Direita brasileira aposta no "modelo Bukele" para atrair eleitores cansados da violência

25 jun 2026 - 09h40

Candidatos de direita à Presidência estão prometendo importar ‌o "modelo Bukele" de El Salvador, com a construção de prisões e o endurecimento do combate ao crime nos moldes do presidente linha-dura salvadorenho Nayib Bukele, na tentativa de tornar a segurança pública um tema central de suas campanhas nas eleições de outubro.

As propostas mostram a influência de Bukele, que restringiu direitos civis ao mesmo tempo em que reduziu drasticamente os índices de criminalidade, inspirando imitações em toda a América Latina. 

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Candidatos de direita na Colômbia e no Peru triunfaram em eleições presidenciais nas últimas semanas fazendo campanhas fortemente pautadas no ⁠combate ao crime.

No Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) viajaram a ‌El Salvador e visitaram o mega-presídio Cecot, com capacidade para 40.000 detentos, buscando conhecer o sistema e angariar apoio eleitoral a medidas mais duras contra o crime.

Flávio, que tem o melhor desempenho nas pesquisas entre os pré-candidatos de direita na corrida presidencial brasileira, apresentou ‌na semana passada um plano de segurança pública que inclui "cinco novos presídios de ‌segurança máxima nos moldes do modelo de El Salvador".

"Mais presídios e menos bandidos soltos", prometeu o senador em evento público, ⁠ecoando seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que também fez campanha com um discurso duro contra o crime.

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Junto com o seu irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, o senador também se reuniu com o ministro da Segurança de Bukele em El Salvador no ano passado, assim como Ferreira, o deputado federal mais votado do Brasil em 2022.

A admiração pela abordagem de Bukele em matéria de segurança pública está se tornando um consenso entre as lideranças conservadoras do Brasil.

O pré-candidato à Presidência Zema elogiou a abordagem "pragmática" de El Salvador em entrevista ‌à Reuters no início deste ano.

"Em El Salvador... bandido fica preso. Aqui no Brasil, bandido fica solto", disse.

O governador de São Paulo, Tarcísio ‌de Freitas (Republicanos), também sugeriu que El Salvador tem ⁠lições a oferecer ao Brasil.

"Mal comparando, ⁠vamos ver o que o Bukele fez em El Salvador, o que era e o que é", disse ele em evento público no final ⁠do ano passado, defendendo medidas mais rígidas para conter o crime.

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"Que a gente ‌comece realmente a enfrentar o crime com ‌a dureza que ele merece ser enfrentado."

O APELO DE BUKELE

A abordagem de Bukele no combate ao crime combinou um estado de emergência que já dura há anos, prisões em massa, policiamento com apoio militar e a enorme prisão Cecot. Seu governo afirma que a estratégia provocou uma queda histórica nos homicídios e quebrou o domínio das gangues que antes aterrorizavam El Salvador.

A ⁠repressão também restringiu direitos constitucionais, a liberdade de imprensa e a independência do Judiciário. Grupos de direitos humanos acusaram as autoridades salvadorenhas de prisões arbitrárias generalizadas e tortura. O governo de Bukele nega os abusos e afirma que medidas extraordinárias foram necessárias para desmantelar as gangues.

Em toda a América Latina, o apelo político tem sido evidente.

A Costa Rica recebeu Bukele em janeiro para inaugurar sua própria prisão no estilo Cecot, construída com apoio salvadorenho. A presidente Laura Fernández ‌assumiu o cargo no mês passado prometendo uma "guerra pesada contra o crime organizado".

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Na Colômbia, o presidente eleito Abelardo de la Espriella fez campanha com um plano para 10 novas mega-prisões, gerando comparações na mídia com o líder salvadorenho, o que ele rejeitou.

No ⁠Peru, onde as preocupações com a segurança dominaram o pleito presidencial deste ano, a provável presidente eleita Keiko Fujimori fez campanha por uma "guerra frontal" contra o crime, leis antiterrorismo mais rígidas e um papel maior para as Forças Armadas.

"Em toda a região, eleitores que enfrentam insegurança crônica e crescente desconfiança estão recompensando líderes que prometem controle decisivo", escreveu Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, no periódico Rusi Journal neste mês.

Ele alertou que "estratégias de mão pesada carregam riscos bem conhecidos quando são mal planejadas e politicamente recompensadas".

Esses riscos podem ser especialmente agudos no Brasil, onde o encarceramento em massa não conseguiu conter o crime organizado. Os dois maiores grupos criminosos do Brasil, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, cresceram de gangues prisionais para organizações de tráfico de drogas nacionais e transnacionais.

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O Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, que quase quadruplicou entre 2000 e 2024, chegando a cerca de 909.000 detentos, operando bem acima de sua capacidade, de acordo com o World Prison Brief da Universidade de Londres.

"O Brasil é muito mais complexo do que El Salvador, e seria muito difícil implementar algo assim aqui", disse Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

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