Lula venceu a eleição presidencial com 51,79% dos votos após virar a disputa no segundo turno, impulsionado pela mobilização digital e pelo desempenho em Minas Gerais e no Nordeste. Apesar da derrota nas urnas, especialistas avaliam que o bolsonarismo permanece fortalecido com expressiva bancada no Congresso, o que exigirá constante mobilização popular para garantir a governabilidade. O resultado também representa um revés para a extrema direita internacional e preserva o STF.
Lula foi reeleito neste domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário, que não reconheceu o resultado. Após encerrar o primeiro turno atrás nas urnas, o petista virou o jogo em três semanas e terminou a disputa com uma vantagem de 4,4 milhões de votos, impulsionado pela conquista da maior parte dos quase 5 milhões de novos votos surgidos entre os dois turnos.
Para Hervé Théry, professor da USP e diretor de pesquisas no CNRS francês, embora o Nordeste tenha mantido seu papel como principal reduto eleitoral petista, a diferença decisiva surgiu em outras regiões do país, sobretudo em Minas Gerais. O geógrafo vê o estado como um retrato das tendências políticas nacionais e considera que ele voltou a desempenhar o papel histórico de fiel da balança das disputas presidenciais.
"O grosso dos votos veio do Nordeste, que é a base principal do PT, e era esperado. O que mudou mais é que teve uma virada e que veio também de outras regiões, especialmente de Minas Gerais. Acho que mais uma vez Minas Gerais foi o pivô do Brasil, o espelho no qual você vê o Brasil", afirma.
A análise converge com a de Thomás Zicman de Barros, membro do Centro de Pesquisa em Ciência Política da SciencesPo Paris e colunista de política internacional da RFI. Para ele, a campanha de Lula conseguiu explorar com eficiência o terreno das redes sociais, tradicionalmente associado ao bolsonarismo. Nesse processo, destaca a atuação do deputado André Janones e o engajamento espontâneo de apoiadores que passaram a se organizar nas ruas e no ambiente digital.
"Foi muito importante para a vitória do Lula as mobilizações nas mídias digitais. O deputado André Janones tem uma responsabilidade muito grande", disse.
Exército do Lula: 'Uma façanha'
Na avaliação dos dois especialistas, a ofensiva digital montada após o primeiro turno foi um dos elementos mais importantes da virada. Théry acredita que a experiência brasileira pode servir de exemplo para democracias europeias confrontadas com o crescimento da extrema direita impulsionado pelas redes sociais. Segundo ele, a criação do chamado Exército do Lula mostrou que as mesmas ferramentas utilizadas para difundir discursos radicalizados podem ser empregadas para organizar uma resposta política eficaz. "A criação do Exército do Lula, com 10 milhões de participantes em poucos dias, é uma façanha", resume.
Para Zicman de Barros, a explicação para o resultado também passa pelos erros cometidos pela campanha adversária. O cientista político considera que Flávio Bolsonaro transmitiu a sensação de que a vitória já estaria assegurada após ter terminado o primeiro turno à frente do petista. Essa percepção, segundo ele, foi reforçada pelo desempenho nos debates televisivos.
"Houve equívocos da parte da campanha de Flávio Bolsonaro, que chegou num já ganhou depois do primeiro turno", diz. "Eu acho que ele soou um pouco arrogante também."
Desafios do próximo governo
O fortalecimento do bolsonarismo no Congresso é, para Thomás Zicman de Barros, um dos principais desafios do próximo governo. Ele avalia que o movimento chega ao pós-eleição diante de uma "encruzilhada" e de um "paradoxo": "por um lado perderam a eleição presidencial, mas, por outro lado, eles garantiram essa força muito grande no Parlamento".
