Fiação e Tecelagem Elni, o estádio da Vila Euclides foi incorporado pela prefeitura após o fechamento da fábrica e reformado com arquibancadas e iluminação.
Na inauguração oficial, em agosto de 1968, recebeu o nome de Arthur da Costa e Silva, um general-presidente da ditadura. O nome nunca fez sucesso entre a população, que seguiu chamando o lugar de Vila Euclides.
Depois da greve de 1980, o prefeito Tito Costa mudou oficialmente o nome do estádio para Primeiro de Maio.
A primeira grande assembleia na Vila Euclides aconteceu em 13 de março de 1979: 20 mil trabalhadores compareceram, apesar da chuva, segundo relatório da própria polícia política, o DOPS.
Ao todo, ao menos 18 assembleias foram realizadas no estádio durante o ciclo de greves de 1979-1980. Doze delas reuniram, segundo o DOPS, entre 40 e 70 mil pessoas. O sindicato afirma que as maiores ultrapassaram os cem mil presentes.
Sem sistema de som, Lula falava de um palanque improvisado para quem estava à sua frente — e a frase ia sendo repetida, de boca em boca, até alcançar o fundo do gramado.
Geovaldo se lembra do clima da época. "Passava pela cabeça que era possível modificar aquela situação de perseguição dentro da fábrica, de arrocho salarial e falta de democracia", conta. "Mas não passava nunca pela cabeça que um dia Lula seria presidente. Isso não."
Mesmo com helicópteros do Exército sobrevoando as assembleias, Geovaldo diz que nunca houve pânico generalizado. "O estádio sempre estava cheio, mas isso também nunca foi motivo de preocupação, de sair correndo, nada disso."
Para o sociólogo Ricardo Antunes, professor da Unicamp que estudou o movimento operário brasileiro por décadas e escreveu o livro A Rebeldia do Trabalho: O Confronto Operário no ABC Paulista, a geografia industrial da região explica parte do fenômeno.
"O ABC paulista concentrava seis das grandes fábricas automobilísticas e um conjunto enorme de operários, diferentemente de São Paulo, onde você tinha centenas de fábricas esparramadas", explica.
Segundo Antunes, o movimento do ABC teve um peso histórico diferente de outras frentes de oposição à ditadura, como o movimento estudantil ou os setores da sociedade civil, e marcou o papel da classe trabalhadora na luta contra o regime.
"Os operários metalúrgicos do ABC paulista foram decisivos", diz. "Foi uma nova fase da confrontação e da luta contra a ditadura militar."
Antunes lembra um episódio em que a polícia cercou o estádio durante uma passeata e ameaçou impedir a entrada dos metalúrgicos. A multidão avançou cantando "Chora Figueiredo, Figueiredo chora/ Chora Figueiredo, que chegou a sua hora", em referência ao general que presidia o país na época.
Diante do risco político de um confronto sangrento com dezenas de milhares de pessoas, a ordem foi liberar a passagem. "Ou matariam mil para assustar, ou liberariam. A repressão calculou que uma chacina custaria mais caro para a ditadura", diz o sociólogo.
Para Antunes, a figura de Lula foi importante por uma combinação rara: capacidade de escutar o que a base pedia e de traduzir isso em uma linguagem que mobilizava dezenas de milhares de pessoas sem microfone. "Ele tinha essa capacidade de falar com esses milhares e de verdadeiramente envolvê-los", diz.
Deste ciclo de greves nasceria, ainda na década de 1980, o movimento que originaria o Partido dos Trabalhadores.
O retorno, quatro décadas e meia depois
Antunes vê no ato deste domingo um gesto de busca por "oxigênio" político. Mas Lula e o PT não voltam para a mesma Vila Euclides. A cidade ao redor do estádio mudou radicalmente desde 1980.
A indústria, que em 2002 ocupava 42,4% dos empregos do município, caiu quase pela metade em duas décadas — em 2021, ocupava uma fração de 26,8%.
Símbolo deste processo, a Ford, que chegara à cidade ainda em 1915, fechou sua fábrica em São Bernardo em 2019, encerrando mais de um século de presença na região.
São Bernardo e a vizinha São Caetano do Sul, os dois redutos mais tradicionais da fabricação de veículos no país, foram os municípios que proporcionalmente mais perderam postos industriais na Grande São Paulo — em alguns levantamentos, a perda chega à metade do contingente historicamente empregado no setor.
Da efervescência dos anos 1980, restaram somente quatro montadoras na região: a GM, em São Caetano, e Mercedes-Benz, Scania e Volkswagen, em São Bernardo.
Os demais pátios automobilísticos estão espalhados pelo interior de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Bahia, segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Na mesma esteira, a indústria responde por apenas 23% dos empregos formais em São Bernardo, atrás de serviços, com quase 42%, e comércio, com 35%, de acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais de 2025.
A cidade também envelheceu: quase um quarto do eleitorado tem mais de 60 anos, e a faixa etária mais numerosa está entre 40 e 49 anos — um retrato distinto do operariado jovem e migrante que lotava a Vila Euclides em 1980.
Essa mudança estrutural também teve correspondência na política. Na última eleição presidencial, a cidade manteve o voto em Lula: ele recebeu o equivalente a 53,83% dos eleitores, enquanto Jair Bolsonaro (PL) foi a escolha de 46,17% deles.
Mas após comandar o município por 24 anos, consequência direta do capital político acumulado pelo PT desde as greves, o partido perdeu o posto em 2016 e não conseguiu retomar a prefeitura desde então.
Nas eleições municipais de 2024, São Bernardo elegeu Marcelo Lima (Podemos), com 55,74% dos votos em uma disputa de segundo turno contra Alex Manente, do Cidadania, sem qualquer candidato do PT no páreo — no primeiro turno, o candidato petista Luiz Fernando obteve apenas 23,09% dos votos.
Geovaldo Gomes dos Santos nunca saiu de São Bernardo. Décadas após deixar o chão de fábrica, o aposentado segue morando na cidade que o recebeu quando jovem.
Neste domingo, ele conta que deve comparecer ao mesmo estádio em que acompanhou dezenas de assembleias, com a expectativa de rever amigos da militância e ouvir Lula.
O estádio da Vila Euclides, epicentro da convulsão social ocorrida no maior centro industrial da América Latina em 1979 e 1980, faz parte do caminho do ex-metalúrgico com frequência. "É uma memória que está muito viva na gente."