Flávio muda a rota e agora diz que vai pedir ao TSE cassação da chapa Lula-Alckmin

Especialistas dizem que o argumento da anulação do pleito se tornou frágil e, por isso, o senador poderia ter corrigido a rota.

26 out 2026 - 19h13
(atualizado às 20h31)
Resumo
Após ser derrotado nas eleições presidenciais, o senador Flávio Bolsonaro anunciou que pedirá ao TSE a cassação da chapa Lula-Alckmin por suposto abuso de poder e extensão de votação, abandonando a tese de anulação do pleito. A posição contrasta com a de seu partido, o PL, que reconheceu o resultado oficial. Autodeclarado líder da oposição, Flávio também foi intimado pela PF a entregar o passaporte por ordem do STF, corte em que é alvo de apurações sobre lavagem de dinheiro e financiamento ilegal.
Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro.
Foto: Adriano Machado/Reuters / BBC News Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou nesta segunda-feira (26/10) que pedirá a cassação da chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo com 51,79% dos votos contra 48,21% do senador.

Em um vídeo publicado em suas redes sociais, Flávio afirma que Lula cometeu "abusos" na campanha. E menciona a prorrogação do horário de votação — determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Cristiano Zanin, após um pedido da campanha de Lula — como uma das razões para seu pedido.

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Sem apresentar provas, o senador disse também que a campanha de Lula realizou uma "difusão em massa de mentiras" e que o presidente cometeu abuso de poder político e econômico, ao "injetar quase meio trilhão de reais de dinheiro público para fazer a maior compra de votos da história das eleições no Brasil".

O eventual pedido de cassação da chapa do petista representa uma mudança de rota na estratégia do bolsonarista de contestar o resultado das urnas.

Também nesta segunda, o PL, partido de Flávio, reconheceu o resultado das eleições, em contraste com a posição do senador.

Em nota assinada pelo presidente do partido, Valdemar Costa Neto, o PL afirma que reconhece o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas que "questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos".

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"Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático. Seguiremos acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência e respeito às instituições", diz trecho da nota publicado na rede social.

No domingo (25/10), após a confirmação do resultado, Flávio havia dito que não reconhecia a derrota e que pediria a anulação da eleição, argumentando que o horário havia sido estendido.

No entanto, a própria campanha do senador pediu, durante a votação, a prorrogação da eleição em algumas cidades do Sul e de São Paulo, alegando que o mau tempo poderia ter atrapalhado o deslocamento dos eleitores.

"É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico e vamos pedir a anulação dessas eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo mais uma vez pelos amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal", disse Flávio.

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O senador afirmou que iria recorrer mesmo depois de o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, dizer que a segurança das eleições não foi comprometida.

"Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial. Houve prorrogação na forma em que foi decidida. O TSE cumpriu a decisão nos estritos termos em que ela foi proferida e logo após demos fluência à totalização e à disponibilização. Então, temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral", disse Nunes Marques ao anunciar o resultado final das eleições.

Agora, Flávio fala em pedir a cassação da chapa de Lula, alegando abuso de poder político e econômico.

O advogado eleitoral Alberto Rollo explica que a mudança de rota na estratégia de contestação do pleito pode ter argumentos jurídicos.

Um levantamento da BBC News Brasil identificou 33.866 votos para presidente registrados após as 17h, o que representa 0,026% do total de 128.236.074 votos registrados no segundo turno da eleição.

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Ocorre que Flávio perdeu para Lula por 4,4 milhões de votos. "Ou seja, os votos contados após as 17h são insuficientes para alterar o resultado da eleição", diz Rollo. "Não existe nulidade sem prejuízo."

A BBC News Brasil tentou confirmar com o assessor de imprensa de Flávio se a campanha desistiu do pedido de anulação da eleição, mas não houve retorno.

Mas o advogado Fernando Neisser, também especialista em direito eleitoral, concorda com a fragilidade de um pedido de anulação diante dos números.

"Claramente, o Flávio percebeu que, diante dos números, a tese de que a extensão do horário teria causado alteração no resultado eleitoral não se firma", diz.