Na avaliação do pesquisador, a nova correlação de forças tornará a governabilidade mais difícil para Lula. Por isso, o presidente precisará preservar a mobilização que o levou à vitória. "Vai ser muito difícil para o Lula nos próximos anos conseguir governar. Acho que ele vai precisar, como falou ontem na Avenida Paulista, continuar mobilizando essa base, essa base que foi para as ruas, que garantiu essa vitória e a preservação também da democracia no Brasil", afirma.
Zicman de Barros acredita ainda que a derrota eleitoral não encerra a influência do bolsonarismo.
"O bolsonarismo vai continuar forte, vai continuar tentando desestabilizar o governo Lula. E, como Lula disse, vai ter que governar de um jeito diferente do que fez até agora", avalia. "Será que isso é estável no médio prazo? Não sei."
Para o analista de política internacional, o novo cenário também reduz o espaço para uma prática tradicional da política brasileira: a mediação exercida pelo Centrão. Segundo ele, o grupo saiu enfraquecido do processo eleitoral, enquanto a extrema direita ampliou sua influência, especialmente no Senado.
"O grande derrotado das eleições legislativas e das eleições presidenciais de maneira mais ampla foi o chamado Centrão", afirma. Na sua avaliação, o presidente precisará construir uma administração "mais aberta, mais porosa a essas vozes das ruas" para superar as dificuldades que encontrará no Congresso.
Théry compartilha essa avaliação. Embora reconheça que a relação cotidiana entre governo e sociedade tende a se tornar mais difícil após a eleição, ele acredita que Lula possui uma vantagem importante: sua trajetória política e sua capacidade de diálogo com setores populares.
"Ele tem um passado que garante isso. Oriundo dessa população humilde, ele tem diálogo com o Nordeste", observa. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva: "As coisas que você diz logo depois de uma eleição é uma coisa, o que você faz durante quatro anos é outra. Tomara que a lição não seja perdida."
Revés para Donald Trump
Os dois especialistas também veem consequências que ultrapassam as fronteiras brasileiras. Para Zicman de Barros, a reeleição de Lula representa um revés para a estratégia de influência regional da direita alinhada ao presidente americano, Donald Trump, e preserva a tradicional autonomia diplomática do Brasil.
"É uma derrota para a administração Donald Trump", resume. "O Brasil, esse país que tem metade do PIB e metade da população da América do Sul, não se alinha automaticamente com os Estados Unidos."
Na frente institucional, Théry considera que um dos aspectos mais relevantes da vitória de Lula foi impedir que Flávio Bolsonaro tivesse a possibilidade de indicar quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal ao longo de um eventual mandato. Para o pesquisador, esse era um dos principais riscos apontados por setores que se opunham ao candidato do PL.
"O mais importante é que o pior foi evitado", afirma. "Bolsonaro indicando quatro juízes para o Supremo seria a possibilidade de mudar a Constituição."
Fator 'ideológico' no pânico dos mercados
Questionado sobre as reações negativas de parte do mercado financeiro ao resultado das urnas, Zicman de Barros relativiza os temores manifestados por investidores. Com formação em economia e passagem pelo setor financeiro, ele sustenta que o mercado nem sempre reage apenas a critérios técnicos.
"O mercado às vezes se apresenta como um agente racional, mas também é um agente bastante ideológico", afirma.
Na sua avaliação, os principais desequilíbrios das contas públicas têm relação com o fortalecimento do poder do Congresso sobre o orçamento nos últimos anos. Por isso, considera injustificada a percepção de pânico observada logo após a divulgação do resultado.
"Acredito que o presidente Lula teria condição, sim, de ajeitar a economia", diz. "Não só a democracia brasileira sai fortalecida com o resultado, mas acho que a própria economia brasileira também pode sair ganhando."
Ao analisar os próximos passos da disputa política, o cientista político considera remota a possibilidade de uma reversão do resultado pela Justiça Eleitoral. Para o ele, a expressiva mobilização registrada entre os dois turnos reforçou a legitimidade da vitória de Lula e dificulta questionamentos institucionais.