Ação já condenou Jair

O pedido de cassação da chapa pode ser realizado por meio de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), que tramita na Justiça Eleitoral.

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Foi por meio de uma AIJE que Jair Bolsonaro se tornou inelegível até 2030. Ele foi condenado por abuso de poder político e econômico e dos meios de comunicação, depois de realizar uma reunião no Palácio do Planalto com embaixadores estrangeiros, em 2022, na qual fez vários ataques ao sistema eleitoral brasileiro. O encontro foi transmitido pela TV.

Em seguida, o vice de Bolsonaro, o general Walter Braga Netto, também se tornou inelegível por abuso de poder político e econômico nas comemorações do Bicentenário da Independência.

O mesmo recurso foi utilizado para tentar cassar a chapa de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), em 2014. O PSDB moveu a ação argumentando que a chapa fora eleita com o uso de caixa 2 na campanha.

Em 2017, o TSE concluiu o julgamento, absolvendo Dilma - que já havia sido cassada pelo processo de impeachment - e Temer, na época presidente, por falta de provas.

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Os especialistas afirmam que esse tipo de ação é longa e pode levar de um a dois anos, ao menos, para ser concluída. E que existem outras delas protocoladas tanto pela campanha de Lula quanto pela de Flávio, em tramitação no TSE neste momento.

Senador disse no domingo que pediria a anulação da eleição
Foto: Adriano Machado/Reuters / BBC News Brasil

'Líder de oposição' e passaporte apreendido

Ainda no vídeo divulgado nesta segunda-feira, Flávio se coloca como o líder da oposição, embora ainda não tenha reconhecido o resultado das urnas.

"A tendência é a economia ruir, a inflação explodir, e o resto de liberdade de expressão que ainda nos resta ser encerrado nas redes sociais. Para resistir ao caos, eu vou organizar a oposição", afirmou ele.

O senador também afirmou que foi abordado pela Polícia Federal na manhã desta segunda, quando saía de casa para visitar o pai, preso em regime domiciliar.

Segundo Flávio, a PF o intimou a entregar os passaportes e o proibiu de deixar o país.

A intimação foi uma decisão do ministro Alexandre de Moraes de domingo, que deu um prazo de 24 horas para que Flávio entregasse o passaporte.

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Flávio é investigado em dois inquéritos no STF. Um deles apura lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas e envolve também o advogado Willer Tomaz, que está em Miami.

Procurada pela BBC News Brasil sobre o caso Willer Tomaz, a defesa de Flávio não respondeu. Em nota enviada ao Estado de S. Paulo, o senador negou estar sendo investigado no STF.

"Os autos que chegaram à Corte sequer foram convertidos em inquérito, não houve manifestação da Procuradoria-Geral da República ou qualquer decisão judicial a respeito. Noticiar como 'novo inquérito' o que não passa de um expediente recém-autuado, pendente de análise, distorce a realidade e induz o leitor a erro", disse.

Por meio de nota à BBC News Brasil, o escritório de Willer Tomaz criticou o vazamento de informações sigilosas a poucos dias da eleição e disse que "todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda".

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"Não há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto, integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas", reforçou.

"O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer empresa do advogado. A relação entre os dois é de amizade entre famílias, e amizade não é crime", disse ainda.

Outro inquérito apura o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair. Conversas vazadas do celular de Daniel Vorcaro, preso desde março, mostraram que Flávio pediu dinheiro ao banqueiro para financiar o longa.

Os R$ 134 milhões pedidos pelo senador eram quase o dobro do orçamento total do filme — R$ 75 milhões —, segundo a produtora Go UP Entertainment.

Os investigadores suspeitam que o dinheiro tenha servido para bancar o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.

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Sobre o caso Dark Horse e o dinheiro pedido a Daniel Vorcaro, Flávio nega qualquer ilegalidade.

Em entrevista na semana passada, Eduardo defendeu que, em caso de derrota nas urnas, Flávio deveria deixar o país.

Mas no vídeo desta segunda, Flávio afirma que nunca disse que deixaria o país. "Eu nunca pensei em sair do país", disse.

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